terça-feira, julho 31, 2007

tristeza

Voltaste. Trouxeste as incertezas das palavras que pedi mas não me deste, das primaveras céleres de cada infância da alma. A minha alma hoje está demasiado velha, demasiado madura, prestes a desprender-se de uma árvore e aterrar no chão. Estou prestes a aterrar no chão também. Dessa árvore onde fiquei à tua espera e tu não me vieste buscar. Tristeza porque voltaste? Arrastaste a melancolia contigo e voltei a sentir o aroma das lágrimas que não saíram por um triz. Continuo a guiar uma bicicleta pelo campo numa descida vertiginosa de pensamentos que acabam em curva. Tristeza vieste mais cedo. Corrompeste tudo à tua passagem e escancaraste as janelas e as portas. Não te esperava tão cedo mas não te vou servir um chá. Porventura é do calor que aquece as vidraças ou do meu vestido vermelho que roda ao acaso nas ruas desta cidade. O facto é que a tristeza hoje teve uma especial afeição por mim. Quanto a ti, saí da capa do teu álbum e fiquei à espera na árvore. Plantada a dez quilómetros de lado nenhum. Que é para onde vou com as linhas deste poema-prosa.

Há mais peixes no mar

A resposta veio em tom displicente. O corpo bamboleando ao som das palavras que tilintavam como as pulseiras. O olhar frio e sarcástico. Há mais peixes no mar. Bem podes nadar para outro lado. Naquela altura ele queria nadar na mesma direcção que ela. Não tardou muito que cedesse a uma dança e quando deu por si já dançava nesse mar. Ele não passava de um pescador com redes enormes de frases feitas. Caiu na rede e nas frases, enquanto tentava colocar vírgulas que a impedissem de cair no insidioso plano dos apaixonados. Estava tão habituada a dar cartas e pontos finais. Mas o pescador é que dava a linha e ela nem percebia. No fim também foi ele que perdeu. Não restava muito para eles. o pescador prometeu mas nunca cumpriu. O amor deles não era mar. Era um aquário. Um dia o vidro estalou. Ao acordar naquela manhã ela soube então: o amor não é um aquário. Mergulhou no mar com caudas de sereia e nadou nas frases feitas até às profundezas da sua vontade. No local onde o mar se abria em anémonas de luz e de sorrisos. Onde as caudas brilhantes de um peixe desconhecido douravam o silêncio de mil eras. Sempre havia mais peixes no mar. E no fim nunca mais quis aquários. Porque só no mar se aprender a amar.

Carrossel

A minha pele transpira o teu cheiro, o meu coração ainda bate no impulso das tuas mãos nas minhas costas, as bocas desafiando-se mais e mais, mordendo-se de ódio por se amarem. Adormeci e senti-te de novo, acordo e não sei se te vivi ou apenas te sonhei, o que somos parece a mais louca fantasia, obsessão disputada a quatro mãos, nunca realidade. O que quero não é a ti mas o rodopiar do vestido quando dançamos, o verde ofuscante no escuro da pista, a música que enrola o cabelo e enlouquece as pernas. Deixa-me girar sempre em ti, só sou vida quando te amo.

segunda-feira, julho 30, 2007

Cinderela

Dança. No teu passo desengonçado de cinderela abandonada. Já passam cinco minutos depois da meia noite. O rimel esborratado. O coração totalmente desmaquilhado, afinal com a noite caíram as sombras... e as esperanças, sem sombra de dúvida. Só a sombra da noite. E a cinderela que dança embriagada de uma dor que não tem nome. Dança com os braços em volta de si mesma, dança com a sua dor. Perdeu o sapato, o sorriso e o sonho. E dança com a solidão, a saudade e o silêncio. Não vale a pena perguntar pelo príncipe. A cinderela dança sozinha para esquecer. Numa dança sem música e sem passos definidos. Arrastando os pés pelo soalho que range.

Mãe

Era uma vez. Bem não foi só uma vez. Era apenas uma de tantas vezes. Os gritos que se atropelavam sem respeitar semáforos. Sons de portas que se fechavam e se abriam e se batiam com força. Já sem forças tento explicar-te ainda quem eu sou. Eu sei perfeitamente quem és. Estiveste naquela cama do hospital em que nasci de dentro de ti, parte de ti, peça infinita do teu mais escondido puzzle. Só que agora as peças são muitas, mãe, e já não me podes ajudar a encaixá-las a todas. Algumas delas nem sei se saberias onde colocar. Só tu continuas a gritar sozinha como se ainda estivesse presa a uma qualquer membrana do teu corpo. Fecho a porta em tom zangado. Escorrem lágrimas que ensopam a alma. Espirro. Será um espirro de dor da alma?Por entre os aguaceiros de lágrimas. Só as minhas lágrimas pareces não sentir, tu que dizes que fazes tudo por mim e eu nem ligo. Eu quero reparar mas preciso que repares menos em mim, que me deixes passar as paredes como os fantasmas, por vezes, sem que seja notada. Sem mexeres na minha vida e as minhas coisas. Pode doer, mas eu já não sou parte de ti. Somos dois afluentes, mesmo que acabemos por desaguar no mesmo rio. Eu gosto de ti , sabes? Até mesmo nas tuas palavras vestidas de dureza, por entre o teu cabelo loiro-pintado. Ergues as sobrancelhas. Não vais ficar sem resposta. Talvez seja mesmo uma filha da mãe. Filha da minha mãe. Só porque sou demasiado parecida contigo. Já te disse. Não encaixes todas as minhas peças. Mesmo que erre muitas vezes. Um dia este puzzle será completo. Não nos faças desaguar em rios diferentes.

domingo, julho 22, 2007

Lembra-te de mim

Lembra-te de mim. O medo corroeu os cordões dos sapatos e de repente mordeu-me o dedo do pé. De súbito poderias acordar e maquinalmente desfrutar um dia maravilhoso e ensolarado, sem que a tua mente se cruzasse (nem sequer uma vez) com um pensamento de mim. Nem sequer se iria cruzar, quanto mais um engarrafamento de pensamentos de mim ou um choque em cadeia, como os que às vezes tenho, de ideias de ti. Responde-me! Pergunto quase a lacrimejar e a gritar num sussurro que não parta louça. Um sussurro que não arraste tapetes ou interfira nas conversas de alguém. Afinal só poderia ser um sussurro, porque estou a pensar o que não tenho coragem de te dizer. Repito a pergunta presa na retórica do monólogo interior. Não quero que me percas no labirinto de ti. Tenho medo que olhes o céu e eu não seja nenhuma estrela, que não seja mais que uma chamada em espera no teu telemóvel, uma sombra de algo que ficou para trás mas não apetece pensar nem por um segundo, quanto mais um minuto. O medo já acendeu o rastilho e eu seguro-me ao corrimão para não escorregar, sigo com o coração a cambalear até ao final da escadaria das dúvidas. Fecho-me em copas porque esta pergunta não pode sair do meu baralho. Esta jogada eu não posso fazer. Ou irás jogar um cheque-mate mesmo que isto não seja xadrez. Eu não te quero prender. Apenas não te esqueças de mim. A cada dia, como se cada dia fosse um degrau. Não podes descer dois degraus de cada vez. Desce comigo os degraus. O medo levantou as antenas e grita cada vez mais alto. Ninguém mais ouve mas na minha alma-sirene os apitos seguem-se sem ter fim. Lembra-te de mim. Lembra-te de te lembrares de mim.

sexta-feira, julho 20, 2007

BRUXA

Corrige-me se estiver enganada. Como se fosse possível algum engano. Esbofeteia-a um calor infernal enquanto escreve as linhas de uma discórdia inacabada. Corrige-me se estiver enganada. Mas ela sabe que não está enganada, é apenas enganada. Por aqueles que não sabem ou sabem mas não querem saber de quem é. Porque ela é mais que eles, ela é grande, tempestuosamente grande, enorme, gigantesca, avassaladora, montanhesca e esca e esca e esca. E está tão cansada. Tão cruelmente cansada de recitar sozinha o monólogo da vida. Cansada cansada e cansada outravez. E se não está enganada preferia estar. O calor vai desaparecendo e dá lugar a um céu promíscuo malagueta-sangue a penetrar na carne com ventos que cirandam sem cessar. Os zumbidos do vento também não deixam margem para engano. A mudança está próxima. E ela não está de certo enganada. A mãe ensinou-a a escutar as rochas, os ventos, as luas cheias e as luas vazias da sua alma. Estudou escrupulosamente os astros e as madrugadas, os amanheceres e os significados da natureza. Conhece a leitura das mãos como a palma da sua. Tão pequena e de dedos finos onde os anéis baloiçam. Sente o poder da noite que chega e a lareira que arde aos seus pés. Ainda ressoa nos ouvidos o que lhe disseram, o que lhe chamaram, o que lhe quiseram fazer. Só que ela é forte, robusta, poderosa, poderosíssima e não está enganada. Está apenas só. irremediavelmente só.

domingo, julho 15, 2007

Sunset broke in my hometown

Arde a vida como o Sol na pele. Rastilho sempre prestes a beijar a bomba. Não somos todos um texto no último parágrafo? O medo não é the end, o medo é o fim. Que a vida se esgote sem se ter gasto.
Quando a emoção é uma data de números grandes, a vida é um calendário e o despertador está estragado. Gritem-me, porque acho que estou surda.

segunda-feira, julho 09, 2007

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"La vida es como la espuma, por eso ay que darse como el mar."

(in Y tu máma también)

Meninos perdidos

Desilusionei-me de ti. Os teus truques já não me fazem rir, pequeno mágico. Não há magia, não é de perlimpimpim o pó que restou, as palavras de data cada vez mais longe, quase iguais às que se amontoam na caixa de mensagens e hoje, és tão nome quanto o resto das mãos que para mim escrevem. Sempre fui descobrindo os teus truques, mas nunca pensei que me desencantassem assim. Porque em cada um deles vivia o teu imenso sorriso, grande demais para ser mentira. Mas era tudo ilusão, cega de vendas coloridas, baralhavas-me de ouros e lançavas-me espadas. Comigo não jogas mais, pequeno mágico. Pudesses tu abraçar-me e viver quem sou, sem mais inventar. Pudesses tu tirar da cartola um sonho que fosse mesmo real. Não podes. Não consegues.
Apago a luz, e não há mais palco para ti em mim.

domingo, julho 08, 2007

noite perdida

A noite estava perdida, não sabia como se encontrar, vagueava sem destino enquanto a lua austera piscava o olho com ar vaidoso. A noite procurava o amor, que tinha cozido à sua sombra há tanto tempo e com tantas linhas. O amor astuto passou anos a tentar livrar-se das linhas e finalmente tinha conseguido. E agora a noite tinha perdido as estrelas e a gravidade flutuante de todas as coisas havia desaparecido. Só um silêncio-toupeira, vindo do mais fundo da terra cercava todos os monte e vales que a noite percorrera vezes sem fim, cozida ao amor por linhas invisíveis. Só agora sentia no seu vazio de estrelas a plena certeza de que qualquer encruzilhada era mortífera sem amor. Iria encontrá-lo, talvez um dia, mergulhado noutra claridade que não a lua que os havia iluminado, num charco de água ou em qualquer outro lugar. E para uma noite perdida que não se conseguia achar só restava ver o sol raiar e voltar para a toca até um novo amanhecer. Apenas mais um no rol dos dias, embrutecido pela falta do calor e da volúpia do amor, cozido ao sonho e à noite por linhas tão ténues que acabaram por ser quebrar na quebradiça roda viva da vida.

Estrangeiros

Eram loiros e magros, brancos de chuva. Falavam inglês de olhar azul gélido sem olhar para o outro. Ela tinha ombros ossudos, olheiras cavadas e escuras, ponto negro na típica beleza britânica. A pele enrugada traía os jovens calções amarelos e t-shirt branca. A boca era fina e sem lábios, o quadro (im)perfeito de um semblante rígido mas nervoso.
Comiam gelados de cone-bolacha e morango, iguais. Ela mais voraz que ele, o pequeno e magro pulso tremia de gula e a cara ficava mais sulcada e velha quando atacava o gelado, mordia com raiva. Ele nem reparava, era igual em cor mas com ar vivo e decidido. Comia com calma contemplando o mar. Sentaram-se na mesa em frente à minha, ela na minha direcção encostada ao vidro e ele duas cadeiras de distância dela do lado oposto.
Só se encontravam em viés, como se estivessem chateados. Se calhar até estavam. Ou talvez fossem apenas mais dois amantes que não se sabem ver.
"She was the saddest girl to ever hold an ice cream".

Singular plural

Preciso da cafeína de gargalhadas de mesa cheia, a tua viola na relva e as nossas vozes pela minha música, a campainha às onze da noite e uma madrugada a falar de pijama nas escadas, mensagens às quatro da manhã, horas ao telefone, saudades diferentes de chamar o mesmo nome, o meu. E "nunca estou menos só como quando estou só".

sábado, julho 07, 2007

Monótono

Quando entrou em casa, a mala não chegou ao quarto. Lançada pela raiva ao chão ao pé da porta ficou. O corpo caiu na cama, cansado, esquecido de lutar, mais uma semana terminada, e que deixava? Nada. Apenas um estranho fim que não é ainda ponto final, só o arrastar do nevoeiro. No fim-de-semana o fim do ano, do curso, tanto tempo e o estágio porvir, tanto porvir, tanto medo. Um fim que não passa para um papel diferente, o que procurei ainda não cumpri. Um não-fim de palavras monótonas. Cai o pano sem palmas nem encores. Será a próxima peça pior que esta?

sexta-feira, julho 06, 2007

O autocarro dos últimos

O autocarro dos últimos a deixar os amigos, a noite, as luzes ofuscantes de vida, que se arrastam por medo das paredes brancas sufocantes de casa todos os dias igual. O autocarro dos últimos esquecidos a rir pelas horas. Deixam todos passar para apanhar o último caminho das onze e meia escuro e vazio de pessoas apressadas, todos têm cara cansada mas feliz por ter queimado todos os cartuchos antes de guardar a arma. Dormir só quando se está a morrer de sono.

Escrever

Corre-te nos dedos sem que possas impedir, mesmo que não gostes, é o que vive na noite, na música, em cada abraço. Já não consegues estar sem pensar "eu podia escrever isto". Encontrar o indizível, mergulhar no mundo pela vertigem das palavras, tontura de tudo gritar e suspirar de vazio. Queres deixar a vida escrita antes de morrer, não acreditas que é impossível.

Sintra

Sintra anoitece comigo. Traz-me o silêncio que encho com música. Devia estar em todo o lado e estou em lado nenhum, esquecida numa paragem de autocarro com o palácio defronte. A música sobra-me dos ouvidos e sussurra nos outros como a minha voz mais alta sobre a mesa cheia e as palavras que me levam onde nunca chegarei quando me perco sozinha. Amo o poder que tenho nos outros e desespero por me ter, ainda não foi inventada a minha palavra, o meu abraço.

quinta-feira, julho 05, 2007

Inventar contigo

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"Encosta-te a mim,

nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim,
(...)
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.
Chegado da guerra,
fiz tudo pra sobreviver em nome da terra,
no fundo pra te merecer
recebe-me bem,
não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói,
não quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo..."

Jorge Palma

Comboio

Éramos nós mas como se não fosse. Falávamos todas ao mesmo tempo. O comboio corria pela loucura das nossas vozes. Palácios praias prédios montes vales e nunca parava como um cavalo galopando e fazendo a paisagem desviar-se.
Passou a tua casa, a minha, a dela, perto tão perto e tão rápido para não as termos, e tão distantes naquele comboio foram um piscar de olhos. Carregávamos no botão de saída e as portas não abriam, o comboio cada vez mais montanha-russa. Ao desespero juntava-se o medo, sem rumo nos lançava o comboio, o tempo crescia em dias mas nunca era de noite. Lá fora o sol parecia sempre meio-dia altura normal para andar de comboio. Mas nós sentadas numa carruagem de repente vazia como sempre que se escrevem estranhas viagens sentíamo-nos mal como se tivesse passado da hora de jantar e adivinhássemos as testas franzidas dos pais.
Sei que me encostei a ti e ela deu-me a mão, chorámos tudo e pensámos igual num lugar onde parar, faltaram só os sapatinhos da Dorothy. O comboio não obedecia à nossa ingenuidade de contos infantis.
"Estás a sonhar, Fátima, não percebes? O comboio só pára quando quiser, elas nem estão contigo". Mas não, mandei mais, acordei. Comboio nem pesadelo nenhum me levam onde posso ir sozinha.

quarta-feira, julho 04, 2007

Sem título

Eu sabia. E deixei-te ir. Entrei no comboio e não olhaste para trás. Eu senti. E mesmo assim deixei-te ir. Não sei como seria se a vida nos tivesse dado tempo, mais tempo. Talvez tivesse acontecido o mesmo. "O amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura"... Naquela altura apenas nos teríamos asfixiado numa desesperada luta por ficarmos juntos apesar de todas as contrariedades. Distância e teimosias. Tu querias estar do meu lado, pertencer ao meu mundo. Eu queria que continuasses do outro lado do passeio. Só podias passar quando não houvessem carros. Mas a espera cansa. Hoje já não espreito todos os lados da estrada com medo dos outros. Estaria bem ao teu lado, de novo. Mas não vou fazer nada por nós. Se tudo começou por um mero acaso, espero pelo meu caminho ser encruzilhada contigo. E se comecei a escrever pensando que as minhas mãos estão vazias sem ti, acabo com a certeza que ainda me vais dar a mão outra vez, com muita força, para que passe a estrada sem fechar os olhos e a correr muito depressa.

terça-feira, julho 03, 2007

Twilight Zone

Com o olhar separei quem me distanciava de ti. Obedientes ao íman dos corpos. E logo se descobriu um corredor entre nós. De súbito vislumbro cabelos diferentes, uma nuca desconhecida naquele amontoado de rostos amigos. A música parou. O coração lutando contra o peito queria sair. Ela virou a cabeça. Tu levantaste a tua. E no instante em que a música voltou senti-me a tocar todos os momentos em câmara lenta, o nosso café e ela estranha como uma personagem no filme errado, eu tinha acabado de chegar à Twilight Zone. Olhaste-me. Ardia o prazer da sua ingénua presença, teus olhos nos meus, cumplicidade incendiada de pecado. Olhares ping-pong para ti vértice centrífugo do triângulo da paixão. Dançavam os nossos rostos onde te beijei e agora lhe sorria, hipócrita. E ela a onda pra lá e pra cá na nossa tempestade. Se te beijasse agora, teriam de nos matar como às personagens que engravidam inesperadamente numa série. Qualquer escritor já nos teria enviado numa viagem sem retorno para não se preocupar mais com a nossa estória, não há fim possível para quem estremeça assim o mundo. Somos perigosos juntos.

segunda-feira, julho 02, 2007

Pai

Nunca te vi de olhos tão vermelhos como hoje. Tu a imagem dos meus livros de História, o menino descalço da aldeia, o combatente do ultramar, o autodidacta, construtor da sua própria casa e oficina. Nunca te vi com tanto medo que a vida te puxasse o tapete da certeza, essa palavra que também em mim martela como a banda sonora da tua, nossa oficina. Na maca do teu primo viste a morte a passos curtos, e o amargo sabor da doença no horrível cheiro do hospital. O teu negócio é o acidente, é a desgraça marcada na chapa dos carros. Nunca gostaste de cobrar mão-de-obra, sabes a estória por trás de cada acidente, vês a fundo cada cliente que chega a reboque de olheiras fundas e olhar perdido no dia seguinte de compromissos inadiáveis e a vida presa por um azar. E até emprestas o teu carro se for preciso. Quando saímos, encontramos sempre alguém que te cumprimenta com a animosidade de quem bebeu uns copos contigo ontem. Tens amigos do Porto ao Algarve pelo teu bom carácter. Mas impacienta-te que te liguem ao almoço, que te procurem a toda a hora, e com quarenta anos de capital foges quase todos os fins-de-semana para a tua aldeia, o teu verdadeiro mundo. E é na aldeia que sorves o dia até ao último minuto, de lés a lés a percorres a pé e ainda conheces todas as casas, pessoas, campos e vales. Dizes que a vida não vale dietas nem limitações. Comes e bebes às vezes como se não houvesse amanhã. O suficiente para aquela gargalhada que faz balançar o teu banco e ressoar por todo o café. E eu umas mesas ao lado, digo orgulhosa aos meus amigos "lá está o meu pai", o mais feliz, o mais lutador, para mim tão calado. O teu orgulho é para mim silencioso e aos outros contado de voz e cabeça alta. Sabes que sou igual a ti, não gosto de elogios, fazem-me parar. Gosto do medo e do desafio, como tu. Esse medo que não nos deixa dormir. Pela quinta vez esta noite te levantaste para beber água, e eu do meu quarto espreito os teus passos. "Não dormes pai?" "E tu?" Pois.
Deixa que não precisamos da voz para falar. Toda a gente diz que tenho os olhos do pai.

Os teus olhos naquela noite, tudo que ainda não consegui escrever. E a tua mão num aperto que se contorcia dentro de mim, tontura de me debruçar para te beijar. Porque me perco sempre em devaneios sobre desejo quando escrevo? Não há nada mais vivo que sentir um outro por mais carnal que isso possa parecer.
O táxi estava escuro, uno com a noite, que nos levava por onde vibram as mais poderosas e fugidias sensações. E tu deitado no meu colo. Intenso o nosso brincar de dedos, amar só com as mãos.
Será como o caleidoscópio dos meus olhos beijar-te, fogo de artifício em mim? Tão forte que prefiro adiar, que não seja no entorpecimento da noite mas na certeza do dia.

domingo, julho 01, 2007

Caleidoscópio

Tapo os olhos com muita força e do escuro estalam jogos de luzes como fogo de artifício no girar de um caleidoscópio. Nada mais vejo que estas ilusões do meu cérebro. Mas é assim viver. Montanha-russa, os teus dedos tatuagem vermelha na minha mão, sensações até ao orgasmo da vida. O meu corpo não é um sistema formatado de ordens e regras, é uma explosão cósmica, estrela cadente, átomos e moléculas em choque e metamorfose, não digerem sopa nem processam horários. Não vou conseguir ser autómato por mais que o caminho do dinheiro e acordar sem medo seja por aí, a estrada sabe-me melhor se puder fazer a curva no último minuto e viajar por sítios a que nunca fui e posso nem voltar. Para o mundo o dinheiro e o amor só importam quando são trocados. A vida só treme na pele e explode em lágrimas quando morre. Para mim não. "Cada dia é uma pequena vida", e deixo que morra se quiser, o marasmo assusta-me mais. Quero ser sempre mais e menos como uma pilha que mesmo perto de se esgotar, dá tudo da sua energia.