segunda-feira, julho 30, 2007

Mãe

Era uma vez. Bem não foi só uma vez. Era apenas uma de tantas vezes. Os gritos que se atropelavam sem respeitar semáforos. Sons de portas que se fechavam e se abriam e se batiam com força. Já sem forças tento explicar-te ainda quem eu sou. Eu sei perfeitamente quem és. Estiveste naquela cama do hospital em que nasci de dentro de ti, parte de ti, peça infinita do teu mais escondido puzzle. Só que agora as peças são muitas, mãe, e já não me podes ajudar a encaixá-las a todas. Algumas delas nem sei se saberias onde colocar. Só tu continuas a gritar sozinha como se ainda estivesse presa a uma qualquer membrana do teu corpo. Fecho a porta em tom zangado. Escorrem lágrimas que ensopam a alma. Espirro. Será um espirro de dor da alma?Por entre os aguaceiros de lágrimas. Só as minhas lágrimas pareces não sentir, tu que dizes que fazes tudo por mim e eu nem ligo. Eu quero reparar mas preciso que repares menos em mim, que me deixes passar as paredes como os fantasmas, por vezes, sem que seja notada. Sem mexeres na minha vida e as minhas coisas. Pode doer, mas eu já não sou parte de ti. Somos dois afluentes, mesmo que acabemos por desaguar no mesmo rio. Eu gosto de ti , sabes? Até mesmo nas tuas palavras vestidas de dureza, por entre o teu cabelo loiro-pintado. Ergues as sobrancelhas. Não vais ficar sem resposta. Talvez seja mesmo uma filha da mãe. Filha da minha mãe. Só porque sou demasiado parecida contigo. Já te disse. Não encaixes todas as minhas peças. Mesmo que erre muitas vezes. Um dia este puzzle será completo. Não nos faças desaguar em rios diferentes.

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