domingo, outubro 30, 2005

Filme alice (resposta atrasada)

Ela era a Wendy. Tu és o Peter Pan. Tu não querias crescer. Não querias entender. Ficaste À espera que ela voltasse, na tua pequena terra do Nunca, onde mantiveste os mesmos gestos, quiçá as mesmas palavras, com medo de a perder. Tudo em ti escureceu, como as ruas, como os dias cinzentos do Inverno. Esperaste-a vestida com a mesma roupa, amarrotada talvez, porque ninguém a passou a ferro. Inspeccionaste as ruas com o teu Big Brother particular, com câmaras a invadir a cidade, mas sem audiências. Todos te sabiam derrotado, mas deram-te como vencedor. Ninguém se atreveu a entrar no teu pequeno mundo e sacudir-te para que acordasses. Tu amavá-la. Tu ama-la. Ela saiu de ti, tem os teus traços, jogaram as mesmas brincadeiras. Mas agora ela não está. E tu estás perdido.
A Wendy não volta. Na tua realidade assolapada de sonhos não vês isso. Ela até pode passar por ti na mesma rua. Mas a tua obsessão impede-te de a descortinar. Ela mudou. Fugiu-te. E os vossos rostos tornaram-se desconhecidos. Emudecerias se a visses e soubesses que é ela?Acreditarias? A tua obsessão é tão forte e o teu sofrimento tão profundo que acho que não. Ès um espectro de ti. Fugiste-te. Persegue-la como te persegues a ti.
Medicamentos em cima da mesa, dores que não têm cura. Depressões que não passam. Relógios que fazem tique – taque. Contas os dias no teu calendário “ela despareceu há não sei quantos dias e não sei quantas horas”.
Alice no país das maravilhas. Não.Alice no país das torturas. No país que é o nosso. Onde o medo se arrasta pelas esquinas. Onde pais como tu se arrastam em farrapos. E certos ouvidos tapados com cera, e corações tapados com cimento,que continuam a quebrar a inocência do país das maravilhas, onde moravam as crianças. E a Wendy da terra do nunca tem de aprender a crescer. A crescer ou a morrer? Não há moral. A moral ficou escondida atrás de uma sombra na porta de um armário. A moral está presa por um fio. O amor é mais um fragmento, mais uma página arrancada.
País das Maravilhas. Terra do Nunca. País das Torturas. Terra do Sempre. Sempre dor, sempre mágoa, sempre desesperança. E no entanto sempre alguém com coragem para dar passos, mesmo que esses passos não sirvam de nada e sejam estúpidos como a própria vida. Como é que se vive depois? Depois do dia “D”? Do dia em que levam uma parte de nós?Como é que se vive depois de perder um filho?Vive-se?Sobrevive-se? Ou morre-se num suicídio diário dos nosso cérebros? A morte traz um fim. O desaparecimento deixa sempre uma porta a ranger nos ouvidos . Um “se” que te arrasta para um poço fundo e te leva as forças. Suicidas-te na procura desenfreada. Não comes, não dormes, vegetas como um legume a apodrecer. Alice. Alice. Alice. È a palavra de ordem. Gostava de dizer fim. Mas esta história não tem fim. Depois de ti virão outros com as mesmas dores. E é ridiculamente verdade. Tudo volta ao início.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Soltar Letras


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É impressionante o poder terapeutico da escrita... Sinto-me asfixiada, sufocada por dentro quando não solto qualquer coisa por aqui. Por vezes não consigo, a minha alma emudece perante a angústia de uma alma em constante turbilhão e confusão perante o estonteante suceder de loucas emoções... mas quando ela grita e as minhas mãos sentem o que ela chora, a lua volta a ter luar e eu voo por entre tantas letras, tantas sensações, tantas emoções. Nestas letras deixo cair lágrimas e sorrisos, quedas e vitórias, e sem querer vou fazendo um diário da minha vida, em pleno espaço cibernético, ao olhar de todo o mundo... E não há pudor, não há vergonha, não há medo, há vontade de gritar a olhos e rostos (des)conhecidos tudo o que abana o meu ser, tudo o que chocalha o meu eu e me muda, me transforma, me (in)completa.
Soltar letras. Soltar emoções. Soltar uma vida, soltar um eu. Ser, conhecer. Viver. Escrever.

terça-feira, outubro 25, 2005

Qual título?

È uma carta.Podia até ser para outra pessoa qualquer, mas sim, de facto é para ti. Eras o pôr do sol, céu raiado de sangue, tecto de uma praia qualquer. Só que tu não eras uma praia qualquer. Era isso que me fascinava. Tu, aventura que eu queria desesperadamente conhecer, desfrutar, saborear. Eras o meu coração a bater descompassado, a minha boca, que te chamava cerrada... imóvel.
Cada vez entendo menos da paixão. Eras.Acho que ainda és. Continuas a preencher os espaços da minha caixa toráxica. Respiro com força para te absorver. Às vezes,porém, sinto-me sozinha.Solidão. Sinto falta das palavras. Ouvi dizer que o romance morreu. Mataram-no. E eu queria ainda ouvir as palavras que foram esquecidas. Que arrancaram das páginas do dicionário. Que tantas mãos impuras violaram nos lábios, na testa, nos olhos.
Talvez não queira ouvir as palavras. Basta-me o silêncio. Um silêncio que não fosse um qualquer, estereotipado e mecânico, retirado de uma estante empoeirada de livros. Fervo de desejo por um silêncio nosso: polissemia, pureza, perdão, pérola, pedra, ponte, palavra. Silêncio-pureza, silêncio-pedra, silêncio-ponte, silêncio-palavra. Para nos livrar do medo do diálogo dos olhos e das mãos, ponte sobre as diferenças, palavra na língua.Pedra.Pedra.Pedra sobre o assunto. Qual assunto? O mais tolo de todos.A paixão. O amor.
Eu nem sei o que é o amor. Amor vem no dicionário? Deixa-me ser o teu dicionário.Esconde-me no teu Mundo. Eu. Cinderela (des)encantada, Bela (des)adormecida em sobressalto. A precisar de um sapo.
Sim, esta carta é para ti, mas podia ser para outro . Sê um princípe, só hoje. Faz de conta. Eu fecho os olhos e tu contas-me uma história “era uma vez”.Uma única vez. Para eu recordar na mimesis do tempo. Um minuto. Em que ressuscitámos o romance. Demos as mãos sem mentiras ou barreiras entre nós.
Amanhã volto a ser uma feiticeira. Volto a dizer que não tenho medo.Brincamos às escondidas.
Agora, só agora, sussurro no restolhar das folhas do Outono, que tenho medo. Sou uma fraude. Uma frágil e feminina criatura correndo em círculos à procura da própria sombra.Da agulha no palheiro. Mais fácil que buscar o amor e a sinceridade.
A sinceridade, contaram-me (mas não digam a ninguém) ficou com o dedo entalado. O dedo roxo. O sangue. Acho que a sinceridade continua com o dedo entalado. Aliás, todos nós temos o dedo entalado. E o burro preso. Como dizia a minha mãe.
Isto já não é bem uma carta. Estou apaixonada por ti. Gosto de comer limão sem açúcar. Adoro quando sussurras ao meu ouvido. Adoro o aroma do café na chávena. Gosto de te beijar. As nuvens parecem algodão doce não achas? Já chega. Queres? Pssst... então? Sim é para ti. È cliché? E daí? Eu sou ridícula. Ridiculamente louca. Queres?

segunda-feira, outubro 24, 2005

Pessoas...!


Eu escrevo para sublimar as coisas. Talvez enconre na escrita uma forma de reescrever a minha própria existência.Somos tão banais. Todos.Sem excepção.
As pessoas aparecem-me como uma amálgama de chapéus de chuva, numa avenida lisboeta, em dias frios de inverno. Os chapéus podem ter vários padrões, contudo, não passam disso mesmo: chapéus. Função: proteger da chuva. Não quero dizer com isto que somos chapéus de chuva. Mas há semelhanças. Vistos de longe os chapéus de chuva parecem todos iguais. Sabem o que é levar com uma vareta no olho?A maioria sabe do que falo. E levar um estalo?
As pessoas, estranhas criaturas, já me deram valentes bofetadas (algumas às quais não respondi), quanto mais as tento compreender, mais me fogem. Só que todas elas mais cedo ou mais tarde soltam o seu monstro, nada virtuoso, de mesquinhez, ódio e frustração.
Estou farta de levar pontapés das pessoas. Interrogo-me se o Mundo que anseio não existirá senão dentro da minha cabeça. Talvez apenas eu vislumbre o céu de cor de rosa. Sim, eu sei que é azul.Era uma ironia. Uma metáfora, se preferirem. Prossigamos. O meu semblante torna-se carregado de quando em vez, nas alturas em que penso “ onde é que eu já ouvi isto?”Nunca mudarão os clichés? Como é que saímos fora desta permanente fase embrionária de nós mesmos?
Num mundo em que nos vestimos de eufemismos porque não temos coragem de tirar a roupa. Eu por mim, fico-me a passar a roupa a ferro, na minha casinha de paredes impecavelmente brancas, dentro da minha fantasia imaginária de “não sei quê utópico”. Assim não vais longe jovem. Sempre a inventar caminhos e a tropeçar em pedras. Pelo menos tento não ser um guarda chuva. Mas estou sempre a levar com varetas no olho. Ponto final.

domingo, outubro 23, 2005

Binómio

Porque é que escrevemos tanto sobre o amor? Acho que talvez seja para continuarmos a acreditar nele.
É um ciclo. Como a fome. Um binómio: entendimento ou desentendimento. Compreendes?-Sim eu entendo. Na era dos entendimentos eu acreditava no amor. Devo reformular e escrever Amor. Na era dos entendimentos tu fazias-me festas no coração e cócegas na minha caixa do riso. Éramos uma janela aberta sobre uma ponte, onde um novo dia raiava. A fusão das bocas era igual à fusão das palavras. E tu compreendias-me (ou esforçavas por compreender). E falávamos à toa num jardim qualquer. Na era dos entendimentos havia o silêncio a salpicar as palavras, e até no silêncio tu prestavas atenção ao que eu dizia. Até no diálogo prolongado de um beijo. Era perfeito . Mas perfeito é aborrecido. Porque tu não eras tu . E eu não era eu. Ainda soávamos tanto a falso. Só o lado solar.
Depois veio a era dos desentendimentos, e o tempo carregou no seu ventre a semente de uma discórdia, que não sei se é boa ou má. Acho que nada é inteiramente bom. Nem inteiramente mau. Na era dos desentendimentos, fazias-me festas no coração e abrias a torneira da minha fonte de lágrimas. Na era dos entendimentos eu nunca chorava e, se o fazia, tu esticavas-me um lenço branco, impecavelmente limpo, livre de mágoas e de rancores. Nesta era nós já éramos nós e não havia espaço para fingimentos, nem sempre havia lenços, até gritos eu ouvi, por cima dos silêncios que outrora desfrutávamos. Parecia que tinham gravado outra música por cima da música do silêncio do nosso CD. Era o meu e o teu lado lunar a ferirem-se, a encontrarem-se, a fundirem-se.
Confesso que desconfiei do amor. Devo reformular e escrever amor. Sim, fica igual. Era amor mesquinho, era amor sem asas e sem lirismos sublimados. Era amor-carne e amor-sangue e em certos flashes julguei já nem ser amor. Só que depois entendi. A vida e o Amor são uma e mesma coisa: um ciclo fátuo repetitivo. Doce e amargo. Entendimento e desentendimento. Corda bamba. A perfeição é um lago muito belo mas sem peixes. Ninguém pode viver na perfeição. Acreditarias se te dissesse que ninguém quer viver na PERFEIÇÃO? Que queremos ser sol e lua, noite e dia, bom e mau, mentira e verdade? Olha-me nos olhos e diz-me que detestas estas divisões. Sê o meu binómio. A minha contradição. Vamos jogar um jogo. Em que sabemos À partida que não somos perfeitos. A satisfazer desejos e a procurar novos. Não sabemos as respostas ás perguntas. Por isso somso tão tolos. Tão tolos. Tão tolos. Só tenho uma verdade: Não sei. Apetece-me estar contigo. Apetece-me SER CONTIGO.
Em qualquer era, em qualquer lugar ou não-lugar. E depois? E porque não? Porque sim. Porque quero. Calas-me com o dedo indicador sobre a minha boca. Acho que as torradas se estão a queimar. Beijas-me e penso que as torradas se estão a queimar. Absurdo. Cheira a torradas queimadas no quinto andar onde somos janela virada sobre a ponte. Lá fora onde os carros se amontoam em filas, onde gente dentro de carros com medos vai para um não sei onde. Cheias de pressa. Enquanto eu nem quero saber. E deixo queimar as torradas.

sexta-feira, outubro 21, 2005

"Já ninguém quer viver um amor impossível."


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Porque nada faz tanto sentido como agora. Porque me faltas...Muito.

(Texto enviado por e-mail pela Raquelinha de Aldeia Velha.)

ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso

Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor
transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura,
a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.
Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Reflexos


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Olhas-te e não te vês. Devolves-te um olhar pesado, gasto, sem brilho. Tocas-te e arrepias-te com a superfície gélida do teu reflexo. Não te sentes. Em ti fica o frio que preencheu o olhar que te procura do outro lado. O corpo inerte, apático, os lábios mudos, a alma que lateja nas fontes... Por momentos, perguntas-te "Quem és, meu eu angustiado com o nada de cada nascer do Sol? De onde vieste, retalho perdido de mim? De onde vieste, nevoeiro que cobre o arco-íris que eu sou?"
E afastas-te de ti porque não te vês, afastas-te de ti porque já não és, afastas-te de ti e desapareces na multidão de rostos sem expressão, que se arrastam num pôr-de-sol cinzento, no nevoeiro dos seus reflexos.

domingo, outubro 16, 2005

Ausências


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"Mas os poços de fantasia acabam por secar..."
in filme "Alice", de Marco Martins

A ilusão esfuma-se, quando um olhar se perde. A fantasia acaba, quando uma dor se prolonga em desespero, quando o peso do mundo nos asfixia, quando a vida não é mais que um suceder de dias, tão iguais, tão monótonos... e a nossa segurança torna-se essa rotina, essa repetição de movimentos e horários, o que nos faz levantar todos os dias, o que nos faz erguer a cabeça e pensar: "hoje vou tentar de novo".

É essa preserverança que nos transmite a personagem principal de "Alice", Mário, o pai de Alice, representado por Nuno Lopes. 193 dias depois de Alice ter desaparecido misteriosamente do infantário, Mário percorre o mesmo caminho que fez no dia em que a filha desapareceu do infantário, e visiona as cassettes das câmaras de vídeo que posicionou em pontos estratégicos de Lisboa, repetindo cada movimento com uma precisão extrema de horários, alegando que, se quebrar a rotina, tem medo de não a voltar a ver, e que, uma vez que as pessoas "não desaparecem no ar", "quando ela passar novamente por aquelas ruas de Lisboa, eu vou estar lá".

E é em ausências, silêncios, obsessões e frustrações se desenha esta obra de Marco Martins, que ganhou o Prémio "Regards Jeunes", em Cannes 2005. É em olhares perdidos, inexpressivos, lábios mudos, pessoas desapaixonadas da vida, que deixaram o sonho algures num passado de desilusões, pessoas que picam o bilhete do metro como partilham uma refeição com a pessoa que amam, como se deitam sem uma palavra com quem viveram mil quimeras e arco-íris de emoções, que se baseia esta realização cinematográfica. Em todas as pessoas que povoam as metrópoles, que ignoram "Mários" que tentam distribuir panfletos sobre uma criança que desapareceu, que assistem ao frenesi da busca de uma criança nos primeiros tempos, e depois ignoram-na como apenas mais uma notícia no jornal, apenas mais uma criança que desaparece... Pessoas com o mesmo rosto e o mesmo olhar, "Alices" perdidas no tempo e na vida, "Mários" que sucumbem no insucesso.

Rostos. Olhares. Almas. Ausentes. Perdidas.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Amor...

O que é o amor?
O amor não tem existência dentro das palavras
O amor são todos os amores que eu já amei
Aquilo que eu ainda ontem..
Não, ontem não era amor
Então o que era?
Era..já não é...
E se eu te dissesse que o teu corpo me faz cócegas no estômago?
Isso não era amor?
O amor em si não é nada,
Talvez por isso já ninguém diga amo-te...
Não é pela palavra,
É o que vem dentro da palavra,
Saiem anos de rancor, amores mal acabados,
Um peso nas costas que não é amor,
Quando se podia ter dito:
Não achas que as nossas maõs encaixam tão perfeitamente?
E talvez não encaixassem,
Porque a tua mão era tão pequena,
Mas o nosso olhar ...
E se de repente começasses a chorar,
Lágirmas a virem dos anos,
a saírem das palavras e do amor...
A palavra amor nem tem alma...
Talvez por isso quando o corpo quer ficar
A alma anseia partir
à procura do amor que não é amor...
Olhar-te e sentir-te,
Chamar-te pelo nome,
Já reparaste que ninguém chama o teu nome como eu?
Não interessa a palavra que é o nome,
Antes o nome que é essa palavra,
Que acentuo na minha boca e na minha voz,
A sorver num trago o insípido amor,
Chamo-lhe vida porque o gastaram...
Quando se diz amo-te
O ser traz o peso da crueldade
Só acreditarei no amor,
Num mundo em que as palavras forem reviradas do avesso,
E o amor já não palavra.>As invada por dentro,
As faça render e quebrar...
No abraço que te dou>O amor não tem lugar nas frases...
O amor nunca poderia ter lugar
Não é nada esse tal amor
E no entanto
Os extremos tocam-se..
E se o nada e o tudo
São uma fusão,
O amor é tudo
Até o ódio...
Nâo é o ódio o que está dentro do amor?
Ou será o amor que está dentro do ódio?
Os pólos tocam-se...
Mas dá medo de tocar o ódio no amor,
perder o equilíbrio na vertigem:
Não tem espaço o amor
è um marginal
Mas mesmo isso que não é o amor
è o que eu sinto
Contar porquê?
Se é tudo e ninguém entende?
As metáforas satisfazem?
simplifico e digo amor?
è correr no piso e não sentir frio
Atirar-me para o fundo da tua alma e não sentir dor na queda
Como sentir amor se amar é também não sentir?
Não sei o que sinto
Mas sente-se
E é este o meu poema
Nunca igual a nenhum outro
Porque cada palavra traz o ardor
Dos momentos vividos
Do orgasmo de cada experiência
Do orgasmo do amor...
Mas isso não é amor é sexo...O sexo é o que está dentro do amor
E o amor está dentro das palavras.

terça-feira, outubro 04, 2005

Sensação... ou sentimento?

Sentimento... pureza, simplicidade, pensamento, carinho... Sensação... desejo, loucura, toque, união, calor, paixão. Sentimento ou sensação? Amor ou paixão? Momentos de êxtase, de um intenso e louco explorar de dois corpos que se atraem como ímans, pólos contrários, ou o saborear harmonioso e tranquilo da cumplicidade e intimidade de duas almas?? Um agora maravilhoso ou um sempre mágico? Um presente de vida ou um futuro de esperança?
Sensação... ou sentimento??

segunda-feira, outubro 03, 2005

Pózinhos perlimpimpim

Há dias em que parece haver tanto para dizer, mas a boca emudece, os dedos entrelaçam-se num nada que prende a alma ao silêncio... Há dias em que nos sentimos envolvidos numa cama quente, mas frágil...prestes a partir...mil dedos e mil braços nos envolvem e nos reconfortam mas a cama ameaça ruir... falta-lhe um pequeno prego, o essencial, que sempre a susteve e agora, sem mais nada, começou a desapertar-se...ainda está lá, mas ameaça cair... E os mil olhos e braços procuram o prego e não o encontram...ele enferruja sozinho e parece querer cair, porque embora o seu maior desejo fosse suster aquela cama até ao fim, está a perder as forças... E a cama pede ao prego que fique... a cama chora baixinho, acabando por enferrujar mais o prego, que queria ser cobertor e estar mais perto dela, para limpar as lágrimas da cama com o seu calor intenso... Será que alguma das mãos tem pozinhos perlimpimpim para transformar o prego em cobertor? Ou uma magia secreta, um "acabacadabra" poderoso? Não? Pois... a cama já imaginava... abandonar-se-á ao sono no sonho da tranquilidade e de um novo acordar...