terça-feira, dezembro 26, 2006

Estranho viajante

- De onde vens estranho viajante?
Na varanda coberta de flores, contas-me a tua história aquecida pelo chá adocicado com mel. Ès um foragido do Mundo, um foragido de ti. Viajaste por onde quiseste, desenlaçaste qualquer laço que te pudesse prender. Agora já não és capaz de atar os sapatos e voltaste. Nada te dá satisfação, e tu que pensavas que não tinhas de dar satisfações a ninguém. Esqueceste-te de ti quando te fugiste.Pareces pálido e envelhecido dos teus medos. Cansado de fugir, disseste-me. E eu?Oh eu nunca tive mais que esta varanda e que os passeios nas tardes de Outono. Queres vir passear comigo estranho viajante? Conhecer a música da harpa de fantasias que toco ao sabor de mim mesma?Velejar pelo soalho da minha varanda? Sento-me repentinamente no baloiço da varanda. Empurra-me viajante, devagarinho para não te cansares. E se tiveres frio acendemos uma fogueira que abrase a alma. Ainda tens alma, ali está ela. A empurrar o meu baloiço num sopro de sonho. Estou tão viva na tua presença. Retiras o capuz. Danço no teu olhar infinito. E passeamos, passeamos com o sublime pensamento que o amor não é uma mera passeata ou uma viagem em que não deixamos raízes. O amor é um passeio que queremos prolongar indefinidamente. A melodia de uma harpa que não queremos deixar esmorecer. O amor é um passeio que não se sabe bem como começa. Este começou nesta varanda coberta de flores, orquídeas, túlipas, magnólias. Um passeio que nos torna tão tão leves. Foi por isso que voltaste misterioso homem, e encontraste-me. Não tenhas receio, eu seguro-te na mão quando sairmos lá para fora. A minha mão dir-te-á “gosto de ti” sem eu pronunciar nenhuma palavra. E a tua mão responderá “sim eu também”, nesse momento as duas irão fundir-se e encontrar-se. Não importa que não acredites nas histórias de amor que correm por aí. Eu também já deixei de acreditar muitas vezes. Tantas vezes que deixei de acreditar em tanto coisa. Só tenho uma fé impertubável na minha alma dançante, a minha alma borboleta que nãosabe viver sem ser assim. Procurando outra alma borboleta, outra alma dançante. Não se dança sem ter par. Estou farta de dançar sozinha. Busco a metade da laranja, a metade da lua, a metade do sol. A metade do todo. A meia dúzia da dúzia. A moral da história, da minha pequena fábula.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Máquina do tempo

A máquina do tempo arrancou devagarinho pelo vórtice do Mundo. Senti os ouvidos zumbir e a velocidade aumentou, acelerou a máquina que me levava de volta sítios e momentos onde nunca mais estarei. Eu era espectadora de mim mesma, regressando às primeiras faixas de um qualquer álbum da minha vida. Os meses recuaram e quando pus um pé fora da máquina do tempo, pouco parecia ter mudado.Vi-me de ténis, num dia de chuva amistosa, já que saltava para dentro das poças sem o mínimo sinal de preocupação. Embora as gotas se fundissem amorosamente com o soalho frio, um sol enternecido com a beleza do Mundo espreitava por entre as nuvens, em raios elegantes e sonhadores. Como sempre, eu cantava, até aí nada de novo. Nada de novo até tu chegares e irromperes na minha vida sem pedir licença. Como se no amor tivesse de haver licença. Como se o amor fosse uma aula em que pudéssemos pedir licença para sair. Não se sai nem se entra do amor. O amor entra e sai de nós. Espreita por entre as frestas que deixamos abertas, assim como acontecia com o sol que ludubriava as nuvens distraídas. Distraída sou eu, tropecei em ti numas escadas muito compridas, das quais julguei que nunca ia sair. Na máquina do tempo revi aquele dia em que tropeçámos nos lábios um do outro. A máquina do tempo avança e retrocede, estou zonza de tantos lugares que já visitei. Quem é aquela ali sozinha? Sou eu, outravez, de ténis e camisola quente de lã à espera do comboio. É outro inverno, outra faixa do álbum que recordo. Está tanto frio que posso escrever na janela. Escrevo o meu nome mas esqueci-me do teu. Resta o meu nome escrito na janela.De certeza que se o amor pudesse teria pedido licença para se retirar, para esquecer o nome que lhe gravaram a ferro e fogo. Esquecido do coração, da alma e da janela. Um comboio que avança nas entrelinhas da minha sofreguidão de viver. Que se compadece com o meu eu-bicho-carpinteiro ou o meu eu-desassossego-aperto no estômago. A máquina do tempo continua a serpentear pelas entranhas do tempo pelos momentos que nada me fará esquecer. Só que o teu nome eu já o esqueci, fugi de mim e de ti com os ténis molhados de chapinhar em poças. E só agora nesta máquina te recordo, ou recordo aquilo que construí sobre o teu nome e a tua pessoa, o que inventei para ti e os significados que dei ao dicionário do teu olhar. O teu olhar sem nome. O teu olhar sem abrigo que costumava descansar nos meus olhos. Volto ao dia de hoje, com o meu casaco quente em mais um dia-como-todos-os-outros. Um dia sem penas. Porque não há passaros. Um dia sem poças. Porque não há mais lágrimas.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Montanha-russa do coração e toda eu às voltas, voltas, voltas. Será que voltas? As minhas unhas arranham as pupilas que piscam o teu rosto e desfaço-te do meu sonhar como a um puzzle. SAI! Sai e leva o teu sorriso crivado nos meus olhos como uma espinha na garganta. J'ai les yeux en flame. Passion en flambé de douleur. Os olhos inflamados de te esfregar de mim. E no nevoeiro de te perder. O lume de ti que ardia em mim apagou-se. O meu quarto está cheio de fumo. Ficaram as cinzas espalhadas ao pé dos cachecóis e o mais avermelhado cheira às manhãs-relâmpago que passei contigo. Podes levá-lo, também. Leva-te de mim. Leva os teus restos, por favor.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Vivo a minha teimosa quimera na tua amnésia de querer.

sábado, dezembro 16, 2006

Bolhas de sabão no turbilhão do coração


Nem a morfina apaziguaria o teu turbilhão interior. Refugias-te num tempo só teu, estilhaçado em segundos que parecem horas. Escondes-te num canto da tua cama, com as pernas dobradas e a cabeça sobre os joelhos. Lágrimas chovem na neblina dos teus pensamentos. Por companhia o pequeno urso de peluche que arrancaste às memórias da infância, sorris-lhe como se ele te pudesse sorrir de volta.Nada acontece. O urso permanece de peluche, de textura igual ao roupão do banho e aroma a sabonete de amora-morango. Ergue-se a noite pintada a aguarelas de negro e de estrelas apagadas por um bafo de tristeza. Desilude-se a inspiração, traçada em linhas tão tortas e em palavras tão banais. Néscias e inócuas palavras. Comovidas palavras. Saiem uma a uma de uma cítara desafinada. Perdida no labirinto da tua própria cama. Hoje não te resta esperar nada. Porque absolutamente nada ocorrerá. Está frio, tens as mãos geladas e aperta-las com a força que ainda não te abandonou. Hoje nada te aquecerá as mãos. Ninguém estará lá para fechar a torneira das tuas lágrimas. Nenhuma caneta fluorescente te desenhará estrelas. Falas sozinha esgrimindo contigo mesma, num diálogo entoado em voz aguda e emocionada. Perguntas sem resposta ou respostas sem pergunta.Não, não podes fugir de ti, de quem és. A porta é uma miragem, trancada a chave e cadeado e o ar asfixia-te. Queres fugir e ironicamente foste tu que fechaste a porta. Queres sair mas não sabes como. Queres amar mas não sabes como. Fechas os olhos l-e-n-t-a-m-e-n-t-e. E as sílabas do sono juntam-se, perfeitamente encaixadas, paradoxalmente aos teus pensamentos. Desarrumados na secretária, nas fotos dos álbuns. Desarrumados, sozinhos, mal interpretados e (des)acompanhados. Inventados, reinventados, escritos, apagados. O turbilhão do coração é cada vez mais acutilante e desabafas com a branquidão da parede enquanto as últimas sílabas do sono se fundem. Sonharás contigo mesma, num enorme jardim de éden, com um daqueles apetrechos tradicionais, a soprar alegremente bolhas de sabão pelo ar. Um céu muito muito azul e um sol-vermelho-bolha a sair do teu omnipotente sopro.Cai-te da mão o peluche. Mergulhaste nas sílabas. Já dormes.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Sopro do Coração

As pedras caíram e as folhas espalharam-se pelo chão. Os arbustros e as árvores de mais finos e leves troncos respiravam de alívio e pediam baixinho aos animais da floresta desculpa pelos chicotes a que o vento os levou a todas as criaturas que por eles passavam. A tempestade acabara mais cedo para todos. Fora um forte mas curto tornado. Talvez o vento estivesse atrasado para dançar noutro coração, sussurraram os esquilos para os pássaros, e estes para as corujas violentamente acordadas a meio do dia, e estas para os unicórnios e centauros numa silenciosa corrente. E entre os estremunhados animais que despertavam confusos do furacão, jazia uma menina, de vestido e avental azul, nas grossas raízes de uma centenária árvore, de sapatos de verniz empoeirados e rasgões por toda a roupa, sangrando da boca e do nariz, que mesmo assim dormia a sono solto, tranquila de meio sorriso. E os pequenos animais olharam-se entre si, um por um, novamente na harmonia da sua corrente muda, cumplicidade sem palavras. O vento tinha vindo por ela, revolteara-a e sugara-lhe o último sopro do coração, que lhe prendia o viver, que lhe sufocava o respirar. E o sopro foi pelo vento, por isso é que ele agora uiva e serpenteia nas árvores como se gemesse, dói-lhe o amor que a menina tinha.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Carrinha mágica

A carrinha dava muitos solavancos, era velha e estava empoeirada, fazia barulhos estranhos enquanto andava na estrada de terra batida. Eu não era uma condutora muito experiente mas estava decidida a chegar ao meu destino. Lá atrás pessoas com rostos familiares conversavam em voz alta, que nem o som do rádio abafava. Risos que me lembravam a infância, palavras que me reconfortavam mais que uma chávena de chá maçã-canela a escaldar. Pessoas que não eram simplesmente pessoas. Não daqueles vultos que passam por nós e nem sequer reparamos. Ouvia-se o barulho da palhinha quando sorviam as bebidas que tínhamos numa geladeira pequena. Havia chocolates e chupas devorados em cantorias e assobios. Eu não sabia assobiar e trauteava. Quer dizer, tu tentaste-me ensinar mas acho que ainda não consegui dominar a técnica e fico-me pelos turururu. Ainda tentei pesquisar num dicionário palavras muito difíceis para contornarem os caminhos deste texto. Mas a estrada naquele momento era em recta e o dicionário muito chato e aborrecido. Lá estava eu ao volante da "velhinha", cheia de blusões e com um gorro. Bem, os meus amigos lá do banco de trás iriam logo dizer "garruço" à bela moda da sua terra. A terra dos meus amigos tem um cheiro peculiar, tem casas de pedra e ruas de pedra. Só não tem corações de pedra. Na aldeia dos meus amigos há verde a perder de vista, há sonhos e perder de vista e há mundos para descobrir. Sinto-me sempre uma pirata na pequena aldeia dos meus pequenos companheiros. O perímetro não é muito grande, mas parece-me haver sempre muito para descobrir. Tudo me parece tão dimensionalmente diferente. Não, não me devia estar a distrair da condução em perplexas memórias e asserções. A estrada começou a ser mais estreita e os carros agora são muito poucos, todos se cumprimentam num aceno afável e cúmplice. Eu sei que não sou de lá. Só que nesse "lá" a tantos quilómetros da terrinha que me viu nascer sinto-me em casa. E nunca me sinto só. Porque lá tenho uma família que me espera, que me enlaça e me atropela de palavras e de sensações. Imaginei-me a correr perto daquela deliciosa ponte. Com a rapariga do cabelo indomável, o rapaz do sorriso bonito, a rapariga alta e bonita, a menina doce, a das piadas e frases disconexas e das bochechas, os rapazes que parecem os meninos perdidos que não querem crescer. Cada um deles ocupa na imensidão da minha alma um fragmento. De luz e de aconchego. Espero que a carrinha chegue lá com todos a são a salvo. E mais os outros que não referi, porque todos sem excepção moram na casinha de guloseimas do meu peito. Todos, sem excepção são a supresa do kinder surpresa que é a nossa vida.Mesmo que eu não goste de chocolates.E que não saiba conduzir assim tão bem.Esta carrinha é mágica, semelhante à daqueles desenhos animados que adorava em miúda. Eu ainda sou uma miúda. E todos eles meninos perdidos na terra do Peter Pan.Aquela aldeia não é mais que a terra do Peter Pan. Por um bocadinho não é preciso crescer, por alguns dias podemos ser índios de uma tribo só nossa. A tribo dos maiores. Só vocês sabem. E eu agora também sei.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Eu comigo, por Alberto Caeiro

"(...)
Não tenho ambições nem desejos,
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho."

sábado, dezembro 02, 2006

Tudo e Nada

Ajeitei as almofadas, e olhei para o relógio da mesinha-de-cabeceira. Eram 14:44. Tinha acabado de fazer a cama, apenas por teimosia da mãe, e ainda estava de pijama. Eu não posso dormir muito. Sinto-me ainda mais cansada do que quando durmo só quatro ou cinco horas, como se o corpo tivesse gostado tanto daquele intervalo de rebuliço que não mais quisesse despertar da onda em que vogava com tranquilidade. Naquela manhã nada nem ninguém me zumbiu aos ouvidos que não havia tempo nem sentimentos atrasados para ter de acordar de repente e como nos jogos repôr de repente a minha energia, o tubozinho verde suspenso e invisível no cimo da cabeça, quase sempre cheio, de verde vivo como a vontade de viver. Naquela noite tinha desligado o telemóvel, o computador, o despertador, fechei a porta à chave e dormi com a colcha por cima da cabeça, só com uma frestazinha para poder respirar. Precisava de me esconder. De tudo. De me proteger e de me sentir a mim mesma. Passei o resto da manhã quase muda, esquecida do mundo, com o ar condicionado no mais quente possível, e tão apática como os murchos olhos permitiam. Sabia que se ligasse o telemóvel teria uma ou duas mensagens dele, apaixonado, ansioso pela minha chegada, afinal tinha prometido vê-lo no dia seguinte... Mas não queria nem pensar nisso. Claro que o queria ver, mas... Que era esta necessidade toda de o abraçar? Tinha estado muito tempo sem ninguém, já me tinha desabituado. E porque sofria daquele desejo todo assim tão de repente? Seria carência? Se fosse, já a tinha saciado por outros corpos. Não, não é carência. Gosto mesmo dele. E isso é que me preocupa. Na mesma caixa de mensagens, caixa de saudades e vontades, estão as palavras loucas do outro, que cortando de repente todo o silêncio, tinha decidido recordar-me como se não houvesse mais ninguém, como se aqueles dois anos não tivessem passado sem termos sabido quase nada um do outro a não ser trivialidades, o estudo e o trabalho que sim, vão bem, e os teus pais, a minha irmã também, obrigado. Que queres tu agora? Estou bem sem ti, descobri um sabor novo que não existe nos iogurtes, nos gelados e nas bolachas, é diferente e é meu. Como tu há muitos pacotes, és chocolate clássico, amargo e tão normal que ninguém usa a não ser para os bolos. Ninguém te provaria com curiosidade. Até a tua cara é vulgar, na beleza dos teus vinte e um anos pareces um modelo que eu sempre disse que já tinha visto em qualquer lado, lembras-te? Ele não é parecido com mais ninguém.
Mas quero ver até onde consegues ir. Dizes que me queres ver agora, que és capaz de vir cá de propósito. Uma viagem, um dia inteiro longe de casa, entre o sotaque que sempre odiaste e a cidade que nunca compreendeste. Será que consegues? Será que após dois anos me vais tentar abraçar outra vez da mesma maneira? Foste o primeiro, no carinho, na emoção, no sorriso pelas palavras que nunca tinha ouvido, dirigidas a mim! Mas eram tão simples que não tinham o meu nome, juraste-as como quem canta uma música que soa bem, não custa repetir o amor quando se sabe a melodia que derrete os corações mais inocentes. Quem diz sempre e nunca com facilidade não ama, não tem medo. Tu viraste-me o rosto e repetiste a mesma música a outros olhos. Por isso não penses que agora viras a história ao contrário e começas do fim para o princípio como se eu não desse conta. Já li tantas histórias! E nenhuma pode começar do fim ou de palavras repetidas, eu não te vou ler. Já te sei de cor. Até demais!
E foi assim que às 15:55 estava vestida e pronta para sair, para o ver, um dia mais cedo, sem medos. Ele é o tudo e tu és o nada. Não vou deixar tudo por nada.

terça-feira, novembro 28, 2006

Cobertura do lançamento

Vítor Alvito, nosso grande amigo e locutor quase profissional presente no lançamento, teve o bonito gesto de criar uma notícia áudio sobre o evento. Eis a voz que deu vida ao nosso sonho...



(Para encomendar o livro online clicar aqui)

O iogurte

Aquele iogurte tinha um sabor diferente do habitual. Sabia a morango-malagueta ou banana-canela. Subitamente a rapariga começou a ter o sabor da língua dele, língua que dançou com ela até de madrugada. Numa guerra sem espadas e sem tréguas. Picava na língua o iogurte de sabores exóticos e o seu beijo-afrodisíaco, cheio das especiarias que lhe acordavam as papilas gustativas e a fazim tremer da cabeça aos pés, da cabeça aos braços, ao pescoço. O seu corpo era água para refrescar o corpo-malagueta dela. Fechou a porta, calçou os sapatos de dança e rodopiou no tango. Dançou o tango no corpo dele e inscreveu palavras que nem sussurradas foram, porque o tecto poderia contar a alguém. Alguém que depois deles habitasse nesse quarto e num dia sem-ideias olhasse o tecto e falasse sozinho com ele, que responderia eventualmente:"alguns dançaram o tango da junção dos corpos aqui". Enquanto isto, mal sabiam eles, eu espreitava pela fechadura da porta, assombrada perante o espectáculo que aí se desenrolava. Contou-me mais tarde a rapariga que assim era há já muito tempo. Que só ele accionava o seu mecanismo de corda, aumentava a temperatura do seu termómetro. Só ele a desidratava, inflamava, chamava daquela forma. Os seus olhares-fogo, olhar-prazer, olhar-paixão, olhar-suspiro condensavam tudo o que aquele ambiente significava. Emanava paixão. As paredes vermelhas, o vestido vermelho dela, as cortinas vermelhas, o céu raiado de vermelho. Os lábios continuavan mergulhados um no outro. A rapariga pronunciou qualquer coisa baixo e o rapaz sorriu. Desligaram a luz e deixei de conseguir ver. De fundo, apenas a música, desta vez um bolero quente e selvagem enquanto na escuridão uma valsa de mãos de desenrolava. Um bolero de beijos salpicados de luxúria aquecendo a atmosfera. E tudo começou com um iogurte que sabia a malagueta.

Amor, eufemismo para doença

Entre o sono e as ideias a serpentear loucas pela almofada, o medo acaba por zumbir mais alto que o meu sorriso por ti ao adormecer. Tudo me faz sonhar, mas nada me faz viver. Escrever não é tão bom como parece. Continuo aqui. Entre os lençóis e as saudades. E tu aí. De certeza a dormir, não me lembro de te deitares muito tarde. Ou tanto como eu, olhos mais ansiosos que os miúdos que não querem ir cedo para a cama. "Não, mãe, deixa-me acabar de ver este filme." (Não, não quero adormecer, pode ser que ainda mandes outra mensagem.) O teu nome não me traz senão um eco do teu falar atrapalhado e esse olhar tímido mas tão curioso que o lembro tanto como os teus beijos. És o meu desafio, és a minha vontade, o meu desejo, bocadinhos de mistério e loucura que quero descobrir, decorar, devorar! Estas letras são tão inúteis que nem saberás que é para ti que escrevo. Não podem fazer nada por mim, nem por nós. Afinal, até palavra amor é um eufemismo para doença.
E não, eu ainda não estou doente. O amor é a febre que mais temo.

(Mas já começas a arder em mim...)

segunda-feira, novembro 27, 2006

Conhecimentos


Há uma rua em Lisboa que se chama Rua da Saudade.Essa palavra que significa a falta, os sentimentos produzidos por essa falta, de objectos, pessoas lugares, sensações...
Reflicto na saudade que teria se por mero acaso ou por um conjunto de ocorrências te perdesse. Ou se pura e simplesmentre pegasse nas malas e fugisse para outro sítio, numa vida sem ti.

Recordo então o que me recordaria de ti. Julgo que o riso-asmático que salpica muitas frases minhas. O teu apreço pelo carro e as conversas automobilísticas nos caminhos que quotidianamente fazemos. O facto de ficares sempre com a colher de café na boca depois de o beberes. Ou o pauzinho do chupa. E os beijos lambuzados desse chupa. Ou rebuçados de ananás, morango...!

O reconhecimento dos teus gostos: ice tea e mousse de manga, chocolates Buonti, arroz de marisco, arroz de pato ou pato à pequim. Minis e imperiais. Camisolas em tons laranja ou azul. Mesmo que tornes o teu roupeiro monocromático demais. Preferência: tons claros. Queijo da vaca que ri. Tostas em minha casa. Devorar os pastéis de Belém com um riso maroto no rosto. Ou trocar tudo porque sim, porque simplesmente, embora adores Carte Dor de morango hoje apetece-te Vienetta ou rejeitares a tua marca de chocolate favorito.

Sim, conheço-te um pouco. A tua forma de enrugar a testa em diversas situações, de me dares beijos que fazem o meu ouvido zumbir. O teu ar de pai quando me mandas calar no cinema. Eu, miúda irrequieta que fala pelos cotovelos e vive a vida como um baloiço. E não é giro quando andamos de baloiço?
E embriagado? As declarações de amor engraçadas, as piadas tolas.

Pegas-me ao colo e rodopias-me, sorrio só de pensar. Recordo, claro, o teu ar quando ficas nervoso ou envergonhado, corado e a gaguejar. Com gel ou sem gel? (perguntas tu e respondo eu: quero-te aqui, já....). Acho graça à tua "dança" com os braços , o teu andar "gingão" quando brincas e a tua forma de trautear músicas. Na mente desenrolam-se flashes de ti que são o que resta quando não estás. Como é o caso das tuas imitações (fracas) da forma como abro muito os olhos e também das asneiras proferidas em momentos de exasperação, engarrafamentos, jogos de futebol, ou à vista de automobilistas que parecem ter tirado a carta na farinha amparo ou que andam a "mangar com a tropa" (como se diz por aí).

E se o telemóvel tocar, sobressaltar-me-ei na esperança que sejas tu, mais uma vez, para dizer um disparate qualquer que sabe tão bem. Acordas sempre calmamente, até que não tens mau dormir, mas sempre com um ar que diz "dormia mais um pouquinho".

Gostas de Hip-Hop, futebol, música que tenha qualidade. Aprecias futebol e gostas de jogos electrónicos como as crianças pequenas...lamento mas ainda és uma criança pequena). Quando eras bem pequeno andavas sempre com um pé descalço e um pé calçado. Tens uma caligrafia pequena e arrumada. Percebes daquelas coisas que fazem os textos sair do computador em papel e de informática em geral. Nunca comes a parte verde do prato (não costumas tocar na alface). Gostas de praia e das tuas ambições particulares. De passear e fotografar paisagens. Fascina-te o pôr do sol. De receber presentes. Detestas mentiras e coisas mal explicadas. Mas nunca ficas muito tempo zangado. Adoras séries com mistérios complicados para resolver e filmes. Ser livre. Seres tu mesmo. Acreditas no amor. Ah! e ris-te sempre que alguém cai. Tanto mais haveria para contar. Se o texto não estivesse já extenso demais. Por agora fico-me por aqui. Na rua da saudade, desta vez na minha pequena casa, de porta azul sempre aberta para ti.


Dedicado a umas das maiores inspirações da minha escrita nos últimos tempos. Ele saberá reconhecer-se neste texto.

insónia

A luz da mesa de cabeceira continuava acesa. Ainda não a tinha desligado porque o corpo teimava em não ceder ao sono, os olhos-papão que ansiavam devorar o mundo todos os dias, inflamados de sensações, permaneciam abertos. Janela aberta. Não queria apagar a luz. Receava o escuro que a faria embrenhar-se numa hera de pensamentos. O bater do coração e o tic tac meticuloso do relógio eram os únicos sons audíveis. O livro estava pousado sobre a mesa, aberto na última página, um final prestes a saborear. Não, não agora. Levantou-se da cama, finalmente.O soalho estava frio e a cabeça ardia de pensamentos.Quem dera pousar o pensamento num daqueles objectos que servem para pousar o telemóvel e não sentir o estômago comprimido, qual camisola encolhida na máquina de lavar.Tocou no nariz, a campaínha.Costumava assim dizer quando,nas horas vagas, tomava conta de miúdos:"Plim, estou a tocar à campaínha".
O leite escaldava-lhe a garganta, rio de lava a entrar no organismo. O cérebro mostrava-lhe imagens e frases entrecortadas. Pegou numa folha e numa caneta, tentou escrever. Amachucou folhas e folhas, como vira tantas vezes os escritores fazerem nos filmes. Viu as palavras surgirem na folha, reli-as e as palavras não eram ela. Nem a sua emoção. Já era madrugada. Mas as palavras não eram ela. Falavam de lugares onde jamais tinha estado, palavras que jamais lhe tinham dito mas que imaginava na perfeição. Filme mental. Ela sabia o que queria. Era isso que escrevia ao som de uma música que trauteava baixinho "cinderela das histórias, lá lá lá" (usava o lá lá para passar a perna ao facto de nunca decorar convenientemente as letras).

Lá fora a chuva multiplicava-se em gotas e o vento fustigava árvores e roubava os chapéus de chuva das mãos dos mais incautos. Mas ela, cinderela do seu reino, a mais bela do seu quarto, bailava nas letras, numa serenata de si ara si. Nesse lugar ninguém a julgava e podia pensar o que quisesse, ser o mistério complexo da sua própria existência. De novo na cama, com algum alívio interno, apagou a luz. A vela, para ser mais precisa, já que o temporal tinha deitado a baixo um poste de electricidade. Soprou a vela e sorrateiramente o sono desprendeu-se do tecto sussurrando-lhe "fecha os olhos" (que obedeceram mecanicamente).Fechou-se a janela.Terá sonhado?Mais não soube e mais não vi.

sábado, novembro 25, 2006

Avó


Posted by Picasa Fotografia de Inês Fernandes, Modelo Gonçalo Sanches

A avó mexia distraída a caneca, chá-príncipe do seu quintal. Tinha acabado de fazer o arroz doce, e a canela envolvia a casa num aroma fresco e acolhedor que era só por si o sorriso ameninado daquela avó.
"Eles devem estar quase a chegar", pensava ela com a caneca de chá a escaldar nas mãos, truque dos intensos dias de frio que a neta iria imitar sem pensar. Mexeu na lareira, o lume tinha de ser o maior para a sua chegada, para incendiar os olhos e aquecer os ossos presos, arrepiados da viagem.
Era quase meia-noite, e a pequenina avó que morava à entrada da aldeia espreitava as frestas das janelas, fechadas de frio e pelos travessos bichinhos do campo, que se enfiavam em qualquer buraquinho. As luzes do carro esperado não deviam tardar a iluminar as paredes brancas da sua vivenda. Mas cada vez que os faróis de um automóvel acendiam a sua cozinha pelas fendas da janela e lhe ofuscavam os olhos, era sempre mais uma família que passava, e não a sua. O carro pesava de malas e rostos cansados e empacientes, até ao vislumbre da placa da aldeia, que subitamente os despertava. Acordavam do sonho de tantos meses de sorriso apagado, saudosos e viciados na rotina que lhes carregava o sobrolho.
Ansiosa, olhava a sopa quente no fogão, tanta quanto a fome de uma viagem, e o voraz desejo de um sabor perdido. Arrastava as pantufas e o xaile sempre aos ombros pela casa, e o avô calado na varanda de semblante ausente e olhar tremido pela doença, secretamente ansiava pelas gargalhadas a irromper pela marquise, eu a correr para brincar com o lume e para abraçar, ou esmagar, a avó saltando-lhe para o colo, e a minha vozinha aguda a serpentear nos ouvidos do avô: "quando tocas uma musiquinha para nós?", e ele a enxotar-me com a mão, até que nos supreendia na sala, de acordeão nos braços. Eu dançava pela casa, visitava cada pormenor, sempre igual, depois de tanto tempo longe. Naquelas correrias ia quase fazendo tropeçar o meu pai, carregado de malas e malinhas, poisando a roupa e as prendas que traziamos sempre no estreito quarto cheio de fotografias nossas. Mais que a casa em que viviamos todo o ano, aquele era o nosso quarto. O meu pai tinha o rosto inchado pelas horas de estradas e paisagens que lhe corriam pelos olhos, desejando a cada quilómetro o caldo quentinho com migas de pão que só a sogra fazia como gostava. E a minha mãe molhava o sorriso enorme de lágrimas ao ver a minha avó. Eu achava muito estranho, estar feliz e chorar, mas não me importava. Enquanto a minha mãe chorava eu podia brincar sem ela ver com a tenaz no lume. Debruçava-me tanto na cadeirinha de palha que quase caía, e depois espreitava envergonhada com medo que alguém tivesse visto. A minha mãe chorava sempre ao chegar. Era sempre assim, ela chorava à chegada e eu chorava à partida. Agora, tantos anos depois, ainda choro. Aquela aldeia é especial a cada partida, por cada abraço apertado de amizades maiores que a vida. Mas já não me despeço de uma casa a cheirar a arroz doce, nem de um lume grande que me queima as bochechas e escalda as calças de ganga. Porque o queijo já não nasce das mãos dela, nem o doce de abóbora do pequeno-almoço, ou a morcela do cozido. Hoje é diferente, a casa quando chego está fria, ainda cheira a tinta, não há pão espanhol do dia, nem caldo de cores criadas no prado que eu todo o ano via a crescer. Nada é igual. As sensações fogem mesmo que as tentemos prender como força, como eu abraçava a minha avó. As sensações fogem... mas as emoções ficam. Os cheiros, o toque e a saudade. E o cheiro a canela será sempre o teu doce sorriso, vó.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Um sonho maior que eu

Não quero despir o sorriso de que os meus olhos se vestiram hoje. Cheguei, louca, de coração-tambor quase a rebentar, sem vontade de limpar a cara, mudar de camisola, tirar o colar. Na sala grande e branca a poesia voou e foi melodia sem orquestra entre os quadros de reis e princesas de outros tempos. Imaginei um piscar de olhos no sereno semblante da Majestade à minha esquerda, como se fossemos a sua especial corte de arte e fantasia. Como se estivessemos no século XIII e Miguel Ângelo fosse dali a quinze minutos pintar um fresco naquelas imaculadas paredes, como se os nossos nomes contassem na lista de convidados para um baile de D. Pedro I, como se fossemos passar um serão com Eça de Queirós, excêntricos amigos da mesma geração. Que emoção e que ansiedade. O meu cabelo esvoaçava cada vez que me mexia, que roía as unhas, que sorria sem querer, que baloiçava os pés. A cadeira era perfeita, tão alta que pude baloiçar o meu nervosismo. Os meus pés ainda são tão infantis. E as minhas pernas são pequeninas e gostam de brincar, de dançar de lá pra cá debaixo da mesa mesmo que toda a gente consiga ver. Afinal eu ando sempre a saltitar, bolinha de ping-pong que rompe a gravidade. Sou tão pequenina para um mundo tão grande! Mas o acreditar de tantas vozes foi maior que o medo, e hoje as minhas palavras podem voar até onde o meu sorriso não chega. Eu quero reinventar o mundo pelas minhas fantasias. E é bom não o fazer sozinha. Quero fazê-lo com todos os leitores da minha vida.

Post-Scriptum: Estas letras são dedicadas aos sorrisos que hoje brilharam no lançamento do nosso livro. Um grande ABRAÇO a todos!

quinta-feira, novembro 16, 2006

Definição


Amor:
s. m viva afeição que nos impele para o objecto dos nossos desejos;
inclinação da alma e do coração;
objecto da nossa afeição;
paixão;
afecto;
inclinação exclusiva;
(in dicionário da língua portuguesa)

Esa é a definição do dicionário. O meu amor por ti? É do tamanho de tudo o que fica para além do fim do Mundo, é mais que vulcão, tempestade, mar, céu, planície, é mais que infinito, mais que perfeito, forte, inebriante. Faz tremer mais que chuva e dias gleados de inverno. Aquece mais que lareiras e galões quentinhos. È mais alto que o Abominável Homem das neves, maior que o medo, maior que o Papão. Maior que a velocidade do som, da luz, que as galáxias. Mais bizarro que uma nave espacial cheia de criaturas verdes. Mais brilhante que uma chuva de estrelas cadentes. Mais feroz que Leão. Mais lutador que um lutador de boxe num ringue. Mais aromático que o cheiro do café acabado de fazer. Mais belo que uma túlipa branca no meio do deserto. Maior que as milhentas páginas da bíblia, mais arrebatador que um tsunami. mais refrescante que enfiar a cabeça no congelador. O meu amor por ti não dá tréguas, não tem barreiras, não faz férias em Paris ou no Algarve para depois voltar. O meu amor por ti é fome devastadora da tua pele, do teu cheiro, da tua língua, da tua boca e de tudo o que tu és. De cada átomo de ti, de cada célula que te povoa. para sentir cada batida do teu coração. Cada inspiração-expiração. O meu amor por ti é enorme, aumenta de dia para dia mais que qualquer lupa. O meu amor é um amor Sherlock Holmes, descobre-te cada dia mais. Conhece-te. quer-te, precisa. O meu amor, eu que carrego este amor. Este amor que ultrapassa qualquer medida de qualquer fita métrica, qualquer fronteira de qualquer país. Mera palavra de duas sílabas com tanto por dizer.

quarta-feira, novembro 15, 2006

I'm a little girl in a big big world

Não aguento mais. Murmuro por entre a cascata de lágrimas que se lança à pressa pela pele, pelo rosto. Esse rosto macio de cremes com aromas que inventei. A noite é muito grande, a lua muito grande, o mundo muito grande. Eu sou pequena demais para um Mundo tão grande. Falta-me o quente da lareira dos teus braços, as tuas palavras meigas e gentis. Hoje só há um vazio mais frio que qualquer noite de inverno. Fugiste-me, como as escadas rolantes que me ganham sempre. Ainda há pouco dizias que não te prestava atenção. Ainda há pouco. O batimento cardíaco não afrouxa. As lágrimas desenrolam-se agora no interior. Silêncio. Tu não devias saber. Ponho agora uma música que não dá vontade de dançar.Resta a música que não dá vontade de dançar. Os olhos sem brilho, o relógio que já bate a meia noite. A cinderela desaparece logo a seguir à meia noite. Já posso ser o monstro. Da História da Bela e do Monstro. Choro agora, infinitamente só neste segundo, neste espasmo de tempo entre o reconhecimento da dor e a reação a ela. As tuas palavras ardem-me novamente nos ouvidos. Irrompe-me a tua ausência com tanta força, rajada que atropela. Abano-te ferozmente, com insistência, sacudo-te, como se buscasse as moedas de ouro num daqueles sacos vermelhos de veludo. Fantasio-te num beijo irreal subjugado às forças da ausência. Sozinha e carregando um rol de sentimentos por te contar, um rastilho prestes a explodir. Achas-me falta, mas também tu estás ausente. Onde? Onde te escondeste? Onde se escondeu o teu dominó de palavras?Eu estou aqui. Sem fazer barulho para não te desmanchar o sorriso que custou tanto a cozer. Costurado com retalhos de estrelas e nuvens. Noite após noite, dia após dia, e noite após noite e dia após dia e dia após noite e noite após dia. O meu coração ficou nas entrelinhas destas palavras, suspenso entre consoantes e vogais. A B C D E. Agora. Busco. Conforto. Desenlace . Esperança.

terça-feira, novembro 14, 2006

Chocolate em mim

Devias ter tanta personalidade quanto o teu nome. Quando o pronuncias soas forte, inabalável, pareces ser a originalidade e a diferença. Mas deixas voar a asa do teu sorriso como se as tuas bochechas tivessem molas. E flutuas. Caminhas superior à gravidade, ao sabor de tudo o que ele te murmurou entre beijos e era mesmo o que querias ouvir sem saber. Nele encontraste a tua terra do nunca, já não precisas de crescer, e pelo seu riso deixas-te voar. Mas do teu sono profundo despertas como Adamastor e de repente esmoreces de novo, por tudo e nada, porque o teu espírito vive mais que tu! Já estás às voltas na almofada e ainda nem começaste a sonhar a sério. Só queres acordar com medo de cair da cama quando o embalo da ilusão te levar louca e intempestiva no impulso de ti, tanta energia que te move e queres libertar! Mas respira... Ainda não precisas de dizer sempre e nunca, brinca com as cores da paixão, tens tempo!

Onde são os travões das emoções...?

Tu és efeito chocolate em mim, não consigo resistir.

Vivo?

Apetece-me embarcar na ilusão e perder-me no sonho do que não existe, errar por entre noites de luar, dias de arco-íris, de cores fortes, que enchem o horizonte de um olhar cinzento, esse olhar que é meu e de tantos rostos que não conheço mas reconheço, no vazio de sorrisos abertos e tristes, grandes e aparentes... mortos. Apetece-me voar sem rumo, esquecer onde vivo, quem sou, quem fui, quem pensei em ser. Quero apagar as memórias de um passado que já não é meu, de um presente que já não vivo, de um futuro que não quero viver. Afinal, eu vivo? Será que alguma vez VIVI? Será que quero viver? Não sei, não sei, não sei... Não me sei, não me quero saber... Quero errar por aí, voar por aí...esquecer por aí...recriar-me por aí...pintar uma nova tela, desenhar novos caminhos, tornar-me bola de plasticina para me moldar de novo, ou esboço a carvão, para ser apagada ou amachucada... Mas tenho medo de ser plasticina, de ser moldada com força e de ficar com as marcas das unhas de quem me tenta mudar, ou prender como uma mão que aperta a outra egoísta e cega. Tenho medo de ser carvão, posso ser apagada; tenho medo de ser papel, posso ser amachucada de novo, perdida num qualquer cesto de papéis cinzentos, esboços de vida, romances por escrever, guiões por realizar... Não sei se sei viver, não sei se sei SER...(Será que alguma vez SOUBE? E será que algum dia vou SABER?)


Recuperado, de 3 de Julho de 2005

segunda-feira, novembro 13, 2006

Lançamento do Livro


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É oficial!! O LetraSoltas vai ser lançado dia 22 de Novembro, pelas 17horas, no Centro Cultural da Casa Pia em Belém, Lisboa! A obra vai ser apresentada pelo professor de escrita criativa, João Louro, e pelo locutor de rádio e professor Vítor Nobre. As autoras convidam todos os assíduos leitores do blog a comparecerem! Serão bem-vindos, pois sem vocês nada teria sido possível... As letras pintaram-se de arco-íris e hoje são um sonho.
Um grande bem haja a todos!


Nota: O livro estará disponível na Livraria Sá da Costa, no Chiado, mais ou menos depois da data de lançamento, e em Dezembro na Fnac...

terça-feira, novembro 07, 2006

Febre de ti

Fechei os estoros dos meus olhos, que febre de pensar. Arrepiada de frio de pijama e robe sentia a testa quente... Ardia da saudade do calor dos teus beijos. A cabeça cansada do rodopio dos teus flashs em mim, pendia para baixo, obrigando o corpo a serenar... Rendi-me. Encolhi-me nos lençóis e cobertores para me abraçar, para me cuidar já que tu não estás aqui. Mas não conseguia dormir. As pálpebras decididas apagavam os olhos, e eles teimavam em abrir como molas. És trovoada em mim, caíste como uma chuva de estrelas no brilho apagado dos meus olhos. E ainda não somos nada, mas a fraqueza do meu corpo já chama por ti. Não digas a ninguém, eu sei que eles têm mais medo que eu, mas apeteces-me. Beija-me outra vez...

domingo, novembro 05, 2006

Tear drop

A minha alma chora, a minha alma ri. A minha alma voa, a minha alma aterra e fica dorida. A minha alma desperta, a minha alma adormece. A minha alma toca, a minha alma acontece.
–Menina das lágrimas, não chores mais. Olha este rio de choro, cheio de pétalas de flores que aí se vão amontoando, viajando nesse teu pranto. Não chores menina das lágrimas. Deixa o choro para outro dia.
A minha alma é tutti frutti, é canela e baunilha. Orégãos e açafrão. Pequena e reluzente. A minha alma é menina das lágrimas e coro de risos.
-Menina das lágrimas porque choras?- porque o mundo me comove. Sou sensível, sabias?
-A que sabem as lágrimas menina?- Sabem a alívio, molham a face e lembram a água do mar. São salgadas, portanto.
-Ai menina estás-me a dar vontade de chorar. Olha estou a ficar com o rosto húmido.
Vem chorar comigo, a insatisfação constante da vida. Vem chorar comigo o (des)esperar de tantos momentos. Que fomos amontoando em caixas de guardar coisas. Abro a caixinha e lá estão inúmeras coisas que não posso contar. Pareceria ridícula sabes? Diriam que estou constantemente a fazer tempestades em copos de água. Rebentou-se o meu copo de água. Por isso as lágrimas transbordam e formam esse rio de águas claras que agora observas.
- Já estou a chorar contigo também. Que te apetecia agora?
Apetecia-me voar. A minha alma tem essa capacidade. Tem asas, que em certos momentos de êxtase da felicidade se abrem de par em par como janelas e a elevam. Aí, minha alma é leve, leve, leve. Sem precisar de cordas que a prendam para não cair. Os trapezistas precisam de cordas e colchões para aterrar depois. A minha alma voa à velocidade da luz num espaço galáctico só meu.Aterrar dói. Só que apenas assim vivemos na sinceridade plena. Eu não tenho asas. As da minha alma nem sempre funcionam. Apetecia-me voar agora.
- Oh... ainda estás a chorar....
- Deixa... eu sou uma fonte. Fonte imensa de onde brotam lugares maravilhosos ou até, lágrimas, contidas durante o que parecem ser séculos ardentes no peito.

quarta-feira, novembro 01, 2006

O olhar. Firme e recto. De quem viver é suor e olheiras, pernas pesadas e cabeça a latejar. O semblante pesado e cansado de quem não chora. As palavras cortantes sem sentimentos, talvez deixados numa esquina escura que o amor teve medo de passar, onde o interesse e a ganância jogam à apanhada.

Porque escolheste ser figurante na minha peça? Porque não és personagem principal comigo?

Deixaste de acreditar e agora és só mais um para mim, em vez de um comigo.
"Quem sabe se quer o que pensa, o que deseja? Quem sabe o que é para si mesmo? Quantas cousas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda e choramos, que não foram nunca!"

Fernando Pessoa

Passam noites e músicas, noites de músicas, e fica cada vez mais longe o romance que me fez viver. Fica cada vez mais ridícula a vontade que de o escrever. Hoje sou o que a fantasia me deixa ser. Mais que folhas de diário, sou folhas de sonho que escrevo com saudades de amar.

Lágrimas

Lágrimas. Lágrimas que caem sem cessar, como cascatas selvagens, imparáveis. Lágrimas que gritam o sofrimento de um coração que chora a tua saudade. Lágrimas de uns olhos que procuram os teus. Lágrimas a quem peço outro amor, e “não”, soluçam elas na sua louca torrente. Dizem que não e choram, gritam, sofrem. Querem-te de novo, mesmo que tenham que correr uma outra e outra vez. E caem, caem. Sem parar, sem parar… de uns olhos apaixonados por outros que não sabem amar.

sábado, outubro 28, 2006

Encontra-te comigo no meu sonho

Frio.Frio.Frio.Estava tanto frio, que só as mantas quentes aqueciam a alma e o corpo. A cara tapada, para esconder do mundo, a cara ardente debaixo das mantas quentinhas a cheirar a roupa lavada. A almofada já não cheira a ti. Estás longe há já algum tempo. O meu corpo é um conjunto solitário. A memória das tuas mãos esvanece-se. Hoje precisava de ti. Só que não estás, resta a cama que não recorda os teus traços nem o teu aroma, aroma do amor em sim mesmo. Fechei as persianas e recordo-te. A alma ainda te chama baixinho, o coração ainda bate acelerado. Só que tu não estás. Nem vais chegar nos próximos minutos. O bicho da esperança corrói. A lágrima nasce, como a fruta madura que cai da árvore. Cai a lágrima. E sim, tu não estás. Hoje que preciso de ti. O telefone calou-se. Os sussurros e gemidos calaram-se. Os risos voaram nas asas de uma andorinha tonta. Os meus amigos diziam sempre: "se fosses um animal eras uma andorinhas. Sua despassarada sem juízo! Sua tonta". Despassarada, sem asas de pássaro para voar daqui hoje. E nem é tristeza aquilo que me suga até ao tutano. É uma réstia de esperança tecida a fios de saudade.Só que tu não estás. Lá me estou a repetir. As estrelas desapareceram, fustigadas por um vento vindo de não sei de onde. Gélido e caprichoso. Permaneço na cama com os cabelos revoltos na almofada e os lábios ansiando um beijo daqueles. Que levanta o pé, qual actriz de filmes antigos de Hollywood. Encontra-te comigo nos meus sonhos. Ao pé do senhor dos gelados, naquela praia onde um dia te vi. Nos meus sonhos sabes?Eu estava de azul e tu de calções encarnados, arrepiado pelo frio da água. Um dia desses em que te pedi para ires ter comigo no meu sonho e não falhaste. Só hoje não apareceste. És tão distraído!Deves ter deixado o relógio em casa. Oh mas tu nem usas relógio. Apetece-me adormecer de novo. Para sonhar contigo. Pode ser que nalgum dos sonhos compareças à minha chamada. Apetece-me imaginar-te e imaginar-nos. Assim poderei ver-te e deixar de ter frio. No meio de lençóis emaranhados. De memórias e memórias de outros dias. Penso e sussurro baixinho: vem ter comigo. Salta a lágrima teimosa numa maratona pelo rosto. Suspiro e tento adormecer. Estarás no meu sonho?

quinta-feira, outubro 26, 2006

As if they were still lovers

Corria de parapeito em parapeito. O vento e a chuva tinham escolhido o momento perfeito para brincar com ela. Sabiam como se ria sozinha quando passava pela vitrine dos cafés e entre um senhor careca de fato e uma delicada senhora de permanente, se reflectia de cabelo desalinhado e encaracolado, despenteada no espírito e gargalhada de aspecto ridículo. Só assim se via como era, um alvoroço estupidamente feliz. Sabia que não estava bonita, mas não se importava. Nunca o fora, mas o sorriso servia para alguma coisa. E esse sabia usar melhor que a preferida t-shirt azul-clara às riscas.
As nuvens continuavam a chicotear de lágrimas as costas e a esborratar a pintura dos olhos. Entrou de repente para uma loja, não aguentava mais, de qualquer maneira já ia a meio da aula e não lhe apeteciam monólogos com antipatia e desprezo. Enfiou os dedos por entre os nós do cabelo para não parecer tão de outro mundo. Fazia caretas enquanto as mãos desafiavam as ondas teimosas. Desistiu. Cirandou pela loja como se lhe interessasse mesmo alguma coisa. Era de informática. Bonito serviço. Os computadores não se experimentam, não são roupas, não tinha nada que fazer ali... (E que pensamento tão idiota.)
- Posso ajudar? - um sotaque diferente e uma voz quente arrepiou-a e estremeceu as costas enchardas. Virou-se. Não podia ser...
- Pilhas... Está a chover e... precisava... - de olhos baixos, meteu atabalhoadamente as mãos nos bolsos. Será que ele a reconhecia? Não tinha passado assim tanto tempo, mas...
- És mesmo tu! Mas não te queria telefonar, tinha medo que não acreditasses e ficasses chateada... - respondeu-lhe um sorriso louco e familiar, abraçando-lhe os ombros molhados e os braços inertes de choque. Era mesmo ela, despenteadíssima como sempre, mas com aquele olhar perdido que o tinha apaixonado.
- Mas, que fazes aqui? - perguntou para o pescoço deitado no seu ombro direito.
Levantou a cabeça e muito depressa contou que tinha escolhido fazer um estágio em Lisboa, era mais uma daquelas decisões loucas que gostava de tomar.
- Tu nunca gostaste da cidade!! - exclamou, incrédula de coração a bombear de nervos. Queria fugir. Estava chateada sim, depois de tanto tempo sem falarem resolveu trabalhar a passos da sua faculdade!
- Oh, a verdade é que acabei o curso com uma média baixa e só arranjei qualquer coisa aqui... Esta loja está a abrir agora, e precisavam de pessoal. - admitiu, desarrumando umas caixas de impressoras. Estava envergonhado com a confissão, afinal ela sempre fizera tudo bem, era a sua heroína das mil histórias e tantas coisas de que sabia falar. E queria tanto beijá-la, tinha de se entreter com alguma coisa e resistir. Não podia ser assim, os seus olhos ainda lhe respondiam muito magoados.
- Ah... Então tens de ir a Espinho todos os fins-de-semana... - lançou de repente, à espera que lhe respondesse que tinha de ir ver alguma namorada.
- Oh, sim... O meu pai não gosta muito da ideia de estar longe. - ele tinha percebido. Mas isso denotava que ainda tinha interesse...
Ela não podia fingir que não tinha gostado da ideia, mesmo que ele pudesse estar a omitir alguma aventura, mas naquele momento só lhe apetecia sair para a chuva e encharcar-se a sério. O temporal estava cada vez mais intenso, como se partilhasse aquela revolta confusa de um encontro inesperado e ele tão confiante. Ainda por cima ele não tinha mudado nada, tinha a mesma cara redondinha e o sorriso sedutor. Parecia que ainda ontem tinha almoçado em casa dele, a lasanha que ele tinha preparado, sem descuidar do cabelo com gel, as faces miúdas sem marcas de barba, e a roupa que lhe ficava melhor, a t-shirt que ela lhe tinha dado nos anos e as jardineiras que lhe davam ainda mais ar de garoto. Agora estava de camisa da empresa e calças finas, mas mesmo assim parecia muito novo para aquele fato... E isso só o tornava mais atraente.
- Tenho aula agora... - disse, depois de ficar quase um minuto a olhar para as janelas (não o podia olhar fixamente, ele ganhava-a se o fizesse), ele perdido no medo de que o rosto dela falava. Ela parecia mais velha e mais cansada, sem vontade de lhe dizer que sim, que tinha saudades, como ele tanto queria ouvir. Ela sempre fora tão frágil e transparente, e agora parecia ter tomado as rédeas de si. (Mal ele sabia que ela era um espírito cada vez mais inquieto.)
- Podias passar cá quando saísses... pequenina. - tentou, falando devagarinho, como ela gostava... o sotaque mais forte a cada sílaba.
Corou... Ao sotaque não resistia...
- Sim... talvez. - saiu para a rua, sem o cumprimentar. Dois beijinhos? Nunca o tinham praticado, meras formalidades. Eles eram mais que isso. No olhar ficou tudo. Saiu, e sorriu-lhe de olhos brilhantes. Ele devolveu-lhe a emoção com o gerente a gritar o seu nome.

"(...)
And so Louise
Waved from the bus
And as she left
She gave that smile
As if they were still lovers

It's not always true that time heals all wounds
There are wounds that you don't wanna heal
The memories of something really good
Something truly real, that you never found again
(...)"

Louise, Robbie Williams

segunda-feira, outubro 23, 2006

Hoje

Batatas fritas. que dividíamos nos beijos. "Roubaste-me a batata toda". E eu era uma ladra mesmo. Uma criminosa de beijos e batatas fritas. O nosso riso era enorme e abafava o som de pessoas a comer e comida a ser feita. Já era noite quando nos encontrámos. Era outro dia depois do dia das lágrimas. Os meus olhos ainda brilhavam na réstia do choro. O teu beijo sabia-me ao mesmo de sempre. Ao sabor para o qual inventei o nome. Por ser nosso. Esse beijão-balão ou botão de teletransporte. Não te posso perder. Pensei baixinho com a minha camisola (não tinha botões reparei de repente).Mas as tuas mãos às vezes deixavam-me escorregar. Hoje apertaste a minha mão magrinha e o meu pulso fininho com firmeza. Os teus olhso não perderam os meus em rua nenhuma deste mundo escuro e nocturno. De cheiro a inverno. Fomos de mãos dadas em brincadeiras nossas. E os meus olhos tristes a querem sorrir através dos lábios. Perco-me tantas vezes nos labirintos deste amor. Magoas-me. Amas-me. Alegras-me. Sê o meu príncipe, por favor. Eu dar-te-ei a lua no nosso próximo jantar. ao lado do café. E das batatas fritas que tanto gostas.

domingo, outubro 22, 2006

Conto: O nosso (des)encontro

Olhou o espelho. Pôs os pózinhos mágicos da gente grande para ficar mais bonita. Só para ele. E ele estava lá com ela no pensamento, a menina até era capaz de o ver reflectido no espelho em que demoradamente se preparava. Ela, que nunca costumava precisar de muitos minutos para estar pronta. Vestiu aquela roupa que ele gostava tanto e há muito não saía do armário. E, claro, envergou o seu melhor sorriso, aquele que o menino preferia, que o derretia por dentro. O seu relógio louco e meio avariado passou muito rápido os ponteiros. Talvez por isso se tivesse atrasado. O rapaz desesperava da espera, queria saber quando ela chegava.Ai, quem dera que não houvesse um quando chegar, que simplesmente já lá estivesse. Impaciente, o rapaz ligou-lhe e ela ficou surpreendida de já ser tão tarde e de tanta impaciência. Até ficou meio irritada, mas tinha vestido o seu melhor sorriso e tinha tantas saudades. Imaginava a reacção dele quando a visse, hoje que ela se tinha esmerado para o agradar. Preferia até que não lhe endereçasse nenhum elogio e apenas sorrisse, enquanto ela o agarraria pelo pescoço com muito força. O dia não estava como ela, vestia-se de cinzento. Ecoava uma chuva e molhavam os relâmpagos (sim, eu sei que a chuva é que molha, mas os textos servem para inverter a realidade).

A passo rápido, já na estação, apanhou o comboio, e no quentinho do seu interior via a chuva pela vidraça. Adorava ver a beleza da chuva lá fora, caindo em lágrimas que molhavam o mundo . Sem se molhar ou ficar constipada. Se estivesse doente como iria ao encontro que tinha marcado? O comboio lá foi dimuindo cada vez mais a distância entre ela e ele. Que diria ele quando a visse?De certeza que a ia achar bonita. Ele acha sempre, como ela o acha a ele. È da paixão. Mas ele é verdadeiramente bonito. Saiu do comboio e foi andando sonhadora até ao local onde o esperaria. Ele ainda não tinha chegado, foi olhando para um lado e para o outro, como quem atravessa a rua na passadeira, que parecem riscas de zebra. Só que ela preferia as girafas. Ele tinha predilecção pelos tigres. Ajeitou a saia, mexia nervosamente no colar.

E lá estava ele, os olhos dela brilhando de paixão. Ele a túlipa no meio de um mundo de rosas. E só ela sabia como amava as túlipas e a sua forma perfeita. Ele era a sua forma mais que perfeita. Olharam-se mas ele não sorriu, não a elogiou e nem sequer a beijou. Ela sabia que ele gostava dela. Mas quando ele a beijou e lhe deu a mão já era tarde. Já a água polvilhava as palavras da rapariga. Saía dos olhos. Eram lágrimas como na chuva. Seguiram de mãos dadas mas o sorriso que tinha vestido com tanta delicadeza tinha-se rasgado. As músicas que lhe tinha escrito tinham desaparecido da cabeça. As que ele ouviu e ela pediu desculpa. Da vergonha em mostrar algo tão seu. Olhava-o e ele sabia. Da tristeza que mergulhava nos seus olhos castanhos. Do choro, que tinha tentado aguentar em tantas outras ocasiões, e agora parecia nem ter fim. Um frio na barriga invadia-a e substituía as borboletas e formigas, que antes lá passeavam. Naquele momento não restava mais nada para partilhar. Ele não entendia. Mesmo que ela explicasse. A cabeça dela era tonta,dizia-lhe. E isso magoava ainda mais. Ele não entendia.Mesmo que ela chorasse. Essa rapariga era eu. Ela e ele. Eu e tu.

All the heroes are dead

"Foi então que o rapaz compreendeu que as feridas do seu herói residiam num lugar mais sombrio. O seu coração, outrora capaz de inspirar os outros de forma tão completa, não conseguia inspirar-se a si mesmo. Batia meramente por hábito. Batia só, porque conseguia bater."

WonderBoys, realizado por Curtis Hanson, 2000



Hoje desprezo-te porque não tenho sorriso para te mostrar. Não te consigo abraçar e dizer que continuo a mesma, e se me beijasses de novo calava tudo o que se passou e não ias gostar de saber. Sempre me admiraste, sempre disseste que um dia ia escrever o nosso romance... Hoje a chuva parece chorar a minha cobardia, a chamada que fica por fazer, a vontade de contar tudo que fica presa na garganta... A próxima a jogar sou eu, o teu peão está lá à frente, o dado está parado e o meu peão na partida. Mas prefiro ser heroína de ontem que comum mortal de hoje, prefiro apagar o que fui e ser ainda a tela brilhante que pintaste de mim! Não te quero beijar na mentira. Esquece, porque eu esqueci. Fomos felizes para sempre naquele momento, e chega.

"If I go crazy then will you still
Call me Superman?
If I’m alive and well, will you be
There a-holding my hand
?"

Kryptonite, 3 Doors Down.

Espontaneidade rima com Amizade


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Sentadas em cadeiras de verga à beira da lareira, o fogo acendia os olhos e queimava as faces. O silêncio acontecia entre mãos que se tocavam escolhendo chocolates pequeninos da caixa. Pralinés... Nome francês que como os quadradinhos castanho-escuros se derretiam na boca. E os teus dedos pequeninos, que apetecia apertar! "Olha! Tens mãos de brincar!" E disparou uma máquina de gatilho atento. A tua mão sobrava na minha, grande de precisar da tua! Na noite anterior olhei-te de soslaio quando pediste para não estragar tudo, para não voltar para ele. Quando me viste chegar de madrugada, de expressão cansada, mais velha, e olhar preso nos passos de me obrigava a dar, nada perguntaste. Sabias que na minha teimosia não te ia contar nada, nem admitir que tinhas razão. Abraçaste com os teus braços pequeninos a minha grande fraqueza. Aquela fotografia ainda parece ter sido tirada ontem.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Nós


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Remexo o chá depois de fecharem a porta. Foi uma tarde especial, estivemos todos cá em casa em volta da mesa outra vez, entre bebidas que aquecem a alma e bolinhos que a adoçam. Ninguém notou quando fiquei calada por momentos, saboreando o arroz doce, sorrindo para mim e misturando aos bocadinhos fotografias de momentos que hoje são os armários cheios do corredor, os albúns dessarrumados de folhas fracas por sentimentos tão fortes! Nós entre os peluches, carinhas rechonchudas e miudinhas, confundidos entre as bonecas. Nós na serra da Estrela, "mãe a neve é tão fria, dá-me um boneco para brincar em cima dela, faz mal às mãos!". Nós em casa da avó, as mãos sujas dos troncos que metíamos na lareira, "não é preciso tanto", dizia ela, mas todos queríamos ver o fogo a encher os olhos, a queimar as faces e a crescer até ser maior que nós, todos queríamos ajudar a carregar os tocos tão pesados ou as giestas que arrumávamos com cuidadinho entre os buraquinhos sem lenha. E daquela vez que viemos todos para minha casa em Lisboa, ainda éramos cinco, lembram-se? Os primos mais velhos, nem imaginávamos que ainda viriam tantos mais, e que tivessemos a sorte de nos termos sentado à mesa das melhores consoadas e aniversários que a nossa família alguma vez terá. Corríamos entre os cabides e os mostradores, escondiamo-nos entre as calças e as camisas, assustávamos as nossas mães e quem passava saltando de repente como lobos! Para dois deles era novidade aquele mundo de cor e brilho, sempre tinham vivido no campo entre a ponte verde e fresca e o mini-mercado sem cabides nem pessoas sem nome. Outros dois falavam entre si uma língua esquisita que nós os três não entendíamos, e devagarinho tentavam palavras que ficavam para o fim do dia na altura da escola, o falar diferente que os envolviam mal passassem a fronteira no Verão. O que choraram vocês quando sem querer corri para umas escadas que me empurraram para baixo, o que gritaram o meu nome e o das nossas mães, eu não conseguia subir e vocês lá em cima, a chorar e eu com medo de tantas cabeças estranhas que se acumulavam lá em baixo. "Mãe, ela entrou naquela coisa e..." "...elle n'arrive pas a monter, elle n'arrive pas a monter!" As nossas três mães soltaram a gargalhada mais maldosa de que alguma vez temos memória, como se podiam rir se eu estava cada vez mais longe e por mais degraus que subisse continuava a ir para baixo? Fizeram-vos entrar naquele monstro que nos empurrava para longe e vocês tinham medo, não queriam chorar como eu, aquelas escadas que mandavam nas pessoas, não, não! Palavras ao ouvido e eu que já invento mais um bocadinho do que aconteceu todos desceram para perto de mim, a berrar junto às escadas daquele antigo e grande armazém de roupa (ainda se lembram da "Printemps"?). Abraçaram-me todos e a mais velha disse que estava tudo bem, e alguém mostrou a língua às escadas rolantes. E largámos a correr para a sala de jogos, os rapazes queriam andar nas motas e nos carros, as raparigas queriam ir para a casa cheia de bolinhas de plástico em que mergulhavamos como o tio Patinhas no dinheiro. Mas depois espreitavamos os jogos dos rapazes também, acabávamos por jogar e riamo-nos como se não se pudesse, "jogos de meninos são só para os meninos, depois ainda nos chamam marias-rapazes!". E ficava só entre nós, um segredo-reguila como nós, prometido com olhos grandes e expressão grave. No dia seguinte lá iamos todos para a praia, "que coisas horríveis aquelas verdes, devem ser bichos!", dizia eu, e um dos rapazes enchia-se de algas e dizia que era uma sereia. Ríamo-nos das pernas-lixívia de um dos nossos tios, com os braços muito queimados de todo o ano de trabalho no campo. E do meu pai que nunca soube mergulhar, mandava-se para a água e depois saía com a barriga muito vermelha, a chapa que tinha feito tinha molhado a minha tia que não queria estragar o cabelo. No final do dia todos comíamos um gelado e íamos só de fato-de-banho e toalha a dormir nos carros, cansados dos castelos e de fugir da água, "que onda tão graaaaande, vai-nos engolir"! Passávamos as noites a ver filmes de desenhos-animados, em concursos no velhinho e cinzento tetris, a jogar ao quarto-escuro, aos pulos na cama... Uma vez um de nós partiu uma cama e todos jurámos não contar nada a ninguém... Até que a minha mãe se sentou nela, ia caíndo e todos baixámos a cabeça de vergonha. Passando Julho e os primeiros dias de Agosto, chegava a altura de irmos todos para a terra, e como uma excursão enchíamos os carros de brinquedos e íamos jogar ao boi para o curral da avó todas as tardes, fazíamos touradas com a cabrita (e uma vez ela ia-me acertando no estômago, que matreira que era aquela Beca!), passávamos tardes montados na burra à vez, lutávamos porque todos queríamos conduzir a carroça de caminho para os terrenos que a avó todo o ano plantava para no final do mês distribuir batatas e maçãs por todos os seis filhos... À noite depois do caldo quentinho, do arroz doce e das mílharas, ajudávamos as mães e a avó a fazer as filhozes, dormíamos todos juntos e cedinho para acordar de manhãzinha para ir ao encerro e à tarde, amontoados na carrinha de caixa aberta do tio e de vento na cara e bonés a fugir, lá íamos nós para a tourada, encafuados entre gritos e suores a comer farturas e a beber coca-cola enquanto lá em baixo crescíamos com a emoção de um povo. No último dia chorávamos como se não nos vissemos mais, a avó abraçava-nos e dizia "que grandes que estão a ficar, agora portem-se bem e rezem todas as noites ao anjinho da guarda". Nos primeiros dias de aulas nas composições enchiamos as folhas das nossas tolices e diziamos o nome da nossa terra bem alto como se fosse uma ofensa alguém não a conhecer. À noite agarravamos no telefone e pedíamos à mãe para ligar ora a um, ora a outro, e à avó. Sempre que voltávamos apitávamos ao passar na casa dos tios e todos saíam a correr, estacionávamos em casa da avó e já lá estava tudo, a mesa cheia de queijo, pão espanhol, as filhozes, "que boas ficaram as deste ano", e os enchidos "tenho de levar uns destes depois". Hoje quando chegamos apitamos perto da casa do tio mas às vezes não há ninguém em casa, passamos em casa da avó mas está vazia, vamos para nossa casa e não tem o lume aceso nem nada para comer. Andamos ocupados e cansados, há menos pessoas nas fotografias, e já não temos medo das escadas rolantes nem das algas mas carregamos muitas lágrimas. Às vezes aperta-se-me a garganta e não consigo deixar de ser a mesma mariquinhas (como me chamavam os rapazes quando dizia que não ia à serra porque haviam lobos e bois fugidos), quando nos vejo à beira da giesta, árvore de natal improvisada, a abrir as prendas com a avó a cirandar de avental a pôr a mesa de tantos lugares e o avó caladinho a tocar acordeão... Mas consigo sorrir se de repente a campanhia toca e são vocês, chega de preocupações por hoje, tenho tantas saudades! Já não vamos a casa da avó, já não nos confundimos no sótão cheio de brinquedos, mas somos maiores em coração e o tempo não apagou o que prometemos em pequeninos: não somos só primos, somos irmãos.

sábado, outubro 14, 2006

A guitarra: acorde de mi sem mim


Guitarra no sétimo andar de um prédio abandonado. Cordas estragadas, em cima de uma velha cadeira de baloiço. Dedilhada apenas solta um grito desafinado com sabor de teias de aranha. Mas há algum tempo que ninguém lhe pega. Não há elevador. O sétimo andar é muito longe, tão longe como voar a um país distante. Não há ninguém para dedilhar a guitarra. Entorpecida, gasta, sem brilho ou a beleza de outrora. A guitarra já não sabe onde fica o caminho da melodia. Esqueceu-o. Pelo menos hoje. Lá fora pela janela partida,alguém chora em soluços abafados. Como uma melodia triste que parece não ter fim. O choro da guitarra seria uma melodia triste, leve, solta num momento. Só que esta guitarra já nem chora. Só a vizinha do sexto andar se consome em lágrimas e gasta lenços de papel em catadupa. Até parece que esteve a ver filmes daqueles de drama, cheios de tragédias e repletos de morte. Parece chorar a morte de todos os actores e actrizes do mundo. As suas lágrimas molham as vidraças da janela do sexto andar. A guitarra permanece quieta.Sem forças. Banida, escorraçada. Eu sou a mulher do sexto andar. Eu sou a guitarra. No quinto andar há sorrisos coloridos e abafados, só que hoje eu sou a vizinha do sexto andar, que ninguém ouve ou compreende porque calçou pantufas que deslizam sem dar sinal. Eu sou a guitarra esquecida. O meu grito desafinado. Sem dó, ré ou mi. Apenas mim. Eu. Sem fá e claro, sem sol. Baloiçando num quarto minguante de lua, distante e apagada na negritude da madrugada.

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Copos na mão, mangas e calças a roçar-se no mesmo querer, mãos dadas na instantânea gargalhada de quando estamos juntos. Nós, os amigos-desde-sempre. Entrámos e finquei as unhas com força num braço. Não importa de quem era, todos os dez-desde-sempre sabem tudo-desde-sempre. E também viram os teus olhos a brilhar por entre o néon, e o olhar hipnotizado de mim, os passos empurrados pelo íman das nossas bocas. Puxaste-me sem nada dizer, e num segundo estavamos no meio da pista mas desta vez não combinávamos as coreografias que aprendemos os dois, as voltas a que toda a gente dá o nosso nome. Tu agarravas-me pelos braços e giravas comigo pela pista, e eu tão pequenina que nem tocava com os pés no chão. E sorrias embriagado do meu corpo a pulsar contra o teu, e a respiração a seduzir-te no pescoço, a tua a arrepiar-me nos ouvidos. Até que alguém passou e sem me olhar sussurrou-te qualquer coisa e te arrancou como fita-cola o sorriso da cara, desapareceu a curvinha do lábio de cima e quando me olhaste tinhas as pupilas inflamadas de vermelho-fogo, alguém tinha estalado os dedos e quebrado o meu feitiço e os meus olhos eram só paisagem dos teus. Lançaste-me para o canto da pista para me ferir também, ferir os olhos-tentação com um circo de pessoas-ficção, verdes-vermelhas-amarelas-azuis-cinzentas, sim, todas as pessoas tinham cores que não eram as suas, e riam descontroladamente, orgásmicas, enquanto se debruçavam umas para as outras num transe carnal. Um teatro de gestos e cores fingidas. Uma voz revoltou-se nos lençóis e ecoou no meu quarto murmurando: "estou a sonhar, só posso estar a sonhar", e consegui nos interstícios de um sub-sonho dar-lhes a cara de conhecidos da rua e da paragem do autocarro sóbrios e respeitosos de malas e olheiras para o trabalho. Em dois segundos pensei nisto e em dois segundos senti-me e voar e de repente a cair sentada num canto subitamente vazio. Ao longe pela janela um carro embaciado deixava adivinhar o contorno de dois corpos na cegueira do final da noite. Uma das feições parecia-me familiar... mas não consegui ver bem, o néon apagou-se. Olhei em volta. Não havia mais ninguém na discoteca. Ninguém! Paralisei com os nervos de ter perdido a boleia, de estar longe de casa, de estranhar a discoteca que sempre soube de cor. Como é que o dj tinha saído e não tinha passado por mim? Estava há segundos à minha frente... E o pessoal do bar tinha feito as contas e saído ainda com toda a gente cá dentro? E os sempre-amigos teriam saído e pensado que eu ia com ele? Mas... ao mesmo tempo que TODA a gente? De olhar preso e a expressão esquecida, quedei-me a olhar para o fundo da parede do outro lado, até que o cenário mudou e vi a coluna de pedra antiga transformada em bancos de cinza, de panos azuis aos quadradinhos... estava no comboio. As letras vermelhas ao fundo diziam "Destino: Lisboa". "Não! Enganaram-se! Não é aí a minha casa! Aí são só os dias de acordar cedo..." Abandonei-me no banco, resignada, ainda a cheirar a noite. À minha frente uma rapariga loira muito maquilhada e arranjada lia um livro, e de súbito tive um relance da capa. "Everblue" e a fotografia de Florbela Espanca.
- Desculpe, eu conheço uma pessoa que usa esse nome! - saíram-me as palavras em choque, atropelando-se (palavras chocando em cadeia).
- Só há uma. Este é o seu primeiro grande romance!
- Mas ela não escreve... - disse baixinho, percorrendo as nossas mais recentes conversas.
- Que saberás tu!? - lançou-me, arrogante, penteando os cabelos com as mãos e desviando o olhar.
"Sei muita coisa, sei muita coisa, sei muita coisa", insisti noutro daqueles momentos entre-consciências, para repetir àquela convencida. Tarde demais. O despertador tocava. E eu acordei com um ponto de interrogação na testa. Com medo de absorver os outros com os meus sonhos, de ser entusiasmo eléctrico e êxtase secretamente frustrado se alguém tenta o mesmo que eu.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Palavras Cruzadas

Uma rua polvilhada de álamos. Gostei da palavra, enquanto tentava fazer as palavras cruzadas. Palavra com seis letras para choupo. Deixei a actividade a meio (como quase sempre). Acho que nunca tive muita paciencia para letras nos quadradinhos. Ou por outra, rapidamente me enfastio. Ficou a imagem dos álamos. E do pão doce com duas letras. Ló. Lá ali. Sentada ao pé do rio Tejo. A minha musica a abafar o ruído dos automóveis e das conversas. Pus-me a pensar numa palavra de duas letras para saudade. Não havia, nem sequer com quatro, seis ou até dez. Saudade acorrentada ao sentimento da falta, qual barco atracado ao cais. Entrecruzo-me agora eu no cruzamento dos rostos e dos olhares. Desleixo-me do vazio cruzamento das letras. Regressam os álamos, numa fotografia pintada a carvão.
- Mas isso não é um quadro?
- Não
Pintei a carvão na mente criadora, fotografei na feliz contemplação do olhar. À minha frente, uma emigrante loira, pele queimada e boina cinzenta pintava com lápis de cor a paisagem da beira rio. Tal como eu, alheia ao mundo, descobrindo sóis, onde os outros julgavam existir apenas sombras. Desenha-me a alegria, por favor. Para visitá-la sempre que quiser, pintada de salpicos de cor de burro quando foge. Eu pinto-te nas aguarelas das palavras, estes minutos, acercando-me do Tejo, as palavras cruzadas num regaço. Pinto também a minha alma, com rabiscos incompreensíveis. Porque a alma é só minha. Este momento só meu. Só a saudade é tua.

quarta-feira, outubro 11, 2006

"A Lua não está à venda"


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Parecia ter caído entre palavras sombrias que sabiam a olhos inchados e ardentes de choro. Uma mão invisível tinha posto a tocar o pesadelo num disco que não parava de girar com a lancinante cacofonia de gritos tremidos de medo. E o corpo abandonado embatia degrau a degrau nas escadas escorregadias de pedra geladas e bicudas que ecoavam a censura a cada lance. Na vertigem da queda, o desespero dos braços lançados para a transparência de rostos que serpenteando fugiam para o passado trespassavam-na como fantasmas, quando quase tinha a certeza que tinham voltado para lhe pentear os cabelos na almofada e dar um beijo na testa antes de dormir... Mas eram só espectros, sorrisos apagados das fotografias gastas por quem olha e passa distraída e esquecida do brilho pelo hábito.
O amor era agora negro e pulsava fel. O sonho sabia a passou-bem-negócio-fechado, está borrado de tinta permamente e sebento pelo dinheiro suado de ganância. O sonho já não era dela. Já não o queria. E hoje sobrava o frio das entrelinhas no silêncio. Alguém tinha assinado um cheque com as suas asas, e agora tinha aterrado sem quimeras no meio de papéis e mãos de unhas como facas, pontiagudas que a feriam como o veneno de um sonho cuspido como leite de repente azedo, como um segredo confiado e quebrado.
E não queria despentear a tristeza entre os cabelos e as lágrimas revoltosas, o acreditar em alvoroço, desfeito como uma bolacha no chá e o monstro da ansiedade enraivecido. Não queria ser concha e esconder-se nos lençóis quentes de aconchego. Não queria pôr os saltos e os músculos de esponja falsos. Só queria dizer que sim, que tinha querido acelerar o sonho e não era hora de adormecer, que tinha apertado a mão sem pensar e agora tinha sido puxada na violência de um querer que não tinha escolhido. Não! Não queria servir um prato recheado de palavras com perfume de magia a quem não as sabe saborear. Podia ter pouco mas o que escrevia era seu, não era barriga satisfeita de um colete apertado e de um sorriso afectado. Não! Se soubesse, tinha escondido a sua imaginação no maior baú do seu quarto pequenino de luas e sóis pintadas nas paredes, e desenhado o amor num céu só seu, que mais ninguém visse. Porque como alguém disse, "a lua não está à venda".

quinta-feira, outubro 05, 2006

Por aí à procura de ser

Parou o carro. Ainda anestesiada pela música, saiu e atordoada olhou em volta. Não sabia o que a tinha conduzido para tão longe. Parecia ter despertado de um sono maquinal de mudanças e rotundas, ou que alguém a tinha soprado devagarinho e girado as rodas do automóvel. Ela que conduzia com o zelo do primeiro abraçar do volante, as unhas pontiagudas fincadas nos estofos, o respirar nervoso como o arranque, os olhos muito abertos e a voz irritante do instrutor sibilando aos ouvidos. Não que não gostasse de conduzir, mas uma máquina em seu poder era tão ou mais assustadora que o seu fulgurante espírito, que não sabia controlar. Sentia que naquele adormecimento devia ter deixado alguma coisa para trás, devia ter perdido a mala. Mas não, enrolada em si jazia a bolsa castanha de borboletas silenciada por ela nas peripécias das suas odisseias. E o esconderijo de si não tinha esquecido nem abandonado nada. O telemóvel-sempre-mudo, o livro que esquecia nas adormecidas viagens de comboio, o filme de olhos intrigados do bibliotecário, perscrutando as pessoas pelos filmes que escolhiam, os bilhetes de semanas e semanas de metros e autocarros, sujos dos sacos de maçãs dos intervalos e do plástico dos caprichos de chocolate, e as chaves de casa brincando e tilintando entre o rebuliço como convém em dias de chuva e as matreiras não se deixam encontrar. O caderno de pontas reviradas de ideias manchadas de café, a escova das ondas de cabelo mais teimosas que ela, os óculos de sol e pó com que não sabia ser. Por sorte tinha tudo. Não estivesse entre portas e janelas, alguém repararia naquele olhar de pupila apagada. E Sintra? Que faria em pleno centro da vila misturada entre sotaques, flashes e castelos? Talvez quisesse entrar em estórias de filmes e intrigas romanceadas, perder-se no caminho das suas palavras, e esquecer-se que tinha tanto de igual para fazer, que nada sabia a azul.

“…I need to change the sounds that shape my life.” Robbie Williams, Please don’t die

segunda-feira, outubro 02, 2006

Sonho-Incenso

Talvez ainda não tenhas entendido. Tu és um pedaço de papel velho, mal escrito e amachucado, de poema inacabado. Já não rimo contigo, e não sei inventar palavras de amor se nem mas cantaste. Quando cuspi a pastilha de ti (sem sabor) sem querer lembrei-te o que silenciei. Escorreguei na nostalgia mas não voltei a escrever no papel velho. Ando só a ganhar coragem para o queimar, como o sonho-incenso (ou será insonso?) de ti.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Amélie de ma vie

"Le temps n'a rien changé, Amélie continue a se refugier dans la solitude. Et a se prendre des questions idiots sur les gens de sa cité."


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Le Fabuleux Destin D'Amélie Poulain

Elle aime... le gout du café qui brûle sa langue, mettre tout le paquet de chewing gum à la mente dans sa bouche et faire exploser sa gorge, manger les biscuits par dehors, laissant la crème, traîner avec les pantalons mouillés et sales après la pluie, mordre la peau des ongles, voir la lune la persuivre quand elle part de sa ville. Elle n'aime pas... que quelqu'un lui demande des chewing gum, que quelqu'un parle pendant qu'elle écoute sa musique préférée, que quelqu'un lui demande un truc du passé qu'elle a déjà effacé, devoir sortir avant de terminer un filme, ou un chapitre d'un livre. Elle est bizarre. Pas beaucoup mais à sa manière. Mais elle a en soit tous les rêves du monde. Comme quelqu'un qui je connais.

Moedas de ouro ou chocolate?

Eu abria sempre a porta e ia a correr por todos os passeios, até ficar com a cara vermelha do esforço e o coração em torvelinho bater, bater, bater. Pum pum pum pum. O meu coração quase na boca. Nas mãos. A correr para chegar a ti. Para não te perder em nenhuma esquina.Não podia correr riscos. E se entretanto te fosses embora?E mesmo que não fosses eram menos cinco minutos sem o teu olhar de músicas incandescentes. O teu olhar-fósforo que me acende, me apaixona. E continuo a correr muito depressa enquanto os pensamentos se entrecortam num engarrafamento estontentante. Corro agora mais depressa e não posso parar, ponho a tua imagem a trabalhar, a aparecer na tela dos meus olhos, objectivo: chegar a ti. Salto as poças, a relva, dou encontrões nas pessoas e até passo alguns sinais vermelhos. Está quase.... só mais um bocadinho.Levo-te um chupa de morango escondido na mala, já nem sei bem onde (a minha mala é uma confusão). Abraço-te com tanta força e quase choro. Consegui. E no teu olhar esqueço todos os cansaços. Volto para casa com o olhar fixo no telemóvel, menina traquina à tua espera, sempre. do bip bip constante das tuas mensagens. Por ti enfrentaria os dragões que sempre atormentaram as princesas dos contos antigos.

Turvaste-me os olhos. Dizes-me que não queres nada. O teu ar glacial de indiferença no meio das minhas corridas sem apertar os sapatos. Não vale nada. Como as moedas de chocolate que nunca chegarão a ser ouro. "Não estás feliz, não tens de fazer nada". Mas eu estava feliz antes de apertar os sapatos, só por te ir encontrar. Eu estava feliz em montar as fotografias e puzzles da nossa vida.Então tudo o que te dei não vale nada?Era ouro, não eram moedas de chocolate, meu amor.

Boémia

Um dia uma professora de português pediu-nos para dissertarmos sobre o medo. No seu sorriso via-se o prazer de um trabalho que nos desarmou: nenhuma enciclopédia o explica, nenhum dicionário o define para além de "receio, pavor, nervosismo". Não tinhamos mais que catorze anos e as dependências ainda estavam longe de provar. E o Sol tão brilhante que tínhamos os olhos ofuscados de vida. Perdidos, fizemos do trabalho de casa um desafio e uma partilha. Discorremos sobre a morte, dos nossos amigos e dos nossos pais, sobre cataclismos à escala mundial, ataques terroristas - a princesa de todos os jornais, que florescia na altura. Juntos descobrimos que o dicionário se tinha esquecido da palavra "futuro" a seguir a medo. E se não conseguissemos ser o que sempre almejámos, entrar no curso que queríamos e viver os recreios e recreios a pensar como gente grande? Também tremíamos por um dia ver todos os ideais pisados e o "nunca o farei" riscado da lista. Hoje, cinco anos volvidos, será que essa lista ainda tem alguma coisa por riscar? Tenho medo por nós. Perdemos a ingenuidade nas olheiras e nos livros, mas somos doentes de amor!

quinta-feira, setembro 28, 2006

Acabaste por te estragar, com tanta pressa de viver. Mastigas-te devagarinho até que explodes como o balão da pastilha e esqueces-te de que os outros também esperam que lhes sorrias, que quando não és palavras podes ser cor. Há tanto tempo que te sabias imperfeita... mas ninguém notou...

(Agora as notas desafinadas começam a soar mais alto que a música. E ris-te estupidamente. Porque não vale a pena acreditares mais no que não podes ser.)

Partida


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"O destino pregou-nos uma partida", dir-se-ia num qualquer filme de domingo. Triste cliché de um argumento cortado a meio. Tu partiste para o Sul e eu para o Norte, quando os meus lábios roçavam os teus, o desejo tremia na barriga e o medo sussurava ao ouvido. O teu azul-mar acabou por mergulhar noutro beijo, como o meu sorriso que encontrei noutros lábios. Em silêncio trocámos de sentimentos e o ponto final ficou no "se"... Nunca fomos de conversas sérias. E nunca seremos. Na tensão que ainda nos abraça espero por nós (em segredo!), porque a teimosia de te querer esconde-se mas não se apaga e hei-de saber como é... provar-te.

(Não te quero deixar para outro tropeçar de almas... Só se me prometeres ser azul-mar outra vez.)

domingo, setembro 24, 2006

La paz de tus ojos



"No he podido esta vez,
vuelvo a no ser,
vuelvo a caer.
Qué importa nada si yo,
no sé reír,
no sé sentir...
Quiero oírte llorar y que me parta el corazón,
quiero darte un beso sin pensar,
quiero sentir miedo cuando me digas adiós,
quiero que me enseñes a jugar.

Sé que me he vuelto a perder,
que he vuelto a desenterrar
todo aquello que pasé.
No sé ni cómo explicar que sólo puedo llorar,
que necesito la paz que se esconde en tus ojos,
que se anuncia en tu boca, que te da la razón.
Ven cuéntame aquella historia de princesas y amores
que un día te conté yo.


(...)"

La Oreja de Van Gogh - "La paz de tus ojos"

Ainda me lembro da primeira vez que te vi. O teu andar despreocupado e saltarico como se nem a gravidade te desafiasse. O vestido amarelo e o cabelo despenteado, serpenteando ritmado com o teu andar dançante, e os teus olhos brilhantes que pareciam envoltos na mesma melodia sorridente do teu caminhar até mim. Quase não me conhecias, mas sempre acaloraste tudo o que te rodeia com a leveza do teu ser, sem parecer saber o que é o medo ou a vergonha. O teu "olá!" de voz meiga desenhou-se em covinhas e directamente da alma. Por uma encruzilhada de acasos começámos a partilhar os mesmos lugares e conheciamos as mesmas pessoas. E por um acaso ainda maior descobri que falar contigo era contagiante. De repente, entre o chá e as bolachinhas à lareira nos dias frios, depois das molhas das brincadeiras loucas na neve, e o teu semblante enlevado enquanto te conto estórias de reis e princesas, tornaste-te o bocadinho mais emocionante dos meus dias. Um simples flash dos teus olhos e falar electrizante faz-me sempre querer largar tudo e misturar-me entre comboios e autocarros (sem me cansar) para te ver a descer as escadas aos pulinhos e para me cortares a fala enquanto te lanças numa torrente de desabafos e gargalhadas. Confundes palavras e verbos sem vírgulas nem pontos finais, enquanto falas a correr e reinventas o ontem e o há-bocadinho com as tuas mãos, num falar atrapalhado de quem tem tem pressa de viver e não se parece cansar do rebuliço de emoções que tem em si. Eu sempre tive o olhar de quem escreve por linhas direitas e sem rabiscos os sonhos quase certezas, e tu o ar agitado de quem quer sorver cada bocadinho de poesia de cada voz que se cruzava na tua e o nervoso miudinho de querer ser tanto e não ter tempo para nada... Na tua inocência e o deslumbre de quem acha o mundo demais para si nunca reparaste nos teus olhos grandes de teimosia. Pareces saber mais que eu que decorei o mapa para subir sem cair às montanhas mais altas (sem precisar de atalhos). Quando tropeço e a almofada não chega só entre o teu abraço consigo chorar cascatas de fantasias mal desenhadas que mais ninguém viu. Só ao pé de ti o peso do mundo não me asfixia.

Eu comigo

Escorrego do mundo direitinho da realidade e num eclipse perco-me em mim durante horas em silêncio e segundos que contam e reprimem devagarinho as quimeras vãs enquanto mais um ano passa e pouco sobra quando do outro lado do vidro está o nevoeiro da Responsabilidade, a palavra que engasguei e não consigo dizer. Passeio entre melodias e devaneios de mim enquanto salto desobediente os imperativos da agenda como as linhas do passeio. Os livros de R grande franzem-me o sobrolho e os narizes empinados cansam-se em conversas cheias de érRes enquanto eu me divirto comigo e me esqueço que até o Peter Pan teve de crescer.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Conversas em monólogo

Não te posso dar as respostas. Nem sequer formulei as perguntas. Nem te posso dar os eufemismos porque não sei o sentido litreal de nada. Hoje acordei alma-viajante sôfrega de loucura e palavras vivas. Alma viajante em mim, por mim, pra lá de mim.Ansiando deixar algo de indelével, inextinguível, impresso nas linhas tortas do tempo. Eu, alma viajante desdobrada, nos sorrisos dos que percorrem comigo os dias desta longa jornada no Mundo. No livro-rotina que não desejo escrever. Nunca gostei de obras obrigatórias ou regras de estilo. Sou apologista da escrita livre. Prefiro um livro em branco, sem teias de aranha de inacção. Vou pulando por aqui e por ali, abrindo as asas às ternas experiências novas. Chapinhando em poças de água pueris, entregando pedaços de mim como pedaços de uma tarte de maçã. Confiando-me. Erguendo e destruindo muros. Fazendo e refazendo a (minha)História. Com H grande. Vida com V maiúsculo. Lembro-me da minha professora da primária (o início das frases é com letra maiúscula). A minha vida é um eterno iniciar de uma frase, necessita de letras maiúsculas não é professora?Mais comichões na alma, estilo livre, sem bruços ou mariposa, tudo livre. Num mundo nada livre.Lá me perco eu no meio das palavras, enredada nelas, mosca numa teia de aranha enorme. Sou eu quem escreve ou a escrita que me escreve a mim? Não sei muitas respostas, já te disse, mas já vou formulando algumas perguntas. Vamos sair agora?Apetece-me um beijo na boca. Falamos depois. Diz-me tudo no aflorar dos meus lábios aos teus. Apetece-me um beijo na boca. Um daqueles beijos-peixe, com a tua lingua morna de vida. E lá vai a minha alma viajante pular contente para outras paragens. Infinitas. Além de todas as barreiras e de todos os fins.

sábado, setembro 16, 2006

Caixinha de música

Hoje a minha caixinha de música não toca. Está avariada. Erguem-se fortalezas de silêncio e a bailarina da minha caixinha de música esqueceu-se de como se dança. É apenas uma bailarina desengoçada no compasso de uma música emudecida. A bailarina teria lágrimas nos olhos, se a tivessem criado com a capacidade de chorar. Porque hoje é um dia absolutamente triste para quem vive na música, na sua redoma de cristal, embalada nos seus sons, na sua plasticidade.A música morreu. A bailarina comove-se sem chorar. Os seus gestos mecânicos e perfeitos desarticularam-se e nem os sapatos de ballet lhe valem. A mim cabe-me assistir a este triste espectáculo. Sem alegrias ou esperanças, sem a caixinha de música que vive dentro de mim.

sexta-feira, setembro 15, 2006

E quebro a solenidade das solas nervosas e dos motores enraivecidos, Supremos Imperadores da cidade, irreverente solto uma gargalhada que uma das gravatas ambulantes estranha. Franzir de sobrolho: "Não vê o sinal ao canto? São proibidos sorrisos aqui!" Oh, não quero saber. Eu não estou aqui. Estou tão longe, com ele. E tu não conheces a sua alegria pueril, a ingenuidade de quem não parece conhecer a maldade e a dor, e quando se ri os olhos amendoam e o riso sai aos bocadinhos, é longo e vem de dentro. (Alguém disse uma vez que o amor era ridículo. - Mas isto não é amor! Ainda não inventaram uma palavra para a tua voz em mim.)
"Eu até gosto de falar contigo..." "O QUÊ?!" Não!; apaga esta parte, não é isso, é que não estava à espera que fosse assim ao pé de ti. Os olhares fogem envergonhados, se calhar tenho alguma coisa no telemóvel. E um beijo no canto da boca, de repente e sem mais nada. Não reajo, fecho os olhos enquanto a música nos leva devagarinho. Não nos quero apressar, os ténis desapertam-se a correr e não quero tropeçar num futuro de nós feito pedra.

Eu sabia que eras tu que me ias deixar a sonhar quando voltasse. Mas afinal o que és tu, o que somos nós? Mais uma quimera deixada por escrever.

segunda-feira, setembro 11, 2006

espelho

Corropio vertiginoso de mãos. Dadas, entrelaçadas, apertadas. Pequenas, médias, grandes.Fundidas.Passeio num jardim. Ao longe a torre perdida no oceano e um sol abrasador que me arde no rosto. Arde-me agora na alma a memória das tuas palavras, a memória das minhas falhas. Das vezes que tentei nadar contra a corrente ou não nadei na tua direcção. Lembro-me agora das promessas empilhadas em cima da secretária e dos medos despejados pela janela.Lancei as palavras em setas-veneno sem olhar para trás. Tenho medo de olhar para trás e não avistar a tua figura esguia e segura. Sento-me na cama macia, cama-mundo onde viajámos um pelo outro, nos risos e nos sonhos despidos. Respiro com dificuldade e passam mais casais de mãos dada na minha cabeça. Porventura a contarem os segredos que te contei.Hoje não tenho segredos para te contar.Só uma mão cheia d pedras. Lancei-te as pedras em vez dos pós de crescer. Para seres maior, no coração e no riso. Na felicidade. E contar-te histórias de princesas em torres.Eu não sou uma princesa.Tropecei no vestido. Tropecei nas artimanhas, e sem querer,trouxe de novo os medos deixados no passeio. Ainda guardo a música no ouvido " nadar no teu corpo eternamente".Eu sou um espelho em estilhaços. a Madrasta e não a Branca de Neve. E uma dor pequenina bate no coração-tambor. Grito a plenos pulmões e caio de joelhos. A dor pequenina virou espada que fere e mata. Belisco-me e não sinto nada. Terei morrido?Olho-te mas tu não me vês. Devo ter mesmo morrido. Espelho partido em pedaços de mim.

Não estás

Arrepio. Uma corrente de ar frio invade-lhe a fantasia, uma voz estridente e nervosa interrompe-lhe o voo. "Não", murmura inconsciente, e agarra a almofada com violência. Imagens confusas a quem tiraram de repente o tapete do sonho correm e atropelam-se enquanto os olhos não abrem, preguiçosos como o corpo inerte, pesado... uma cãimbria na perna. "Nada há lá fora que não haja melhor aqui", e inventa bocadinhos de sonhar para se perder no sono outra vez. No embalo do seu respirar decide que não vai acordar. O zum-zum urbano malicioso que se escapa entre a janela e as cortinas cheira a sorrisos contrafeitos e arranques de motores mal-dispostos. Nem o cheiro a torradas quentinhas ou o café a fumegar à mesinha-de-cabeceira lhe faz querer ser. Espreita entre os lençóis o telemóvel. Nem um sinal de saudades. E de repente a confusão. Que aconteceu? Nem uma mensagem pequenina de acordar, um murmúrio de amor ou o soprar de um beijo. Nada, nada, nada... O quarto emudece. (Sempre a respeitou muito.) As cortinas, ciosas, param de serpentear. Calam-se os passos no corredor, a televisão da cozinha, a torneira da casa-de-banho. "Não há nada, não me apetece". Tinha tanta vontade dele. E ele não estava. Esticou os braços ao longo do colchão. Tanto espaço. Passou as mãos pelos lençóis. Tentou cheirá-los. Mas já não falavam dele. Tinham-no esquecido mais depressa que ela. A cama era demasiado grande para um corpo tão pequenino. Mas era melhor que forçar a teimosa paralisia de trabalhar e a má-vontade de rotina, beber uma caneca imensa de nostalgia na mesa de mármore, gelada na sua enorme casa de tantos irmãos e pais distraídos na emoção de amar.

sábado, setembro 09, 2006

Viagens

Tantas vozes e sotaques à minha porta. Cumplicidades de tão longe mas sempre tão perto, de mão dada desde a boneca de trapos ao primeiro carro, do primeiro beijo ao casamento. Um café de olhares sorridentes, abraços sentidos, conversas cheias de tudo. E agora um quarto cheio de nada. Com fotografias teimosas do que não volta a ser. Saudades. Num mundo de cinemas e autoestradas, com a boémia e o fulgor da vida a passos, tudo o que queria era sorrir sem o gosto amargo a solidão. Vida cigana.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Palavras sussurradas

Palavras sussurradas. Não faladas em voz alta. Vida, rastilho de pólvora. Que a tua vida seja rastilho, jamais se apague, cada vez mais se inflame. Eu explosão efusiva da realidade em fantasias, espelhadas em arco íris multicores. Palavras em tom baixo. Sonhos dispersos em nevoeiros suspeitos, sonhos nunca tocados. Palavras amedrontadas. E o rastilho de pólvora a arder cada vez mais rápido. Onde está a ponta deste rastilho?? Quem é esse omnipotente pirómano que nos criou?Deus-Pirómano. Palavras. Mais palavras. Nunca tocadas. Proferidas, silabadas, soletradas, vendidas, compradas. Algumas como a vida, rastilho, fogo, fogo-de-artifício. Queimam. Tantas palavras. Estas sussurro-as por medo de as fazer eclodir no mundo. Palavras de nada e de tudo. Para dizer que estamos vivos, mas é melhor não fazer muito ruído. Está tudo a dormir.O mundo dorme, letárgico e incompleto enquanto busco novos isqueiros para acender este....tal.....único...rastilho que nos faz efectivamente SER. sem margens, sem barreiras, sem diques que impeçam a vida de rebentar, pulsar, vibrar.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Deitada na cama já feita e vestida para sair. Numa tarde de Verão de Sol ofuscante e chuva miudinha e traiçoeira. A cabeça pesava de uma noite embriagante de sentimentos naquele cantinho da discoteca. Não quero falar contigo. Porquê? E insistiu. Fez-se grande e fez-se cego de um olhar de soslaio. E eu cuspia as tuas palavras de hipnose para o chão escuro de amor e a boca fria de uma bebida gelada. E disse não. Andaste distraído. Não reparaste que cresci. Hoje não me roubas o olhar. E a minha roupa não ficará a cheirar ao teu vício. (O vício de mim.)

quinta-feira, agosto 31, 2006

O que foi não volta a ser


"Eu trago um buraco no futuro
traz presentes fugidios
e memórias de navios

Traz tanta confiança
que se é sempre criança
mesmo quando não se quer
o que foi não volta a ser
e o que foi não volta a ser
mesmo que muito se queira
e querer muito é poder
e o que foi não volta a ser

Pode vir algo melhor
embora sempre pareça
que o pior está por vir

Nunca se deve esquecer
que não há volta sem partir
e o que foi não volta ser

E o que foi não volta ser
mesmo que muito se queira
e querer muito é poder
e o que foi não volta a ser

(...)"

Xutos e Pontapés

O teu beijo quente e violento ficou no baú das brincadeiras, das correrias e dos segredos. Ninguém podia saber, e serpenteavamos entre as árvores e as silvas que nos arranhavam as calças. E as amoras que manchavam a saia que a minha mãe pediu para não sujar. O que foi não volta a ser, mas fui feliz para sempre entre os calções sujos de terra e o joelho esfolado. Entre o murmúrio do teu sorriso e o calar dos nossos sonhos. Nós não tínhamos bibe e a boca suja de chocolate. Mas parecia.

terça-feira, agosto 15, 2006

Nunca são as grandes coisas.

Nunca são as grandes coisas. Os grandes gestos espalhafatosos, cheios de jogadas estudadas. São sempre as coisas mais pequenas, como a tua mão pousada no meu cabelo.Como os teus braços discretos enrolados à volta da minha cintura. Como o teu sorriso iluminado pela lua. Ou os meus pés dentro da água fria do mar numa noite de Verão. No universo delicado de pequenos momentos-pétala em que o meu riso soa cristalino e se descobre, tal qual uma ostra que revela possuir uma pérola. E o meu riso-pérola caminha contigo de mãos dadas. Aí estou eu a cair num labirinto de sensações, mais uma vez, a inebriar-me em ti e na tua forma de me despertar de manhã. E na forma como sonho contigo mesmo a teu lado. Nunca são as grandes coisas, os violinos ou dares-me o Mundo de mão beijada. São pequenos universos paralelos que me ofereces, que possuem a beleza de uma música encantada, da minhamúsica favorita, que não é mais que o som da tua voz. Nunca são as grandes coisas. Os teus olhos cerrados no rumor de um beijo, o teu olhar de criança livre, os teus murmúrios e rebates apaixonados. E aí estás tu. E são sempre essas pequenas mas grandes, enormes, gigantes, exorbitantes e hiperbólicas coisas.