segunda-feira, novembro 27, 2006

insónia

A luz da mesa de cabeceira continuava acesa. Ainda não a tinha desligado porque o corpo teimava em não ceder ao sono, os olhos-papão que ansiavam devorar o mundo todos os dias, inflamados de sensações, permaneciam abertos. Janela aberta. Não queria apagar a luz. Receava o escuro que a faria embrenhar-se numa hera de pensamentos. O bater do coração e o tic tac meticuloso do relógio eram os únicos sons audíveis. O livro estava pousado sobre a mesa, aberto na última página, um final prestes a saborear. Não, não agora. Levantou-se da cama, finalmente.O soalho estava frio e a cabeça ardia de pensamentos.Quem dera pousar o pensamento num daqueles objectos que servem para pousar o telemóvel e não sentir o estômago comprimido, qual camisola encolhida na máquina de lavar.Tocou no nariz, a campaínha.Costumava assim dizer quando,nas horas vagas, tomava conta de miúdos:"Plim, estou a tocar à campaínha".
O leite escaldava-lhe a garganta, rio de lava a entrar no organismo. O cérebro mostrava-lhe imagens e frases entrecortadas. Pegou numa folha e numa caneta, tentou escrever. Amachucou folhas e folhas, como vira tantas vezes os escritores fazerem nos filmes. Viu as palavras surgirem na folha, reli-as e as palavras não eram ela. Nem a sua emoção. Já era madrugada. Mas as palavras não eram ela. Falavam de lugares onde jamais tinha estado, palavras que jamais lhe tinham dito mas que imaginava na perfeição. Filme mental. Ela sabia o que queria. Era isso que escrevia ao som de uma música que trauteava baixinho "cinderela das histórias, lá lá lá" (usava o lá lá para passar a perna ao facto de nunca decorar convenientemente as letras).

Lá fora a chuva multiplicava-se em gotas e o vento fustigava árvores e roubava os chapéus de chuva das mãos dos mais incautos. Mas ela, cinderela do seu reino, a mais bela do seu quarto, bailava nas letras, numa serenata de si ara si. Nesse lugar ninguém a julgava e podia pensar o que quisesse, ser o mistério complexo da sua própria existência. De novo na cama, com algum alívio interno, apagou a luz. A vela, para ser mais precisa, já que o temporal tinha deitado a baixo um poste de electricidade. Soprou a vela e sorrateiramente o sono desprendeu-se do tecto sussurrando-lhe "fecha os olhos" (que obedeceram mecanicamente).Fechou-se a janela.Terá sonhado?Mais não soube e mais não vi.

1 comentário:

Hizys disse...

soubeste musicar uma noite angustiante de dúvidas e desejos, como só pessoas como nós, de sensações mais fortes que o pensar, se levam tão facilmente. mesmo que nada resolva, a escrita faz sempre bem, ainda mais a quem a lê... =)**