Relógio louco


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É impressionante como o tempo sabe confundir os ponteiros de uma alma-relógio em dessassossego. Tanto parece que passa devagar, como passa três horas em três minutos. Quando estamos bem o tempo foge-nos e as memórias tornam-se um nevoeiro confuso de pessoas, gestos e lugares que gostariamos de saborear devagarinho, como um gelado de chocolate com cobertura de amêndoas à beira-mar. E não podemos. Há exactamente um ano estreei um sorriso novo, que quis prender no meu baú de brinquedos. Mas um ano passou, o sorriso não quis ficar no baú, e afinal nada mudou. Após um ano, os gestos e as palavras são os mesmos, e apenas algumas pessoas vão entrando e saindo passando a ombreira da minha casa sem portas. Esgeirando-se na ampulheta fugidia do meu tempo.

Como num jogo de sueca, os baralhos vão-se gastando com o toque das mãos e usamos novos. E quando o nosso par está cansado, muda. Assim como a mesa e os restantes jogadores. Apenas as regras do jogo permanecem as mesmas. Os medos apagam-se e renascem como um lume tremido no final da noite. Os primeiros sonhos perdem o sentido ou passam a necessidade ou frustração, uma memória que deixa a desejar. E os anos passam. Somos os mesmos, mas pouco do desenho que pintámos com as cores que pensávamos ter agora. E afinal temos ainda menos certezas. Passa o entusiasmo pueril e fica o conformismo, cortado por deliciosas gargalhadas e momentos que quebram o papel transparente da rotina que nos envolve. Uma pessoa que cai andando calmamente pela rua faz-nos rir, apanharem-nos a fazer caretas para o vidro do comboio diverte-nos, uma calinada de um amigo rebola-nos de gozo, uma noite a dançar eleva-nos na liberdade e na luxúria, uma música que nos faz saltar pela casa faz-nos sorrir na loucura e independência... Instantes completos na sua simplicidade. Esses, pelo menos, nunca mudam.

Comentários

Ninfa disse…
Eu amo esse quadro :)grande Dali pera k ja comento o post
Ninfa disse…
Há coisas que ficam sempre... :) e não é melhor viver momentos tão felizes do que viver toda a vida sem grandes sobressaltos? não valerá a pena sofrer por um segundo d arrebatamento?
OJ disse…
Curiosamente ainda há pouco tempo estive a rever a obra deste controverso pintor o que me levou a colocar uma sua pintura, dentro da temática dos “relógios moles”, no blog notícias dos Forcalhos como apoio aos desejos de um feliz Ano Novo.
Tanto a pintura como o post têm muito que se possa dizer mas fico-me com as palavras de Salvador Dali: “Eu vou ser tão breve que na verdade já terminei.”
disse…
Mas eu não quero ser assim TÃO breve. Quero mais tempo. Só mais um bocadinho, pelo menos. Quero valer todos os segundos de arrebatamento! Para sempre *

** ná

ps. Esse quadro dele está genial, mas faz-me impressão :p
Hizys disse…
Sim. Cada deslumbramento ao máximo na correria dos ponteiros do relógio. Para valer sempre a pena. =)