terça-feira, janeiro 31, 2006

Manto branco


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Tela citadina salpicada por tons brancos. Algodão que se desfaz em água nas nossas mãos envolve os cenários mais inesperados e eleva-nos numa alegria pueril.


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Porque a Natureza sabe surpreender-nos. Mesmo que não tenha sido nada de magnânime. Mesmo que aconteça frequentemente por todo lado e que aqui tenha sabido a pouco. Foi um instante em que se apagaram as banalidades da rotina. E soube bem.

Agradecimento à Susana, que cedeu ao LetraSoltas as fotografias.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Aquelas noites

Hoje é um daqueles... não, daquelas noites (ia dizer dias, mas está mais que claro que escrevo com a noite - como dizia Vergílio Ferreira, companheira da reflexão e do auto-conhecimento), em que me apetecia escrever numa língua que ninguém compreendesse, num daqueles meus paradoxos de querer ser lida sem que ninguém entenda as minhas palavras, apagando as tochas da gruta em que as escondo a cada linha.

Esta noite desdobrei aquelas palavrinhas que me disseste, levantei os pontinhos e espreitei debaixo dos acentos, estiquei as vírgulas e os pontos finais, e fiz mais parágrafos. Tentei escrever com uma língua e uma gramática diferente. Até inventei novos vocábulos neste polvo computorício que me aprisiona numa ridiculez crónica. Mas não consegui fazer uma língua completamente nova, com palavras e uma gramática completamente diferentes, para dizer tudo sem ter de explicar muito. Porque a simplicidade só existe quando danço no meu quarto e faço barulho com a palhinha a beber batidos de banana. Porque as metáforas chegam quando dizes que gostavas de sair à rua quando está a chover, como eu. Porque vou sempre à procura do arco-íris mas acabo só por enchacar os ténis e sujar as calças, e de tirar muitas fotografias ao céu.

Sabes, há uns tempos, subi as escadas. E fiquei no sotão. Não. Na varanda. Gosto de estar na varanda. Do ar gelado que torna as pontas dos meus dedos escarlates. De ver a paisagem tosca dos carros velhos e os jardins mal tratados. Dos guarda-chuvas ridículos dos meus vizinhos. Das barrigas de cerveja a aumentar. E as permanentes também. Do cão mais pequenino a ladrar a toda a gente, enquanto o maior dorme pachorrento no meio da estrada. Do barulho das oficinas e das rádios e das televisões que falam e cantam por cima umas às outras, por cada casa da rua. De ver o aglomerado de mulheres no muro a misturar receitas com coscuvelhices. E depois sair para um café à beira-mar. Sentir as pingas salgadas do mar no meu rosto. E de ouvir o mar a bater contra o paredão durante duas ou três horas de gargalhadas sonantes.

Gosto de estar na minha varanda, como quando era miúda, a escrever o meu nome ao contrário na janela para que as pessoas lá fora percebessem. Gosto da minha varanda. Eu não saio sempre que está a chover...nem gosto de desdobrar as tuas palavras. (Gosto de ouvi-las só, e de acreditar nelas. Porque são verdade, antes de as desdobrar.)

sábado, janeiro 28, 2006

Reflecti sobre uma questão que me puseram. Não é estranho escrever "para ninguém", deixar correr linhas e linhas de frustrações, sonhos, desejos, sentimentos, que afinal não mudam nada nem ninguém? Não é uma existência solitária? Não é mais fácil sair e trabalhar, procurando orientar um dia-a-dia agradável e satisfatório, do que estudar e perder tempo a pensar ou à espera de qualquer coisa mesmo perfeita? Talvez... No entanto, conheço pessoas que fazem essa vida, e preferem a minha. Querem voltar a estudar. Lamentam não ter lutado mais. Porque ler, estar atento, instruir-se, muda-nos mais que passar o dia numa loja qualquer, mesmo que assim tenhamos mais dinheiro e liberdade para ir a concertos, cinemas, comprar os melhores telemóveis, computadores, jogos, filmes... Não concebo, pelo menos para já, uma vivência tão esgotante fisicamente e tão vazia emocional e psicologicamente. Não saberia arrastar-me pelos dias e pelas pessoas que acabaria por não saber saborear nem conhecer. Pequenas vitórias como comprar aquele disco de música, aquele jogo ou aquele filme sabem muito melhor que poder comprar cinco por dia. Devagarinho aprendemos a ser quem somos, e a saber os outros.

Afinal, os cantores e os escritores também passam a vida a lutar contra a maré, a transmitir sensações, pensamentos, ideias, sendo por vezes ignorados ou tratados como um mero produto comercial... Mas fazem o que sentem que têm de fazer. E alguém que eles nunca viram e não conhecem pensa como eles, concorda com as suas ideias e dorme embalado pela melodia das suas palavras.

A mim sabe-me melhor escrever e estudar nas horas dos meus curtos dias e longas noites que viver comodamente com o meu emprego e os meus pequenos luxos, numa existência ociosa e sem nada de diferente para contar.

Amizade

Era um corredor muito, muito, muito comprido que ia dar ao fim do mundo. Pelo menos era o que diziam. Era um corredor muito frio e muito escuro e apenas se vislumbrava uma luzinha trémula no fundo do túnel. Eu era uma menina muito medrosa e não queria atravessar o túnel lúgubre sozinha. De repente alguém agarrou na minha mão com força e com a outra enxugou as minhas lágrimas. Ao longo daquele corredor, foram aparecendo mais sombras cujas mãos se entrelaçaram na minha. Umas iam e vinham rapidamente, algumas mãos apertavam com demasiada força, ao ponto de me magoarem. Essas mãos não eram sinceras. Mas havia sempre uma que nunca largava a minha, uma mão doce, perfumada, pequena e macia, que me segurava veemente. Tinha imensa curiosidade em descobrir a quem pertencia aquela mão mas a luz ainda estava muito longe. No entanto, comecei a ouvir uma vozinha interior, que mais tarde descobri ser a minha consciência, a debitar-me nos ouvidos um nome, ao início imperceptível, mais tarde totalmente entendível e pronunciável. Era uma palavra cheia de luz e sentimentos, cheia de sol. Era uma palavra ensolarada, misturada com a orla branca do mar. Uma palavra pequena que cheirava a um perfume peculiar, que tinha um riso terno e jovial. Essa palavra vinha embrulhada numa voz de criança a molhar os pés na água, completamente feliz. E a comer gomas às escondidas. Muitos minutos e horas passaram dentro daquele corredor enegrecido e triste, até que pronunciasse o teu nome. Muitas vezes tive medo de que me largasses a mão e fugisses porque já não saberia encontrar a saída. Cheguei a ter um pânico tão grande que atava os sapatos vezes sem conta, para não acontecer cair e perder a tua mão de vista no gigantesco corredor. Foi sempre a tua mão, é ela que recordo quando me recordo de ti. E é ela, és tu. Um dia enquanto cantava uma música enluarada disse o teu nome ensolarado: Fátima. Acho que foi poucos dias depois que achámos a saída desse corredor. Mas há sempre buracos e corredores. No entanto tenho os atacadores apertados, espero não perder a tua mão de vista.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Declaração:

A presente declaração não tem a pretensão de ser definitiva, universal e nem correcta. Tão pouco deve ser imposta, decorada ou aplicada sem que haja esforço, conquista e maturidade das pessoas envolvidas. Somos todos responsáveis por nós mesmos e pelo que sentimos, e capazes de construir, modificar e abolir nossos próprios direitos enquanto seres que amam.Compreendido isso, fica estabelecido que quem ama tem:
Artigo I. O direito de amar demais, de sentir-se plenamente tomado pelo amor, de estar apaixonado e não conseguir pensar em mais nada que não o próprio amor e o abalo total e perfeito que ele causa.
Artigo II. O direito a maus dias, dias de dúvida, de mau humor, de vontade de ficar só, de medo ou de necessidade de afastar-se subitamente do ser amado - sem que para isso seja preciso apresentar causa lógica ou motivo aparente.
Artigo III. O direito de idealizar a pessoa amada enquanto quiser e quantas vezes quiser, e nessa idealização, não perceber narizes grandes, quilos a mais ou a menos, vozes fanhosas, pés tortos, odores fortes, faltas de talento ou tendências para avareza, futilidade ou chatice.Artigo IV. O direito de propagar seu amor ao mundo, falando dele a toda hora, a todo momento, a todas as pessoas, em qualquer lugar. Fica conferido às pessoas em volta o dever de ter paciência quase infinita com o ser que ama.
Artigo V. O direito de sorrir à toa, de suspirar repentinamente, de perder a concentração, de cantar canções ridículas, de escrever poemas em papel de seda, de roubar flores da praça, de andar flutuando, de chorar em finais felizes de filme.Artigo VI. O direito à ilusão de que o amor é mágico e eterno.
Artigo VI. O direito de conhecer a essência do ser amado, saber quem é a pessoa amada e poder descobri-la e redescobri-la todos os dias, sem máscaras, sem falsas impressões, sem reservas viciadas.
Artigo VII. O direito à insanidade, a cometer atos escandalosos ( libidinosos ou não ), a gritar, a quebrar coisas, a rasgar cartas e presentes, a beirar a fronteira do ódio, a faltar repentinamente no trabalho, a cancelar compromissos por causa do amor.
Artigo VIII. O direito à tristeza, à saudade, à infelicidade causada pelo abandono, à ansiedade, à raiva, às lágrimas, à dor, ao medo de perder, à fuga, à dependência e a tudo o mais que estiver contido na sombra do amor.
Artigo IX. O direito à correspondência, pois nenhum amor unilateral pode ser, de fato, amor.
Artigo X. O direito de continuar sendo uma pessoa, com desejos próprios, solidões, projetos individuais, tempo para os amigos, distâncias e afastamentos que desejar e precisar.
Artigo XI. O direito de reapaixonar-se pela mesma pessoa quantas vezes quiser.
Artigo XII. O direito de desejar infinitamente o corpo da pessoa amada, e à vontade incessante de colar pele a pele com ela
.Artigo XIII. O direito de não amar mais, e de poder ir embora quando o amor acabar.
Artigo XIV. O direito a não dar explicações a ninguém sobre por que ama.Artigo XV. O direito à lealdade da pessoa amada, e de saber dos planos principais, projetos e discordâncias dessa pessoa sem que isso precise necessariamente significar o fim do amor.Artigo XVI. Enfim, quem ama sempre tem o direito de escolha. Para este último direito, ficam desde já revogadas quaisquer disposições em contrário.

Retirado da Internet

quinta-feira, janeiro 26, 2006


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Passear pelo paredão numa tarde de céu enevoado e tempo farrusco (o que eu gosto desta palavra). A melodia das ondas embatendo contra as rochas mesclada num ritmo electrónico e numa voz que dança entre o sol e o dó soprado nos ouvidos. Enterrar os pés na areia incólume que grava as solas e os números dos sapatos. Vento frio que pica o mar e nos envolve no cheiro a maresia. E beber um batido de banana numa esplanada vazia. Fazer barulho com a palhinha e refilar alto que já acabou. Meter ao bolso quase todos os rebuçados da bandeja do café. Rir de uma traquinice inocente, como se de um grave delito se tratasse. Sorrir e dizer "boa tarde" a um surpreendido condutor de autocarro com semblante cansado e casmurro. Sentar-se no banco de trás de um autocarro vazio. Trautear tranquilamente uma música qualquer, improvisando uns "lalala" e "pampampamramrampampam" na parte instrumental, por cima do Rádio Clube Português do condutor. Sair para a rua e cantarolar até casa, com o carapuço na cabeça, porque está escuro e não há ninguém na rua. Luzes de um carro cortam a estrada. Olhos por entre o breu das seis da tarde de um dia de inverno olham-nos curiosos. Chegar a casa e fazer como o Fred Flinstone... "Chegueeeeeeeeeeeeei!", mesmo que ninguém responda. Fazer torradas mesmo que o jantar esteja quase pronto. Receber cartas de uma amiga que mora longe e não usa a internet. Jantar empadão com carne, e roubar a parte do ovo toda. Não ter "spam" no correio electrónico. Encontrar à primeira aquele disco de música que pensámos ouvir toda a tarde. Ler sem pensar em ficar o resto da tarde e noite frente ao computador. Fechar a porta do quarto, pôr a música bem alto, desligar as luzes... espectáculo com um público em delírio imaginário. Ou simplesmente um colchão feito pista de dança colorida. E o candeeiro é uma bola gigante platinada. Saltar na cama como no trampolim das aulas de educação física que afinal não odiava tanto assim. Não resistir e espreitar o símbolo vício moderno... O "download" (farta de anglicismos informáticos, procuro sempre um equivalente em português...mas para este não sei! Impotência linguística!), daquele filme que tanto queríamos ver está completo. Começa a rodar na caixinha electrónica. Como é para um filme não nos sentimos tão virtual e ciberneticamente dependentes. Como se já vivessemos lá dentro. Não...é só um filme! 90, 120 minutos... nada de especial. Numa pausa para um café com leite quentinho, uma cascata de palavras com quem não conseguimos deixar segredar as curvas dos nossos passos. Sabe bem, mesmo que não possamos ver a sua expressão quando dizemos algo verdadeiramente estúpido e inspirado e se se ri mesmo quando diz que se ri. Mesmo que saiba a pouco, mesmo que seja apenas uma tela branca com letras coloridas e uma fotografia pequenina no canto. Acabar a noite a marcar partes de um livro que adivinhamos como o próximo livro da nossa vida. Quentinhos entre o pijama e os lençóis. E uma daquelas almofadas grandes, que dá vontade de abraçar.

Simplicidade.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Wear sunscreen....

"Don’t worry about the future; or worry, but know that worrying is as effective as trying to solve an algebra equation by chewing bubblegum. The real troubles in your life are about things that never crossed your worried mind; the kind that blindside you at 4pm on some idle Tuesday. Do one thing everyday that scares you... Sing! Don’t be reckless with other peoples hearts, don’t put up with people who are reckless with yours. Floss! Don’t waste your time on jealousy; sometimes you’re ahead, sometimes you’re behind... the race is long, and in the end it’s only with yourself. Remember the compliments you receive, forget the insults; if you succeed in doing this, tell me how.” (Baz Luhrman; Sunscreen Speech)


Our lives are in jeopardy since the day we are born. And one day the sun won’t shine again for you, at least not here on this planet. But we keep giving the same shy steps. We don’t understand one day an endless night will cover our souls, will cover our bodies, and we will not be able to watch the sun go down, the waves… the sea that calms the storm in my heart and in my soul. And today I make love with life, the same way the waves make love with sand. And the footprints will soon disappear. And no one will remember me. But it’s okay. I will never know who they are. They won’t touch my heart, because there is not going to exist a heart that day. I will be dead remember?
Anyway, this second I’m dazzled, with an overwhelming feeling due to all the wonders I can see, smell, touch. I wear emotions close to the skin, I wear a new heart because the old one was broken. Without broken hearts what would happen to those who try to fix us? Without broken and scattered lives, bad things… how could we ever feel the taste of a nice piece of pie? Of a tasteful strawberry juice. “I want a strawberry juice please”. Before my eyes are suddenly closed. Before the strawberries are all over.

Conformismo?

Será que a imortalidade nos traria a realização de uma existência que dizemos sempre incompleta, e a ausência do medo de não de poder repetir aqueles momentos ou de deixar de sentir no angustiante "silêncio sem fim" de Vergílio Ferreira? Não será egoísmo prender aquele fio de vida a uma dependência emotiva e pessoal? Para quê perpetuar a decadência de uma existência orgânica? Afinal todas as ciências do saber, como a Fé, a Filosofia, a Antropologia e a Medicina dependem da incontronável não-existência. Siguemos agora José Saramago... Como seria se a morte um dia deixasse de existir? O caos. Hospitais cheios, governos em desespero, moribundos em contínuo sofrimento... Por isso, hoje, posso dizer... Serenidade e conformismo serão as palavras de ordem (bem, o desafio que apresento ao meu eu em polvorosa).

"...multidões de pais, avós, bisavós, trisavós, tetravós, pentavós, hexavós, e por aí fora, ad infinitum, se juntarão, uma atrás de outra, como folhas que das árvores se desprendem e vão tombar sobre as folhas de outonos pretéritos, mais où sont les neiges d'antan, do formigueiro interminável dos que, pouco a pouco, levaram a vida a perder os dentes e o cabelo, das legiões dos de má vista e mau ouvido, dos herniados, dos catarrosos, dos que fracturaram o colo do fémur, dos paraplégicos, dos caquécticos, agora imortais que não são capazes de segurar bem a baba que lhes escorre do queixo..."

As Intermitências da Morte, José Saramago

domingo, janeiro 22, 2006

Nada

"Se meu pai não tivesse conhecido minha mãe; se os pais de ambos não se tivessem conhecido; se há cem anos, há mil anos, há milhares e milhares de anos um certo homem não tivesse conhecido certa mulher; se... Nesta cadeia de biliões e biliões de acasos, eis que um homem surge à face da Terra, elo perdido entre a infinidade de elos, de encruzilhadas - e esse homem sou eu...
(...)
Como pensar que «eu poderia não existir»?
(...)
Como pensar em nada? A minha vida é eterna porque é só a presença dela a si própria, é a sua evidente necessidade; é ser eu, EU, esta brutal iluminação de mim e do mundo (...), este SER-SER que me fascina e às vezes me angustia de terror... E todavia eu sei que «isto» nasceu para o silêncio sem fim...
Como tu, meu velho. Aí estás à beira da cova, na urna aberta, para te reconhecermos pela última vez. Onde está a tua pessoa, onde está o que eras tu? Passam pela estrada os carros chiando. Vêm das vinhas, das vindimas, trazem o aroma da terra e da vida. Mas tu agora és apenas a tua imagem. Que é de ti? (...) Viverás ainda na memória dos que te conheceram. Depois esses hão-de morrer. Depois serás exactamente um nada, como se não tivesses nascido. (...) Sim, agora ainda vives para mim porque te sei."

Aparição, Vergílio Ferreira

O angustiante nó na garganta, o friozinho na barriga. O abraço perdido no horizonte, pura quimera que se desfaz numa imagem enevoada e em sensações silenciadas, que sabem simplesmente ao sofá em que me estendo. Aparição de figuras incorpóreas, insubstanciais, páginas e páginas arrancadas do livro dos momentos e conversas que tentei prender em mim, e que voam loucas pela janela, puxadas pelo vento tirano que varre os melhores sorrisos, insistindo que não posso querer guardar tantos livros e tantas páginas de ti no meu quarto. E o medo da não-existência povoa-me de novo, entre os momentos em que giras em mim, em que me invade a revolta. Tantos instantes completos na sua simplicidade, agora visões difusas, confusas. Semicerro os olhos, franzo as sobrancelhas. Procuro-te nos interstícios de mim... mas o vento vai-te afastando do que eu sou. Até ao dia em que o vento me puxará pela janela aberta do meu quarto e da minha memória também.

sábado, janeiro 21, 2006

Finding Neverland


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Don't you feel like figthing for an imaginary battle? Don't you just feel ridiculous when you look around and you see everybody having fun in ordinary games and feelings, and you want a completely different thing? You already know how this world feels like. You've tasted it, you've enjoyed it, but you got tired of it. You can't always listen to the same musique. Fashion isn't always fashionable. And some people can follow fashion and be always fashionable, but others just search for the rainbow and can be perfectly happy alone in their house watching dreaming movies and reading fairy tales, when everybody is tasting freedom by lust. Illusion is a much more apealing place to be, even if its a lonely place.


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I've been to neverland, and I was dazzled by its shinning. Neverland smells like fresh and washed theet, and looks like the perfect smile, a five-year-old smile, the one that you thought your past had crushed. I go there often, because even if it isn't true, even if this may sound like more beautiful and lame words to you, I really like pretending when I know some moments in my life taste like neverland, or when it's better to feel like neverland for myself, than to pull Wendy's and lost boys in to it. Because some times they just don't want to fly. They don't have happy thoughts to fly. And I like happy thougths that fly in my imagination. Even if they're all made up by me.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Thoughts


Algures no livro do Principezinho, a raposa afirma que os homens compram tudo nas lojas, mas como não há lojas de amigos, os Homens já não têm amigos. Amigos ou amores. Tudo tem de ser fácil, rápido, como uma refeição pronta para ser aquecida no microondas. Nada pode ser revestido de um grande custo. O embrulho do papel tem de poder ser rapidamente rasgado, o baú facilmente aberto. O amor facilmente construído, mesmo que os tijolos possam ficar mal colocados. Mesmo que um dia um telhado desabe repentinamente sobre as nossas cabeças. Porque a validade das refeições congeladas vai expirar, não obstante a panóplia de conservantes e corantes e outros antes que não ficam para depois. Um antes sem depois, um presente sem futuro, a efemeridade de cada momento: fátuo, frágil, forte ou fraco, fim à vista. E a palavra de ordem é fácil. Fácil como aceder a um site na internet. E por nada se luta e por nada se morre. E nada é suficientemente louco. Tudo existe porque "dá jeito" e não há sonhos impossíveis para não se viver nos domínios da sua impossibilidade. E no fim todo um conjunto de amores risíveis, num catálogo de memórias, também elas por inferência risíveis. Tudo parece demasiado descartável, tal e qual os pratos de plástico para os piqueniques à beira mar ou à beira rio. Que é do amor?A bravura dos sentimentos transformou-se em cobardia. Um bando de cobardes à espera que o mundo nos seja dado numa bandeja de prata.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Não-Existência

A não-existência é como dormir. Enquanto ficamos por oito ou dez horas aconchegados numa almofada e escondidos entre cobertores e lençóis, outros podem estar a navegar na internet, a dançar em qualquer lado, ou a estudar. Durante uma noite inteira ficamos quietos numa cama, enquanto outros poderam estar no desespero de assimilar mil fotocópias para o exame que decorrerá dali a umas horas, vivendo momentos de loucura e emoção extasiantes, ou pura e simplesmente com uma insónia, descobrindo músicas esquecidas e silenciadas, abarrotando um computador, uma panóplia de discos de música e cassettes perdidas pelo quarto, folheando livros lidos aos catorze anos, revendo filmes de desenhos-animados ou de comédia... ou as televendas.

Alguém me disse que a humanidade é acidente cósmico, e que nós somos o produto de uma reacção biológica e hormonal. E um dia seremos os fósseis que estudámos a Ciências Naturais no sétimo ano. Ou então não haverá mais Alexandrias, e tudo se transformará em pó cósmico. Porque acidentalmente há vida por aqui. Mas também deixa de haver.

Sunshine... (even on a rainy day)

Sunshine:Música de Patrice

And when I feel life's heavy labours calling,
I make myself light aslight
I think of things as they come to me without warning
A train of thoughts passing through on the tracks

CHORUS
Sunshine we be cruising,
it's in our music
that's where the truth is
cos we have done
that cos we haven't been there
I wanna go there
cos we will run that,
I wanna go for real

See the sun shine in winter time
see snow falling in summer time
it's all crazy like our minds.
all this anger makes us blind
For all these poisons that are mine
I know I can not rewind
as I struggle to be more kind
As the train lies
and I mess around
I'm so young but not without a sound,
been seen double,
keeping me down
I fiddle with a thought
But not without a sound

(I wanna feel it,
I wanna be there,
I want you to feel it,
the way that I feel it.
Don't you conceal it,
come on reveal it,
you better kiss me you better love your self.)

My body and your body can fuse into one shadow on the wall.
Your body and my body produce somebody a soundbody
Just look what we conjured out of nowhere
like the notes that thrill the air

(I wanna feel it,
I wanna be there, I want you to feel it,
the waythat I feel it.
Don't you conceal it,
come on reveal it,
you better kiss me
you better love yourself)

domingo, janeiro 15, 2006

Learn and Run



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"On the street where you live girls talk about their social lives
They're made of lipstick,
plastic and paint,
a touch of sable in their eyes
All your life all you've asked when's your Daddy gonna talk to you
But you were living in another world
tryin' to get your message through.

No one heard a single word you said.
They should have seen it in your eyes
What was going around your heart.

Ooh, she's a little runaway.
Daddy's girl learned fast
All those things he couldn't say.
Ooh, she's a little runaway.


A different line every night is guaranteed to blow your mind
I see you out on the streets,
call me for a wild time
So you sit home alone 'cause there's nothing left that you can do
There's only pictures hung in the shadows left there to look
at you

You know she likes the lights at nights on the neon Broadway signs
She don't really mind, it's only love she hopes to find.

Ooh, she's a little runaway.
Daddy's girl learned fast
All those things he couldn't say.
Ooh, she's a little runaway."



Runaway, Jon Bon Jovi
Let's learn at once... and run. Run. Away from the lipstick, the plastic and the paint. Just a coloured show of fakeness.
Arco-íris



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- Não saias agora, está a chover.
- Eu sei... e depois? Olha o arco-íris! E tão perto.
- Vais ficar constipada.
- Oh. O arco-íris acaba mesmo atrás daquela casa. Desta vez tenho a certeza. Vou lá. Se não queres ir, vou eu.

E sair, encharcar os ténis, as meias, os pés, as calças compridas e largas que arrastam no chão, na água suja e na lama. Andar pela rua com um estranho guarda-chuva às flores, por baixo de nuvens teimosas e gotas de água geladas que arrepiam a pele descoberta entre o casaco e aquele pequeno guarda-chuva. E um arco-íris tão longe e tão perto, e querer abrir os braços entre a chuva miudinha e o vento fraquinho, saltitando pelas poças de água.

sábado, janeiro 14, 2006

Strike Me



Posted by Picasa I can hear your steps, I can count them as the rain closes the night sky and blunders the moonlight.
You're close, much to close, but you step back and foward. This time you don't know if you're the prey or the predator.
Under my blanket, I count the lightnings as my mother told me, so I can feel when you're around.
One, two, three, four, five... A glance of your glow.
One, two, three, four... You're getting closer.
One, two, three... You won't step back this time.
One, two... Your light fills my eyes.
One...
Strike: Bullseye!
In my soul. And that strong light dazzles me again.
And I hide in my dark hole. Away from your light. Your dazzling but slippery light.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Cidade nocturna


O cartucho das castanhas. Eu gosto muito de comer castanhas no Inverno, gosto de ver aquele fumo todo e as castanhas a serem embrulhadas quentinhas na folha do jornal. Estendi o dinheiro à simpática senhora e ainda olhei para trás. As cascas das castanhas no passeio a deixarem a marca de um caminho que vai ficando para trás. A cidade está iluminada. Por todo o lado as pessoas, mais e mais pessoas a viver mais um dia das suas vidas. Casais nos bancos, casais nos carros, um namorado a chorar enquanto passo devagarinho pelo carro deles. Lágrimas silenciosas de uma conversa inaudível. Bocadinhos de vidas (in)constantes que não conheço iluminadas pelos candeeiros da rua. A lua ergue-se enevoada no céu, no seu misticismo imponente. As lágrimas, desta vez minhas, escondem-se atrás deste véu de noite, atrás das ernormes árvores que assistem ao meu silencioso espectáculo melancólico. As sombras sinuosas dos outros erguem-se no outro lado do passeio.Mas eu hoje estou sozinha. Não importa quem venha, quem fale, estou sozinha comigo mesma numa esquina qualquer do meu eu. Numa conversa entre rumores entrecortados, de soluços camuflados. Hoje estou sozinha com a memória, que me conta histórias, como folhas que vão lentamente caíndo do esquecimento, ou da árvore, para o chão, ou para o pensamento. Mas o pensamento nem é o chão. O pensamento é uma avalanche. Que desagua em ti. Sim, o pensamento é fértil e no pensamento imaginativo do ser as avalanches podem desaguar. E só podem desaguar em ti. Tu é que és o meu espelho. E são os meus olhos que quero ver reflectidos quando olhas para mim. Um espelho sem mistérios ou vaidades, sem vidros baços ou estilhaçados. Não estilhaçes o meu espelho.
Continuo a caminhar, ora mais depressa, ora mais devagar, a cantar baixinho. Canto para me sentir melhor, canto para afogar este silêncio de medos e de palavras presas. Há uma palavra que inventei para ti. Ainda não tive, contudo, coragem para ta dizer. E continuo a tornar tudo muito complicado. A fazer do meu mundo um mundo de disparates. Conseguirás amar-me por entre todos esses disparates?Conseguirás vislumbrar neles, nesses olhar-disparate esse terror de te deixar cair?De te deixar escorregar das minhas mãos, de te deixar fugir do meu palco. De te deixar sair do meu argumento. Sim amar-me. Era dessa palavra que te queria falar. Mas mudei-a, renovei-a, dei-lhe lustro, pu-la num forno a mil graus, fundi-a e voltei a fazer da areia vidro. E termino por aqui, no meio de mais bocados de disparates. Só mais um disparate para finalizar: amo-te.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Duas canetas em vez de uma...


E nesses olhares há mãos que se tocam e se entrelaçam e se apertam com muita força... para que a mão do outro não fuja, para que entre uma mão e a outra não haja mais separações. Para que as duas mãos sejam uma. Para ter a certeza que estamos ali. Quando duas mãos se apertam com tanta força, quando dois olhos se olham assim nessa beleza do deleite de instantes há lágrimas que se soltam sem molhar a face, há músicas que tocam como um pássaro a bater as asas dentro do peito. E as intempéries da vida ficam lá fora, como quando limpamos os pés no tapete na porta da entrada.

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E dedo a dedo, a minha mão encaixa perfeitamente na tua. Os meus olhos devolvem-me os teus, tanto tempo que parecem ficar transparentes. E sinto a nossa cumplicidade muda em confidências e piadas só nossas. E tudo o que te pudesse dizer não importa. As palavras ficam envergonhadas ao pé de uma intimidade assim. E talvez repitas estes momentos, talvez outras mãos se entrelacem nas tuas, e olhes para trás vendo apenas a banalidade de uma forte empatia... Mas agora entrelaça as minhas mãos nas tuas. E não fales...

LetraSoltas

Coup-de-Foudre


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Um silêncio subitamente cortado por uma melodia harmoniosa e inaudível, escrito num poema a tinta transparente... Palavras perdidas na força de um olhar.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

René Magritte



Um dos meus pintores favoritos... A beleza do surrealismo...

terça-feira, janeiro 10, 2006

Pequeno

Este é um texto muito pequeno. Porque as coisas pequenas também são importantes. Pequenas coisas como o pôr-do-sol e uma música cantada ao ouvido. Pequenas. Pequenos textos com pequenas palavras-puzzle que são retalhos de uma manta de vida. Pequeno. Belo. Um momento. Como... AQUELE.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

TACTO

Eu podia nem ter registado no gravador do meu cérebro o som da tua voz ou o cheiro das tuas gargalhadas e da nossa paixão. A cassete podia ter avariado e ficado parada e suspensa. Conheço-te pelo toque das tuas mãos. Nunca ninguém me tocou assim.É nesse toque que te olho no fundo dos teus olhos, embora nenhum dos dois tenha os olhos abertos. Desvelamento. Sim as tuas mãos são desvelamento de uma impúdica verdade. A pele com textura de pele de galinha, quando passas levemente com a tua boca pelas minhas costas. Está frio. Anda vem fazer do meu corpo uma lareira meu amor. Abraça-me com força e susssura-me ao ouvido palavras novas que inventares no momento, palavras macias, de toque suave e quente, palavras-cerejas, palavras-rubor.Só tu me sabes tocar até nos interstícios das tuas palavras feitas do material dos silêncios, os silêncios têm a textura das nuvens. Quando era miúda costumava ficar deitada na relva a encontrar personagens perdidas nas formas vagas das nuvens. Sempre pensei que as nuvens tinham a textura do algodão doce. Ainda hoje não sei o toque das nuvens. Elas são o material do teu silêncio de tantas palavras, que desconheço mas me invadem nessa corrente, que transborda em nós. O abraço apertado aperta tudo, tudo , tudo cá dentro, como se mil nós quisessem descer ao mesmo tempo pela garganta. O coração torna-se caixa vazia sem coração. O coração não é macio, o coração é como um peixe que foi pescado e ainda está vivo. Aquela superfíce escorregadia, aquele constante debater sôfrego pela vida. È assim nos segundos em que o coração sai fora da caixa como o palhaço que salta fora da caixa das brincadeiras. Tu sabes, aquelas caixas supresa de onde salta tudo o que não estamos à espera. Tu saltaste dessa minha caixa, quando eu pensei que já estava vazia.
Encostas a tua cabeça e repousas no ninho do meu peito de olhos fechados, as minhas mãos entrelaçam o teu cabelo. Quando as mãos passam no cabelo é como se mil formigas laboriosas fizessem pequenas cócegas na nossa cabeça, dá vontade de adormecer. O beijo quente, pelo contrário, é como uma chávena de café bem quente a escaldar a garganta. Dá vontade de acordar, de permanecer nesse beijo levitador por tempos incomensuráveis até a terra fazer a sua rotação e translação. Os meus suspiros têm a textura da pele a ser suavemente arranhada, de um beliscão, para ter a certeza que estás aqui e é tudo real. E a vida tem essa sensação única de grãos de areia a passar por entra as mãos, ou então como quando tentamos pôr água nas nossas mãos e depois beber. A vida nunca se queda. Não é horizontal ou vertical. Não é direita ou torta. É algo no intermédio de todas as coisas, dentro e acima de todas elas.
A tua boca e a tua pele tão próximas, como se entre elas não houvesse distinção. Algumas gotas de água a correr pelo ventre. Num tempo sem lugar e num lugar sem tempo que se demarque. Tudo está desterritorializado hoje e é mesmo assim. Estamos juntos. As mãos têm a textura do lençol de seda, a boca a textura de uma melancia fresca acabada de trincar, fresca e madura. A vida tem o sabor de um limão sem açúcar, que dá vontade de comer e simultaneamente amarga. Dá prazer e dor. A vida é um iô-iô..Dá corda..tira corda.. vem meu amor vem balançar no meu iô-iô.

sábado, janeiro 07, 2006

Relógio louco


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É impressionante como o tempo sabe confundir os ponteiros de uma alma-relógio em dessassossego. Tanto parece que passa devagar, como passa três horas em três minutos. Quando estamos bem o tempo foge-nos e as memórias tornam-se um nevoeiro confuso de pessoas, gestos e lugares que gostariamos de saborear devagarinho, como um gelado de chocolate com cobertura de amêndoas à beira-mar. E não podemos. Há exactamente um ano estreei um sorriso novo, que quis prender no meu baú de brinquedos. Mas um ano passou, o sorriso não quis ficar no baú, e afinal nada mudou. Após um ano, os gestos e as palavras são os mesmos, e apenas algumas pessoas vão entrando e saindo passando a ombreira da minha casa sem portas. Esgeirando-se na ampulheta fugidia do meu tempo.

Como num jogo de sueca, os baralhos vão-se gastando com o toque das mãos e usamos novos. E quando o nosso par está cansado, muda. Assim como a mesa e os restantes jogadores. Apenas as regras do jogo permanecem as mesmas. Os medos apagam-se e renascem como um lume tremido no final da noite. Os primeiros sonhos perdem o sentido ou passam a necessidade ou frustração, uma memória que deixa a desejar. E os anos passam. Somos os mesmos, mas pouco do desenho que pintámos com as cores que pensávamos ter agora. E afinal temos ainda menos certezas. Passa o entusiasmo pueril e fica o conformismo, cortado por deliciosas gargalhadas e momentos que quebram o papel transparente da rotina que nos envolve. Uma pessoa que cai andando calmamente pela rua faz-nos rir, apanharem-nos a fazer caretas para o vidro do comboio diverte-nos, uma calinada de um amigo rebola-nos de gozo, uma noite a dançar eleva-nos na liberdade e na luxúria, uma música que nos faz saltar pela casa faz-nos sorrir na loucura e independência... Instantes completos na sua simplicidade. Esses, pelo menos, nunca mudam.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Carrossel


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Sair de casa numa tarde solarenga a ouvir música fez-me entrar numa realidade paralela. Sim, é mais uma das minhas viagens, como alguém uma vez me disse, mas senti-me num vídeo de música, daqueles em que os cantores percorrem cidades e cidades a pensar em tudo o que viveram, atravessando locais em obras e estradas sem problemas e sem serem atingidos. Caminhando pelas notas de uma melodia ritmada e uma letra sorridente, só me faltava dançar no alcatrão e soltar a minha voz por entre o sopro do vento. E é estranho como a tortura de uma longa e cansativa viagem entre autocarro, comboio e metro se transformou em meios sorrisos de tontinha nos olhares das outras pessoas. Foi como uma viagem de carrossel em que o meu carro era um disco de música, e as melodias eram pequenos momentos que iam rodando em reminiscências do meu pensamento. Fechando os olhos, baixavam em mim as luzes fortes dos holofotes de mil cores cortadas por pequenas sequências de danças e sorrisos eufóricos, de pessoas tão minhas familiares. E eles estiveram comigo de novo, na monotonia dos meus dias sempre iguais.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Devaneios insanos

Em que dia é que nós deixamos de acreditar no pai natal no mundo longe da nossa infância? Quando será que alguém diz “mãe eu já sei que ele não vem pela chaminé!”. Quando é que dizemos “eu sei que os meninos não vêm da cegonha”?. Em que altura desperta a nossa consciência?Será que chorei muito quando soube que era mentira?Que nem pai natal nem menino jesus,ninguém vinha trazer as prendas?Não me recordo.
Talvez seja assim com tudo o resto. Em que dia acordaremos pelo meio de lençóis enrolados e saltaremos da cama a dizer “eu já não acredito no amor”, ou aqueles que um dia até afirmam “eu já não acredito na vida”. E o Pólo Norte dos nossos sonhos de casas feitas de chocolate e rebuçados começa a derreter, a derrocada imprevisível das fantasias e dos “eu acredito”. Tornamo-nos mais um no bando dos “olhos no chão”, no grupo dos que perderam alguma coisa debaixo da cama mas têm medo do papão. E não põem a cabeça ali em baixo naquele sítio escuro, onde secalhar só estão o resto do que já fomos e não somos mais. As folhas dos desenhos da primária, os brinquedos partidos, a caixa dos sapatos que já não nos servem. O lugar das brincadeiras das escondidas e do quarto escuro de outrora.
Cairão um dia as máscaras que inventamos para nos protegermos?Cairão um dia os lugares comuns da nossa vida?Nascerá um dia um sol diferente de todos os outros? Deixo por momentos esse em-que-dia e fico-me por um hoje. Vejos as tonalidades do céu e as tonalidades da vida e de repente por entre as lágrimas ou as nuvens do céu descortino um sorriso capaz de vencer batalhas. Porque já nada importa. O que somos. O que fomos. O que seremos. Vivemos. E hoje tenho esta certeza, esse em-que-dia de descrédito existencialista não é hoje. Não, hoje, não. Hoje sonho com a minha (um dia) casa perto da praia a ver o sol nascer e as ondas encontrarem-se com a areia. O café na mes da cozinha e um abraço apertado pelo meio dos lençóis. Um beijo quente e um livro por acabar de ser escrito em cima do sofá. Uma criança teimosa no jardim e um baloiço.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Papel

Historiadores. Pessoas que estudam tudo o que é escrito e estudado, trabalhando uma vida inteira e organizando tudo em grandes livros cheios de definições e explicações de todo o tipo de teorias: enciclopédias. Investigação, leitura, escrita, viagens. Matemática, história, filosofia, ciência, geologia, astronomia, biologia. Mas há um estudo que seria impossível organizar em inventário. O de todas as folhas que são escritas, de todos os livros que são publicados, de todos os diários que são "riscanhados", de todos os cadernos que são preenchidos com inúmeras equações, dissertações e desenhos no canto da folha naquele momento de aborrecimento e anheamento total de uma aula. Não seria um estudo sobre a linguística, a literatura ou a imprensa, mas de cada pedacinho de vida que é soltado numa letra. Nem a personagem de Tom Cruise em "Missão Impossível" se desenrascava em algo assim. Porque nós não somos um livro, um bloco de notas ou um diário que tem fim previsto e determinado. Somos um monte de folhas que não se conseguem contar nem se vê o fim, em que se vai escrevendo devagar para não rasgar, ora a caneta, ora a lápis. Eu prefiro a lápis, para poder apagar. A caneta borra muito, especialmente a tinta permanente. E escrevendo a lápis podemos apagar (de mansinho, para não sujar), e escrever de novo. Podemos encher linhas e linhas, deixar intervalos para completar, e até desenhar nos cantinhos. E aqui não escrevo a lápis, não se apaga. Mas não faz mal. Fica sempre um espacinho para escrever mais, para viver mais, e soltando letras por aqui não borro papel nenhum. Nem quero. Só quero escrever de mansinho. Soltar letras em metáforas, em vez de as esconder nos baús de duas mãos presas e dois lábios cerrados. Porque as minhas mãos são inquietas e os meus lábios gostam de falar com elas.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Audição

Não só te conheço pelo cheiro como pelo som da tua voz. E se as minhas gargalhdas cheiram a geleia de morango e torradas o teu perfume tem o som de suspiros. Tem o som da minha voz de textura de veludo, quando te falo com carinho, e a textura rugosa das nossas conversas em tom alto, por trás do som do café a ser despejado na chávena. Se se retirasse o cheiro do café ficaria só este som do bule a verter na caneca essa mistura de grãos, vindos de outras paragens longíquas, onde o sol abrasador deve estar agora a começar a erguer-se por trás de vegetações verdejantes e cânticos quentes dos habitantes.
O nosso beijo tem o som da respiração abafada e do comboio que passa pela estação no exacto segundo em que o trocamos. O nosso primeiro passeio tem o som da música que puseste no leitor de CD do carro e que agora não consigo ouvir sem pensar em ti. A nossa existência é uma banda sonora que não cabe nas colectâneas de discos que se vendem por aí. Muitas das músicas ficam esquecidas no armário das recordações e só voltam a activar aquela zona recôndita do cérebro quando por acaso estávamos a tomar duche de manhã e dá na rádio aquela música. Aí tudo desaba em nós. Foi naquela música que estávamos com aqueles amigos que agora não vemos há tanto tempo. Aquela música tem o sabor da melhor pizza que já comemos. Há aquela outra que nos levou às lágrimas impúdicas e pertinentes da primeira vez que nos rebentaram o coração por dentro, implodido e choroso. O coração fechou para obras. Sinais de stop a impedir a entrada, de sentido proibido, outros insistindo para mudar de direcção.. mas há sempre um condutor teimoso que não cumpre as regras: ou porque está embriagado nessa “coisa” da paixão, ou porque é obstinado o suficiente para não querer saber de porcaria de sinais nenhuns. Ah sim! Mas voltando à musica. Outras fazem-nos rir, ou sorrir. O sorriso é polisssémico multiforme. Há sempre aquele sorriso de circunstância, há aquele sorriso que tentamos conter mas não conseguimos abafar. Há o catálogo de sorrisos ridículos, onde se inserem os da paixão, os da “palhacice” pura com os nosso amigos, ou aqueles que soltamos quando estamso sozinhos por sabe-se lá o quê num ataque de histerismo. Cada riso tem o seu tom e som diferente. Cada voz o seu timbre. A tua voz tem um som de divertimento pueril, um tom de ligeireza e brincadeira. O meu soa porventura aos desenhos animados da infância perdida. E o som da tua voz age instintivamente no meu mecanismo de sorriso. Aqueles do catálogo do ridículo. É sempre assim.
Os meus pés têm aquele som característico no soalho, na calçada, no passeio, neste caminho que faço e me leva a ti. Há o som de espirros e tossidelas das pessoas que passam e até o barulho dos pingos de chuva no chão. Há o tilintar das moedas e o som de buzinadelas dos impacientes. O som da cidade agitada. Falta ainda o som do teu abraço: tem o som de correntes a cairem no chão, de portas a abrirem, de vidros de janela a partir, de muralhas a serem derrubadas, nesse abraço galopante que me derrota e me vence e me ganha e me perde. Ainda há o som das pessoas que passam na sua coscuvilhice e alcoviteirice aguda, o som de risinhos abafados, de correntes a arrastarem-se, num caudal de frustrações que não acaba mais. Ouço ao longe um piano nos meus ouvidos, um Chopin ou um Schubert e o barulho do mar num búzio invisível da minha cabeça. De repente acordo com um som inconfundível a sonho: o som do bocejo do espreguiçar matinal, o despertador na mesa da cabeceira e o apitar do telémovel.

Anestesia

Partir para um pequeno canto na província é como ser anestesiado com a droga da despreocupação. No vislumbrar de uma simples tabuleta e as luzes de uma povoação, mergulhamos num sono de alienação, dentro de uma realidade paralela de um mundo rural, pacífico no seu isolamento do polvo da tecnologia e da modernidade, que à noite se transforma numa realidade inebriante e louca no embalo de reencontros perfumados com bebida e música. E durante uma semana, ou até um mês, afastamos as nossas superficialidades rotineiras para um recanto de nós e vivemos o que nos é mais familiar, renascendo a cada sensação teluriana. Miguel Torga tinha razão. Sentimos a nossa força renovada no calcarroar das empedradas ruas do nosso pedacinho no interior, no expirar do ar frio e seco que nos envolve até aos ossos, e nos cheiros, tão naturais, como se percorressemos uma extensa quinta de animais entre as casas, a igreja, a escola, as tascas e os cafés ou bares. E, numa embriaguez apática do quotidiano de écrans negros, redescobrimo-nos intelectual e emocionalmente. E em poucos dias pensei num assunto-cliché, um assunto da praxe, mas que me ocupou consideravelmente. As memórias. Um dos mistérios insondáveis do fenómeno humano. As recordações, o pensamento, o sonho, a imaginação. É estranho como, no nosso isolamento reflexivo, podemos sentir um pouco do que desejamos ou revivemos um pouco do que sentimos, mas ao mesmo tempo não sabe a nada, é irreal, é algo que nem é visível. Talvez esteja a cair no niilismo mas, se tudo acaba, se tudo desaparece e o que nos resta são as memórias, imagens, reflexos de nós e dos outros em papéis frios ou bocadinhos que vamos perdendo no buraco negro da mente, para que serve tudo? Afinal de que nos serve partilhar tanto com alguém se um dia se torna apenas uma projecção fotográfica e perde aquele cheiro a filhozes e a lume? E um dia também seremos vídeos mentais e insensíveis aos sentidos dos outros? Mas não seremos um nada absoluto. Saberemos a pouco mas mesmo assim transbordaremos dos olhos dos outros, e renasceremos em dias de insónia.