quinta-feira, junho 28, 2007

Estávamos os três como sempre na mesa ao lado do balcão a rir para garrafas douradas de cerveja. Toda a gente se sentava um bocadinho connosco atraída por aquelas loucas gargalhadas maiores que a música que tentava fazer mais barulho que nós. Toda a gente se sentava um bocadinho na cadeira de sobra em que apoiávamos os pés. Toda a gente acabava por se levantar por não nos conseguir acompanhar. Até que ela irrompeu pelo café e tremeu o chão das botas bicudas e decididas. Os teus olhos assustados nos meus e dei mais um gole na cerveja. Saíste da mesa chateado e arrastado para o canto pela sua cena de filme barato e decote fundo. Todo o café se virou de nós pra vós como se a televisão tivesse mudado de sítio. O canto em que sempre estavas com ela antes e eu era só mais um na mesa de vida não tão estridente como contigo. Ela sempre te quis roubar de nós. Sempre te quis fazer esquecer que nos precisavas para ser só ela o teu mundo. E quase conseguiu.
Os nervos as cervejas e o corpo dela contra o teu, de relance me olhavas eu que continuava a beber como se nada fosse. Não te sou nada, sempre tiveste medo dos meus lábios, de ficar preso a eles e nunca mais partir, tu o capitão romance de ornatos violeta, “não procuro quem espero, o que quero é navegar”. E ela desesperada à força te quis esconder nos seus braços e nunca mais largar. Beijou-te e soube a nada, mais tarde me contaste. Chega!; gritaste por cima dos seus acriançados soluços, e o nosso simples café a viver uma telenovela. Chegou pra mim também, levantei-me e puxei-te por um braço, “até logo, malta!”, e saímos os três do café. Em silêncio, sem mais. Para que não morresse assim nossa noite, numa cacofonia punk de uma criança em botas de cabedal e lágrimas de rímel, ridícula. Entrámos no carro, e acelerámos para longe de Lisboa. "Os serões habituais, e as conversas sempre iguais, os horóscopos, os signos e ascendentes, mais a vida da outra sussurrada entre dentes, os convites nos olhos embriagados (...) e há quem diga que nunca foi boa, a canção de Lisboa. " (JPalma)

Crusoé

Dormir, esquecer-me de ti pelo menos até amanhã. Fugir sem rumo da ilha em que deixaste. Serás tu o náufrago de longas barbas quantos anos de solidão e pele de pescador estragada pelo Sol, tu frágil e nu e o tempo tão cruel, sem cabana ou casa na árvore que não se desmorone nas noites de tempestade, todas as noites. Serás tu o náufrago que o mundo se esqueceu de salvar e gravar no mural dos Antónios e Josés explodidos em combate, serás tu, mesmo que eu me sinta mais perdida que nunca.

domingo, junho 24, 2007

Transparente

Não gosto de portas, nem de chaves. Sempre me esqueci para que lado fechava e abria, direita abrir esquerda fechar, será?, sempre tentava abrir de qualquer maneira e à sorte entrava em casa. Até dar indicações para a minha rua me irritava, afinal não ia dar tudo a todo o lado? Siga até ali e depois é fácil, é uma casa amarela. Uma casa amarela. O meu Sol por entre as ruas sete ou oito vezes os meus braços abertos, como media eu. De pequenina me tremia a cidade nos olhos e se revolteava no estômago em náuseas antes de ir prá escola. "Senhor doutor, não é normal, a menina fica sempre nervosa antes de ir prá escola." "Coitadinha não terá ansiedade com cinco anos. Vamos fazer exames". Fizemos. Eu e as máquinas, os médicos nunca fazem nada. Tinho a válvula não-sei-quê apertada, "ela não regorgita de nervos, é o estômago, coitadinha". Coitadinha, coitadinha, tinha de ser palavra de médico. Não me cabe o mundo assim de repente, tenho de o mastigar devagarinho. Que raiva de me sentir frágil, os olhos da minha mãe por todo o lado, todo o medo dela pelo que eu não tinha, exagerava-me à mesma. Eu queria viver o mundo. Logo percebi que era mais colorido que os livros da escola. Da escola. Os outros não. Os outros devorava louca e voraz como chocolate. Chocolate. Sou alérgica ao chocolate. Sabe-me tão bem mesmo sendo turbilhão no estômago, às vezes cólicas ao outro dia. Mas era tão bom ficar em casa, não pentear o cabelo e andar de pijama todo o dia a chá, bolachas e desenhos-animados.
Uma vez a professora de português pediu-nos para contar um sonho estranho. (Toda a gente tem estórias com as professoras de português, não é?) Eu tive um sonho azul. Saía à rua e o mundo era azul, como se vê do espaço, como se estivesse debaixo de água, como imaginava Atlântida. A professora sabia que eu não estava a inventar. Podia, era capaz, mas não estava. Sonhei azul como no livro de símbolos, azul é sonho. Como uma falha nas cores do meu cérebro. Escrevi o sonho o melhor que me lembrava e sempre mais um bocadinho. A professora sorriu e disse que eu podia fazer melhor.
Na inocência a verdade e o azul, dizia eu que não queria ser adulta, parece muito cansativo. Incertezas da infância certezas hoje, a corda bamba dos sonhos lançou-me num trapézio sem rede. E agora? Vou engolir o mundo, mesmo que o estômago continue apertado.
Percorres-me num arrepio, como comboio perdido e não ter tempo de dizer adeus, estranho ver-te.
"Já vivemos tempo demais para correr o risco idiota de nos apaixonarmos", escreveu-me António Lobo Antunes.

quarta-feira, junho 20, 2007

Escrevo-te rápido muito rápido para não ter tempo de apagar. Correm nuas as minhas palavras para ti. Chegam-te sem poesia nem pontos finais, atropelam-se no pequeno ecrã, que falta d'ar, "toquem-lhe rápido ond'eu não chego".
Saberás assim ler-me sem o teu sorriso a bailar no meu, nas mãos correndo por letras tudo de mais louco sem metáforas nem eufemismos, quando o amor explode sem sentido, e fujo do silêncio num abraço?

Possodizerquet'amosemtemponemespaçonemolhosdetebeijar?

segunda-feira, junho 18, 2007

"Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?

Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?..."

Álvaro de Campos

sexta-feira, junho 15, 2007

Analfabetismo emocional

Iliteracia sentimental. Analfabetismo emocional.Depois da conferência as cadeiras foram ficando vazias. Falar sobre a política nacional ou internacional era para ela como sopa no mel. Canja. Só gaguejava na amena presença da voz do estagiário. Só corava na presença discreta do novo funcionário, que a tratava por doutora e desconhecia que tinha mais poder do que os deputados que a enchiam de perguntas. Agarrou no casaco e percebeu. Nenhum dos cursos da treta que tinha tirado iria alguma vez eliminar aquele desconforto na alma, o corpo a sair do corpo e a devorar-lhe a alma de desejos. A alma dela icendiava-se sobre a capa austera do casaco cinzento que usava nas ocasiões formais. O rapaz trouxe o café e quem observasse a cena de longe perceberia. como os olhos dela enrubesciam, como as maçãs do rosto brilhavam. Viajava veloz pelo vento a voraz volúpia. E num mundo de v's só não vê quem não quer. Talvez ela tivesse ouvido o que pensei. A dada altura chamou o estagiário e na sala de conferências vazia deu a palestra que mais ansiava. Mas para a qual estaria certamente menos preparada. Ele percebeu o analfabetismo emocional da sua interlocutora, e juntou o aeiou dos corpos, às vogais juntou consoantes que se encaixaram em cada milímetro do corpo-alma. Ela sempre foi uma boa aprendiz. Ele sempre gostou delas mais velhas e mais maduras. Mas ali nem a idade contava porque o tempo perdera a forma, massa informe suspensa nas linhas de uma agulha que não começou a cozer. Assim é o tempo dos amantes, um poema incabado, um intermédio que não chega a ser fim, um para sempre que pode durar apenas escassos segundos.

Temps des Cerises

Cerejas2_thumb.jpg

Era o tempo das cerejas. Pequenas vermelhas deliciosas e sempre tão pouco. Como as horas contigo as cerejas desaparecem por mãos irrequietas e bocas gulosas. Meus dedos loucos de ti e lábios-sangue de te beijar. Cerejas como pés pequeninos rápidos a chegar a ti. Chega noite que te traz. Passa lento o dia que te espero. Espero o dia pela noite e a gargalhada que em nós explode. Explode rotina estilhaça-te mundo e agarra-me, ficamos em nós que amor não tem chão. "No bairro do amor, a vida é um carrossel"...

domingo, junho 10, 2007

Insomnia

Era como dormir na rua. A sensação que o escuro se prolongava até ao cão que ladrava às três de manhã e os lençóis tão frágeis numa noite de Junho. Gostava mais do Inverno, podia dormir com mantas e cobertores grossos sem que a mãe refilasse ou proibisse aquela estranha mania. Não tinha frio, nem suava muito, era uma maneira de se sentir protegida.
Assim, sem sono, e sem se poder esconder nas mantas, não ia adormecer.
Quando era pequena fingia que debaixo dos lençóis era o mar e tinha de aguentar sem respirar para um dia nadar como os primos debaixo de água. E arrastava o corpo para o breu sentindo o macio dos lençóis na barriga.
Inventava histórias para cada noite que ficavam só na sua cabeça e adormecia cansada antes de poder dar um fim ao seu filme.
Hoje as histórias na sua cabeça são tantas que não a deixam dormir, são reais e voltam teimosas ao acordar.

sexta-feira, junho 08, 2007

Desde que não vens

Noite apagada de vida e puzzle desarrumado. Peças perdidas que confusas me lembram o que sou desde que não vens, saudade. Carris na praia e mar na estação, a roupa que não usavas nesse dia em que acordaste às 6 da manhã irritado de distâncias e teimoso viste o país passar para me ver, e eu que me atrasaria para te beijar às nove. As datas esquecidas e tanto querer escondido na azáfama dos dias. Tu em cada livro e filme a balançar na mala. A mala violenta nas pernas, censurando-me os dias pesados, cansados. Agitados. Mesmo assim a vida sobra. A maior peça do puzzle eras tu.

quarta-feira, junho 06, 2007

Caminha como se não conhecesse a gravidade, em passos largos e quase dançantes. Do fulgurante metro para correrias nas passadeiras sorri distraída entre a música e os seus devaneios, e nem o carro que quase atropelou a sua vibrante vida a perturbou.