terça-feira, janeiro 03, 2006

Papel

Historiadores. Pessoas que estudam tudo o que é escrito e estudado, trabalhando uma vida inteira e organizando tudo em grandes livros cheios de definições e explicações de todo o tipo de teorias: enciclopédias. Investigação, leitura, escrita, viagens. Matemática, história, filosofia, ciência, geologia, astronomia, biologia. Mas há um estudo que seria impossível organizar em inventário. O de todas as folhas que são escritas, de todos os livros que são publicados, de todos os diários que são "riscanhados", de todos os cadernos que são preenchidos com inúmeras equações, dissertações e desenhos no canto da folha naquele momento de aborrecimento e anheamento total de uma aula. Não seria um estudo sobre a linguística, a literatura ou a imprensa, mas de cada pedacinho de vida que é soltado numa letra. Nem a personagem de Tom Cruise em "Missão Impossível" se desenrascava em algo assim. Porque nós não somos um livro, um bloco de notas ou um diário que tem fim previsto e determinado. Somos um monte de folhas que não se conseguem contar nem se vê o fim, em que se vai escrevendo devagar para não rasgar, ora a caneta, ora a lápis. Eu prefiro a lápis, para poder apagar. A caneta borra muito, especialmente a tinta permanente. E escrevendo a lápis podemos apagar (de mansinho, para não sujar), e escrever de novo. Podemos encher linhas e linhas, deixar intervalos para completar, e até desenhar nos cantinhos. E aqui não escrevo a lápis, não se apaga. Mas não faz mal. Fica sempre um espacinho para escrever mais, para viver mais, e soltando letras por aqui não borro papel nenhum. Nem quero. Só quero escrever de mansinho. Soltar letras em metáforas, em vez de as esconder nos baús de duas mãos presas e dois lábios cerrados. Porque as minhas mãos são inquietas e os meus lábios gostam de falar com elas.

6 comentários:

susana disse...

vou seguir o teu conselho, ísis =) Vou começar a escrever a lápis
(mas sem carregar!)

A-D-O-R-E-I,mana =)

Ninfa disse...

pronto lá tá assim se vê oh carai cm diria a faty..será que tb tenho d me ausentar do blog pa me gritarem as boas vindas no mural!Marta amua e rebola-se no chão e grita como os miúdossss SUSANA LEVA PORRADA

Ninfa disse...

eu estou sempre a borrar a folha sabes faty?mas n faz mal.. Ainda há muitas folhas para serem escritas

OJ disse...

A imaginação invade o pensamento sem pedir licença e nem escolhe o momento oportuno. Toma-nos o espírito e quanto mais é a sua força menor são as capacidades no controlo das nossas acções e atitudes. A cedência é fácil, indolor, sem cheiro, … , e na abstracção também o corpo é dominado e domado. Nesta forma inconsciente os dedos ganham vida própria e, na ânsia de debitar as variações de uma imaginação, procuram o lápis, a caneta ou um outro instrumento com capacidades de descodificação, juntamente com um respectivo suporte que mais ajeito se encontre, sem olhar a que fim se destina. É por isso que muitas vezes encontramos fantasias e ilusões, desejos e ideais, devaneios e dissertações, …, que em nada têm com o fundamento da página, do livro, do suporte.
Como neste mundo tudo pode ser um objecto de estudo também há quem disseque todo este cosmos e o catalogue. Discordo que seja uma missão impossível. Talvez não exista um inventário exaustivo. E tão pouco será realizado por historiadores e muito menos por Tom Cruise. Este campo de estudo terá mais ligações ciências relacionadas com a psicologia. Contudo, para mim, o seu encanto está nessa mesma inocência longe de qualquer estudo que de forma calculista reduz um universo a uma equação. A verdade é: “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus.”
E se nestes devaneios podemos escolher entre lápis e caneta, na escrita da nossa vida somente temos a caneta, que escreve a sangue, impossível de apagar, pois o que se passou não se altera, no máximo pode-se riscar. Mas mesmo assim sabemos sempre que algo está por debaixo do risco. Contudo o que interessa é como chega a obra ao Leitor. Quantos escritores, compositores, pintores, iniciaram uma obra sem riscos e gatafunhos? Quantos tinham uma letra e traço bonito, de fácil leitura, e com um acabamento perfeito para a encadernação? Só a raridade de um ou outro génio.
Quanto a tudo mais acaba por terminar num vulgar resumo, do mais básico que há, numa lápide, se a isso outros o permitirem.
Contudo é de vida que falo e que me interessa. Por isso fica o meu repto para que não aprisiones a tua imaginação num baú mas antes lhe dá a liberdade e deixa-a voar de forma espontânea e solta. Que os teus lábios cândidos não se calem porque as mãos inquietas não querem descanso.

Hizys disse...

xiiii! =) é verdade, a vida fica a caneta. é difícil escrever a lápis, e o trabalho de a reler depois não está a cargo do Tom Cruise, mas também não pode ser comparada a uma enciclopédia. as histórias do mundo ficam em livros, como bocadinhos de vidas que estão em muitas folhas que não são conhecidas, e por isso é que a arte e a literatura são tão importantes.

no fundo somos todos um pouco de arte. que um dia esmorece. é assim a vida, e é assim que sempre será...

alguns ficaram mesmo em livros, como fernando pessoa, saramago e outros que tais, e outros em folhas separadas de pessoas que não precisaram de ser reconhecidas publicamente para a sua vida ser um pouco de arte.

OJ disse...

Dessa forma somos como pequenas peças de um puzzle. Umas são mais significantes e belas que outras, mas sem a totalidade das peças não se completa o puzzle.
Vou mais longe comparando a uma catedral gótica. Todos se deslumbram ao contempla-la na sua globalidade. Porém, nos pormenores olha-se basicamente para a escultura, para os vitrais, alguma pintura e pouco mais. No entanto a catedral é composta em grande parte pelas pedras lisas das paredes ou das que constituem o seu interior e que ficam esquecidas e sem importância, mas fazem parte da sua história.

Mas a história é dos homens e feita conforme os homens e as épocas. E por isso há personagens consideradas essenciais numa época e depois morrem desaparecendo dos anais da história noutra época. E quantos em vida não passaram de desconhecidas figuras e em eras posteriores foram ressuscitados atingindo a importância de figuras essenciais de cultura. Alguns por meros apontamentos em folhas soltas. Outros somente por um gesto, uma atitude, um nome. E mais curioso é as personagens dadas como reais e entraram na história mas que afinal nunca existiram.

Nos livros fica muita história mas não é o único suporte ou o mais fiável e duradouro, mesmo no domínio do privado. Quantas vidas os arqueólogos não desenterraram e que não vinham em nenhum livro…

Concordo contigo, pois afinal as enciclopédias falam de uma ínfima parte de um todo a que nós também pertencemos. E colocar um pouco da arte de todos os que passaram e passarão pelo mundo numa enciclopédia ou livro de história seria humanamente impossível. Tal missão só ao alcance de uma entidade superior e a obra é “O livro da vida”. ;)