quarta-feira, outubro 24, 2007

Abismo

Já não estremeço quando o teu cabelo me tapa o Sol. Quando apareces sem aviso no meio de toda a gente, já não falo pró ar para que se riam comigo, não contigo. Olho-te de frases curtas, olhas-me vazio. Olhamo-nos de pontos finais. Estou do outro lado da montanha, fito-te desafiante pra que saltes, mas sabes, o abismo é grande. Abismo de saudade ou voz engolida. Nessa falta d'ar de não saber que dizer. Nessa garganta funda de silêncios. Longa de mistérios. De procurar até ao fundo algo que nos ligue. Sem encontrar. Porque nunca me conheceste. Apaixonaste-te sem mais nada, eu não. Eu quis-te descobrir, tu querias-me engolir. Quando percebeste que eu não podia ficar sempre no teu colo, tiveste medo. O teu quarto sempre foi grande demais, dizias tu, "Preciso de cor e não gosto de posters, podes ficar aqui?" Não pude.
Hoje estava cansada, desisti de os fazer rir quando chegaste. Deixei de fingir que estava entretida pra não te ligar. E tu fizeste-os rir, mas a tua voz tremeu. Eu senti.

sábado, outubro 20, 2007

Mais uma vez

Mais uma vez eu era mais um daqueles bonecos de madeira, que nunca chegam a ser bonecos de verdade, os que depois de tanto se brincar se esquece e se deixa no canto mais escuro da sala. Tal e qual a professora que punha os meninos mal comportados de castigo, virados de costas no canto da sala. Senti uma estalada estalar-me na face, mesmo que não fosse de verdade. Tal como eu, naquele canto perdido do meu próprio quarto-mundo. Eu devia deixar de me preocupar, de te proteger e amanhecer em ti para que não te falte sol. Porque ontem adormeci de chuva, na mente e no rosto. Mas tu não deste por isso. Não te preocupaste contigo nem com os outros que se preocupam contigo. E pior que isso, esqueceste-me e desiludiste-me. E hoje apenas sou um boneco de madeira, preso nas linhas de ser um fantoche que não quer subir para o palco. Há demasiada luz por aí. Prefiro ficar no meu canto escuro, mastigando as horas e os factos com o relógio do meu coração apertando a cada hora que passa. Tic tac interminável de mim.

segunda-feira, outubro 15, 2007

a viagem

Imaginei-me subitamente no avião a olhar pela janela, a afastar-me do aeroporto e das pessoas que começaram a ficar pequeninas na altitude a que estaria naquele momento. Pequeninas no tamanho e enormes na emoção que nos liga. Há em mim um misto de vontade e saudade antecipada de partir nesta jornada diferente. Há ainda a duvida e a incerteza se esta viagem poderá mesmo ter lugar. Se se concretizar, o nervosismo de ter de partir, naquelas viagens em que os bilhetes são só de ida e falta tanto para voltar. Imagino os meus olhos brilhantes como lâmpadas em curto circuito no momento da despedida. E vou agarrar-vos com tanta força como se num abraço pudesse contar as histórias da nossa convivência e do sentimento que nos une. Depois de abraçar os que me deram as raízes iria beijar-te. Iria beijar-te num beijo molhado pelas lágrimas e pelo terror de te perder. Neste barco somos dois, estão constantemente a dizer na televisão. Se isto não é um barco, mas um avião irás esperar por mim do outro lado do oceano? Eu podia viajar o mundo inteiro, ser alma estrangeira de mim mesma, mas tu vives em mim, és o pássaro no meu peito. E se o meu destino for abrir asas para essa misteriosa e bela ilha, quero passar a minha última noite contigo, a amar-te e decorar todos os pormenores. Quero beijar-te para não mais esquecer o pormenor do teu beijo e do teu sorriso de estrelas e fragrâncias. Do teu tom de voz. E nas muitas chegadas e partidas da nossa vida, eu quero partir e voltar, e ver-te mais uma vez naquele aeroporto de sonhos, em que o meu sorriso de amor irá iluminar mais que a lua ou que não sei quantos Watts.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Um pouco de céu

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Ontem, 19:27, Alcoitão (Estoril)

quarta-feira, outubro 03, 2007

Entrelaçar

Entrelaça-te à minha volta. Eu já não era eu. Transformada num objecto. Um fio feito de côco e missangas, entrelaçado para sempre à volta do teu pescoço e perto do teu peito. Nunca me tiravas, mesmo quando te perguntavam "não te magoa o pescoço?", a tua resposta era sempre no mesmo tom de voz. "Não, porque haveria de magoar?. Muitos passavam por ti e gostariam de saber que força te trazia esse fio que se gastava com o uso e o tempo. Mas nenhum deles sabiam. Amor. Talismã. Se eu não fosse de carne seria o teu fio. Estaria contigo em cada começo e em cada final, entrelaçada nas tuas palavras e no teu corpo. Seria a tua protecção quando te sentisses fraco, ou triste. Como não sou um fio, rodeio-te com os meus braços, levanto-te com a pouca força que tenho mas estou lá, sempre. E se não fosse um fio ou uma pessoa seria um gato. Os meus olhos brilhariam no escuro para te velar o sono, o meu corpo quente enroscar-se-ia nas tuas pernas e chamaria pelo teu afago. Seria feroz com quem te tentasse fazer mal. Eu seria tudo, tudo e muito mais só para te ter, te sentir e te amar.

terça-feira, outubro 02, 2007

Era uma onda

Era uma onda
Veio a onda
Apaixonou-se por uma rocha
Embateu na rocha
A onda a onda
Onde está a onda?
Ondeou seus cabelos de raiva,
Ondeou seus cabelos de espuma,
A verdade é que a raiva
Não a levou a parte nenhuma.
A rocha não se moveu,
Afinal a pedra não tem vida.
E a onda na praia morreu
Rebentando perdida.

segunda-feira, outubro 01, 2007

"Então o rapaz... já foi?". "Sim, foi". Tornas tudo mais fácil pai, falas como se o "rapaz" (mais velho que tu), tivesse partido numa simples viagem, e tu chegaste quando o carro desaparecia na curva. Sei bem que odeias despedidas. A mãe não, a mãe chega antes da viagem, chora e não quer deixar ninguém partir. Os vossos amigos vão desaparecendo, para a mãe são pequenas facadas, para ti é como dormir todos os dias, natural. Os teus olhos têm tanto por chorar lá dentro. Cortes a carne e engoles vorazmente a notícia que te dei, a dor empurrada para o infinito de ti, depois do almoço esquecida. Como num filme de Spielberg, somos um grande grupo a fugir dos dinossauros, até que vamos sendo apanhados um a um, "continua, eu não posso mais, foge!".
Às vezes gostava de fugir com os dinossauros, para não ver os outros a ser engolidos.