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Passear pelo paredão numa tarde de céu enevoado e tempo farrusco (o que eu gosto desta palavra). A melodia das ondas embatendo contra as rochas mesclada num ritmo electrónico e numa voz que dança entre o sol e o dó soprado nos ouvidos. Enterrar os pés na areia incólume que grava as solas e os números dos sapatos. Vento frio que pica o mar e nos envolve no cheiro a maresia. E beber um batido de banana numa esplanada vazia. Fazer barulho com a palhinha e refilar alto que já acabou. Meter ao bolso quase todos os rebuçados da bandeja do café. Rir de uma traquinice inocente, como se de um grave delito se tratasse. Sorrir e dizer "boa tarde" a um surpreendido condutor de autocarro com semblante cansado e casmurro. Sentar-se no banco de trás de um autocarro vazio. Trautear tranquilamente uma música qualquer, improvisando uns "lalala" e "pampampamramrampampam" na parte instrumental, por cima do Rádio Clube Português do condutor. Sair para a rua e cantarolar até casa, com o carapuço na cabeça, porque está escuro e não há ninguém na rua. Luzes de um carro cortam a estrada. Olhos por entre o breu das seis da tarde de um dia de inverno olham-nos curiosos. Chegar a casa e fazer como o Fred Flinstone... "Chegueeeeeeeeeeeeei!", mesmo que ninguém responda. Fazer torradas mesmo que o jantar esteja quase pronto. Receber cartas de uma amiga que mora longe e não usa a internet. Jantar empadão com carne, e roubar a parte do ovo toda. Não ter "spam" no correio electrónico. Encontrar à primeira aquele disco de música que pensámos ouvir toda a tarde. Ler sem pensar em ficar o resto da tarde e noite frente ao computador. Fechar a porta do quarto, pôr a música bem alto, desligar as luzes... espectáculo com um público em delírio imaginário. Ou simplesmente um colchão feito pista de dança colorida. E o candeeiro é uma bola gigante platinada. Saltar na cama como no trampolim das aulas de educação física que afinal não odiava tanto assim. Não resistir e espreitar o símbolo vício moderno... O "download" (farta de anglicismos informáticos, procuro sempre um equivalente em português...mas para este não sei! Impotência linguística!), daquele filme que tanto queríamos ver está completo. Começa a rodar na caixinha electrónica. Como é para um filme não nos sentimos tão virtual e ciberneticamente dependentes. Como se já vivessemos lá dentro. Não...é só um filme! 90, 120 minutos... nada de especial. Numa pausa para um café com leite quentinho, uma cascata de palavras com quem não conseguimos deixar segredar as curvas dos nossos passos. Sabe bem, mesmo que não possamos ver a sua expressão quando dizemos algo verdadeiramente estúpido e inspirado e se se ri mesmo quando diz que se ri. Mesmo que saiba a pouco, mesmo que seja apenas uma tela branca com letras coloridas e uma fotografia pequenina no canto. Acabar a noite a marcar partes de um livro que adivinhamos como o próximo livro da nossa vida. Quentinhos entre o pijama e os lençóis. E uma daquelas almofadas grandes, que dá vontade de abraçar.

Simplicidade.

Comentários

Shelyra disse…
Belos momentos. Tão simples e tão maravilhosos. Gostei.
Anónimo disse…
Adorei!
A simplicidade da vida!!
Ninfa disse…
Lindos estes momentos..especialmente aqueles que partilhas assim com amigos..AMIGOS COMO TU!
Unattached disse…
Q-Quero...Q-Quero tanto a tua vida. >.< lol. está muito bom mesmo, fez-me sorrir.

Bjs
Alice Matos disse…
humm...tão bons esses pequenos prazeres *
Hizys disse…
A minha vida unattached? isto é em férias ou em tardes livres...=)

shelyra, anonymous, ninfa e alice matos...gosto de apreciar a minha independência assim como aqueles momentos como amigos. e um café à beira mar, de noite? =) óptimo.
disse…
aiii o passeio pelo paredão e pela praia e a areia e trautear as musicas que sabemos de cor! ai a simplicidade!!!