quinta-feira, janeiro 21, 2016

Quase uma da manhã. Ela não dorme. Com uma caneca de chá na mão, contempla a chuva que cai lá fora, distraindo o turbilhão de pensamentos com o mau humor que vem dos céus. Será só isto, afinal? "Passamos a maior parte da nossa vida frente a um computador", disse-lhe uma colega hoje, naquilo a que chamam emprego. Passam os dias sem novidades para contar à noite, fazem-se horas extra de olhar vazio, o ano passa, os ordenados chegam, as contas pagam-se. E de repente, os amigos aparecem na televisão, na capa da revista, compram casas e têm bebés. Ela não sabe se já quer brincar aos adultos. Uma vida de gente grande, a correr da creche para o trabalho e daí para o quarto do bebé. Não sabe o que quer. É o problema desta geração de meninos mimados, diriam os tios dela. Têm razão, claro. Antigamente iam todos trabalhar e pronto, não havia tempo para choraminguices. Mas falta qualquer coisa, essa paixão dos tempos de faculdade, a inspiração dos 18 anos, a vida a vibrar nos dedos.
Ela deita a cabeça na almofada do sofá, e as mãos, outrora loucas de ideias e projetos, jazem encolhidas na barriga - a sala está gelada. "Gelada como a minha alma", pensa ela, melodramática. Quanto vale o pijama quentinho, o robe polar, o chá a escaldar. Ela fecha os olhos e tenta sonhar. Vai. Os 18 anos não estão assim tão longe. Foram só há mais de dez anos...

sábado, janeiro 09, 2016

Ontem a minha mãe disse-o. De repente, fugiu-lhe dos lábios o que há seis meses evitamos dizer. Soou-me a algo errado, surreal, soou-me até a um erro de gramática, como se o sujeito e predicado não jogassem um com o outro. Quando ouvi, percebi: ainda não caiu em mim. O tio Gil morreu. Foi isso que ela disse, num de repente, vírgula isto e aquilo da conversa que estávamos a ter. O tio Gil morreu, por isso, tal e tal. Mas antes da vírgula está tudo errado, risca e volta a escrever por favor. E saiu-me, eu tenho o cérebro colado à boca: que estranho isso que tu disseste. A mãe limpou os olhos e eu pensei: pronto, já fiz asneira, podia ter deixado passar, mas não, ainda pisei mais na ferida. E continuo sem conseguir deixar de escrever sobre isso. Desde aquele quente sábado de agosto, véspera do tão aguardado encontro de família, que não compreendo a que realidade fui parar. Parece que entrei para uma nova dimensão, essa de ter primas sem pai, a minha mãe sem irmão, os meus tios cinco quando sempre foram seis, quando o tio Gil partiu, mesmo ao jeito dele, de súbito e sem avisar, porque ele nunca gostava de incomodar.
Ontem a minha mãe disse-o e eu agora escrevi-o. Mas continua a parecer mentira.