segunda-feira, dezembro 28, 2015

Cartas ao meu tio - VI

Sabes tio, às vezes não sei se ter recordações é bom ou mau. Enquanto andamos no corropio da rotina, o stress do emprego e o que vai ser o jantar, ou se chegamos a tempo àquele encontro de amigos porque a segunda circular está um terror e ainda por cima chove, não nos lembramos muito. Nesses dias, na nossa cabeça só há espaço para o cesto da roupa suja a abarrotar, as calças por passar a ferro e a ração do gato a terminar. Esses dias, que parecem nunca mais terminar, são afinal mais fáceis que os outros: aqueles em que paramos para escrever a lista de Natal e percebemos que há menos uma pessoa a quem oferecer prenda, menos um lugar à mesa, mais um acordeão abandonado no canto da sala. Já não bastava o do avô, agora também o teu jaz mudo e calado, para nos lembrar que a música abandonou a nossa mesa.
Sabes tio, o Zé ligou-me de Aldeia Velha e disse que amanhã, faça chuva ou faça Sol, vão todos à lenha. Vão limpar o prad'AnaRamos, o terreno da família - o nosso "tchão". Só agora percebo porque chamam "tchões" aos terrenos, por aqueles lados. Aquela aldeia, aquelas pessoas, são o chão das nossas poucas certezas. Foi desses "tchões" que brotou a nossa vida, a sopa que com tanto amor a avó nos fazia, com os legumes que cultivava de mãos calejadas e secas do Sol. Essa vida, a dos "tchões" da nossa aldeia, continua, mesmo sem ti. É injusto, eu sempre disse que podias passar a reforma na aldeia, a fazer crescer os legumes e batatas que traríamos para a cidade, para fazer inveja aos amigos que pagam dois euros por cada quilo de qualquer coisa num mercado biológico. Mas já te queixavas das costas, das pernas, não podias cumprir esse teu (meu?) desejo. Enquanto penso nisto, percebo porque tanto choramos quem nos deixa. São as saudades, é a tua voz longínqua, é o calor do abraço que foge, mas é também, e sobretudo, o não ter feito, o não ter dito e redito. Arrependo-me de não te ter ligado mais vezes, de não saber de ti durante semanas, julgando que obviamente estarias bem, arrependo-me de não te ter perguntado porquê, porquê?, porque é que não te preocupavas contigo e não deixavas o que te fazia mal. Nunca entendi, mas sabia que não devia falar contigo sobre isso. Não tivemos essa conversa, mas podia ter-te convidado cá a casa, esta onde também viveste, há trinta e tal anos, e que eu renovei há um ano. Choramos por aqueles que nos deixam porque não fizemos tudo o que devíamos, e a culpa dói tanto ou mais que a saudade. Por isso é que quando penso em ti, para fazer as pazes comigo mesma, lembro mais os tempos em que me ensinaste a tocar órgão e menos os últimos anos. Dos últimos tempos, agradeço ter passado os aniversários contigo, por ter insistido em fazer a tua festa de 60 anos, mesmo quando disseste que não querias e nem ias aparecer - odiavas ser o centro das atenções, até quando te pedíamos para tocar um pouco de acordeão ou guitarra.
Parece demasiado cliché dizer que devo aprender algo com a tua súbita partida, mas sei que é o que devo fazer. Às vezes apareces-me em sonhos e dizes que estás bem. Quero acreditar nisso, e ficar em paz também. Esse dia chegará, espero.

sexta-feira, novembro 27, 2015

O meu tio Gustavo

Na véspera do dia do meu nascimento, roubaram o carro ao meu tio Gustavo. Ele e o meu tio Gil também viviam lá em casa, e todos assistiram à cena, de camarote na varanda. Quando o seu querido Datsun se afastava, com mãos que não eram as suas ao volante, o tio Gustavo largou a correr pela rua, de pantufas, atrás do ladrão. Foi quando rebentaram às águas à minha mãe, enervada com o roubo. A história, que se conta quase todos os anos por altura do meu aniversário, lembra-me sempre como a minha vida ficou para sempre ligada à do meu tio Gustavo, um dos mais novos dos meus tios. O meu tio Gustavo, irmão mais novo da minha mãe, é como um irmão mais velho para mim e um irmão mais novo para o meu pai. Trabalha com ele e durante muitos anos, almoçava connosco lá em casa, e para mim era como se ainda ali vivesse. Na verdade, ele nunca deixou de ser lá de casa, tal como o resto dos irmãos da minha mãe nunca deixam de ser de casa por mais que se casem, se divorciem ou vão viver para a Austrália. Mas a verdade é que o tio Gustavo, por estar sempre por perto, teve o trabalho mais ingrato de ser tio, a parte mais aborrecida: quando o meu pai não me podia levar à escola, ia o meu tio; quando não me podia levar ao médico, ia o meu tio; quando o meu pai estava na aldeia e o meu carro avariou no meio de uma rotunda, foi o meu tio que me foi acudir. A verdade é que sempre esteve e está implícito que o tio Gustavo pode quando o meu pai não pode, como se o tio não tivesse nada melhor que fazer. Usamos e abusamos da boa vontade do tio Gustavo, e ele nunca nos diz que não.
O tio Gustavo é solteiro, nunca casou mas tem dez filhos: os sobrinhos, de quem ele sabe todas as datas de aniversário, o ano em que terminámos a faculdade (talvez porque tenha sido dos poucos a aturar a bênção das fitas toda até ao fim, essa cerimónia que nem os nossos pais aguentam), e o ano em que o primeiro sobrinho-neto nasceu. Ele não precisa do facebook nem de uma agenda para se lembrar. Felizmente, e apesar de ser uma sobrinha abusadora, também não preciso do Facebook para me lembrar que o meu tio Gustavo faz anos hoje, 28 de Novembro, quando o tempo e os centros comerciais se preparam para o Natal. Hoje é dia do tio Gustavo. Hoje é dia do tio Gustavo porque ele foi ao lançamento do meu livro, quando quase toda a família teve de ficar a trabalhar. Hoje é o dia do tio Gustavo porque ele ficou triste por não o ter convidado para a defesa da minha tese, por ser demasiado entediante, e ouvir como resposta "mas eu ia à mesma". Hoje é dia do tio Gustavo porque ele foi ao lançamento do projeto da minha prima mais velha, e até esteve atento aos pormenores mais aborrecidos, enquanto eu pensava no calor que estava nesse dia. Hoje é dia do tio Gustavo porque ele sorri de forma tão feliz quando nos tira uma foto ou grava vídeos a soprar as velas no aniversário (é sempre ele o único que se lembra de pegar no telemóvel e tirar fotos nestes momentos). Hoje é o dia do tio Gustavo porque ele faz-me rir quando diz que as festas da aldeia são todas iguais e não valem nada. Hoje é o dia do tio Gustavo porque todos os dias para ele são dias dos sobrinhos. Um tio assim tem de ter direito a um dia, pelo menos. Feliz dia, tio Gustavo. Gostamos muito de ti! Bem haja por seres o mano mais velho e o segundo pai dos sobrinhos que te dão (alguns) cabelos brancos.

domingo, outubro 25, 2015

Cartas ao meu tio - V

Olá, tio. Tu que não tinhas pressa de viver, como podes ter partido tão cedo? Passo à porta da tua casa, espero que as tuas filhas desçam as escadas, e imagino-te na cozinha, a comer de pé como tantas vezes te vi, já reformado mas ainda com o prato equilibrado nas mãos, como se ainda fosses sair para o turno da noite. Imagino que ainda lá estás e isso conforta-me, sinto a tua falta nos almoços de família e penso que estás apenas atrasado, como sempre, ou a fazer dois turnos para acumular folgas. Sabes, tio, tenho receio que este golpe tenha sido demasiado forte para a minha mãe. Continua a vestir-se de preto, e voltou a tristeza que lhe marcou o olhar durante anos, depois de os avós terem partido. Voltou e escureceu-lhe os olhos verdeados, agora quase sempre castanhos de mel. É o olhar de quem nunca se consegue esquecer que, afinal, a morte está sempre ao virar da esquina. Nas veias da minha mãe não pulsa o sangue, mas toda a vida dos seus irmãos e pais. Toda ela é feita de memórias e histórias eternas, que só ela sabe contar. Sabe de cor o nome de todos os cinquenta e seis primos que vocês tinham, onde moravam e o que lhes aconteceu. Tem os seus números de telefone e, ao fim de semana, muitos telefonavam e deixavam nos seus ombros as suas dores e males de espírito. Lembro-me de me contar como o meu tio avô António lhe ligava com queixas da mulher, e logo a seguir, a tia lhe ligar com queixas do marido. É assim a minha mãe, a eterna confidente de uma família de infinitos primos direitos e afastados, o fio de crochet que liga a manta de retalhos que nós somos. Agora o telefone lá de casa toca menos. Eras tu, a prima Leonor, a tia Florinda, os tios António e Ines, e mais, são os xailes pretos que a minha mãe carrega todos os dias. São as saudades que as partidas prematuras lhe deixaram. E ela suspira e pega no telemóvel, lembra-se da sua responsabilidade de matriarca da família e liga à prima que está grávida, pergunta como está, quer ver a ecografia e saber o sexo do bebé. Volta a sorrir e a família, como o sonho, pula e avança. Espero que nunca deixe de sorrir assim, animada pelo toque do telemóvel ou da campainha de casa. Mas é certo que o sorriso que guardava para ti, ela não dará a mais ninguém, tio.

terça-feira, outubro 13, 2015

O peso dos sonhos


Qual é o peso dos sonhos?
Serão tão leves como as folhas de outono que se agitam ao vento e se desprendem das árvores sem qualquer dificuldade? Ou serão pesados como paredes, das que abanam mas nunca vão cair?
Ou será que o peso dos sonhos depende de como os alimentamos?
Se assim for, os meus sonhos pesam toneladas, porque todos os dias eu trago comigo mais um pequeno sonho e um objetivo. Todos juntos deviam ser impossíveis de transportar. No entanto, sei que estão comigo a todas as horas do meu dia. Por vezes, são pequenas coisas. Tão pequenas que nem parecem ser sonhadas. Algumas acontecem e aí faz-se magia. Outras, são apenas sussurros, como se falasse debaixo de água. Sinto que é demasiado sonhá-las. Há sonhos tão preciosos que tenho medo
que fujam de mim. Os mais pesados e os mais leves. Enquanto eu trouxer estes sonhos junto do coração, nunca vou morrer verdadeiramente. Vou estar sempre bem viva, bem acordada, com a vida a mover-se aos meus pés. Terei sempre um novo caminho, um novo sorriso. As tempestades não me vão perseguir e o medo não me vai vergar. A chuva não me vai aquecer e o sol não me vai molhar. E não me digam que é ao contrário. Afinal, quem manda nos meus sonhos sou eu. E já custa imenso não os deixar cair. 

segunda-feira, setembro 07, 2015

Cartas ao meu tio - IV

Um mês. Passou lento e doloroso o primeiro mês da tua partida, o teu nome e a tua foto ainda nos nossos contactos de telemóvel e facebook - é tão estranho, mas ainda assim apaziguador, como se ainda cá estivesses. Ainda não acredito que partiste, que nos trouxeste de súbito a dor que quis adiar por muitos mais anos.
Passou um mês e compreendo melhor agora aqueles clichés sobre passar tempo com a família, telefonar, enviar uma mensagem com um beijinho... Quando partiste, amaldiçoei-me porque a última vez que falei contigo foi há quase dois meses, quando te encontrei em Vila Franca. O trabalho novo, o tempo a voar, e não falámos mais. Sabia que ia estar contigo durante as férias, que te irias sentar connosco à mesa a todas as refeições do mês de Agosto. Mas agora não servem de nada estas palavras vãs, que tu partiste sem que te dissesse o quão importante foste para mim, para todos. Disse-te algumas vezes que admirava a tua inteligência, o teu génio musical. Insisti muitas vezes contigo para que passasses a reforma a dar aulas de música, ideia que rejeitavas com uma gargalhada - "Só tu, Fátima". Atormenta-me pensar como eras humilde, simples, como nunca reconhecias o teu talento. A tocar acordeão, baixavas o olhar, tímido e inseguro - o avô fazia o mesmo, nos seus últimos tempos.  Nós víamos como as mãos já te tremiam e que isso te enervava, mas nem te dizíamos nada. Ficou muito por dizer, e é talvez por isso que agora nos custa tanto - de formas diretas ou indiretas, tentámos mostrar-te que estávamos preocupados contigo, mas que direito tínhamos nós de questionar o teu modo de vida, o que escolheste para ti? Tento serenar o turbilhão de pensamentos e emoções que me ocorrem quando penso em ti, o que fiz e disse e podia ter feito, mas tenho a certeza que, se voltasse atrás, seria tudo igual. Cada um é como cada qual e tu eras o nosso Tio Gil. E amamos-te profundamente tal como eras, tal como escolheste viver.

quinta-feira, setembro 03, 2015

Cartas ao meu tio - III - O que foi não volta a ser

Esta semana vi uma foto da casa da avó no facebook. Já não é a mesma casa da avó: a varanda está despida dos mil e um vasos de flores bonitas que ela cuidava, e a porta está fechada. A porta de casa da avó nunca estava fechada, só à noite. Durante o dia, a porta ficava escancarada, convidando quem quisesse a espreitar a marquise com o sofá onde o avô se deitava, e a entrar a qualquer hora.
Quando a avó e o avô partiram, passei muitos anos sem conseguir lá entrar. Não era a mesma casa: a avó não me viria receber à porta e o avô não chamaria passarito à minha irmã. No início, fechava os olhos quando chegávamos à aldeia, pois a primeira imagem que vemos é aquela frondosa vivenda a abrir os braços à nossa chegada, agora vazia dos braços que nos recebiam. Os meus pais já tinham uma casa nova em Aldeia Velha, o que nos deu o distanciamento necessário para continuar a visitar a aldeia e, aos poucos, deixar de sofrer tanto com a partida dos avós. Habituámos-nos, também, a pensar que agora era "a casa do Ti Gus e do Ti Gil", a porta de onde vos víamos sair, sempre bem arranjados e cheirosos (seguindo o legado do avô, todos os meus tios são aprumados, mas o mais vaidoso eras tu, tio, que nunca saias de casa sem pentear muito bem o cabelo e engraxar os sapatos).
No dia da cerimónia das tuas cinzas voltei lá a casa. A cozinha está igual, a lareira onde eu e a avó adormecíamos à conversa pela madrugada, o fogão onde ela fazia os melhores petiscos e sobremesas, e na bancada o rádio onde ela ouvia o terço, todos os dias às 19h. Tio, tu continuaste passar ali as tuas férias, a sentir a presença dos avós em cada quarto. De certeza que percorreste muitas vezes aquele corredor pensando nos Natais que ali passámos todos juntos, eu e as tuas filhas a pendurar meias à lareira. O futuro parece-me tão triste sem isto, os cheiros da casa da avó, a música do teu acordeão, as tuas bochechas rosadas à mesa (mesmo sem teres bebido nada, eu sei!! A tua Marília é igual). Tenho medo de sermos menos, tenho medo que os meus filhos já não saibam o que é isso de ter uma família com muitos tios e primos à mesa. Fico tão triste quando penso que já só te irão ver a tocar num vídeo ou em fotografia... não é justo, simplesmente não é! Tanta gente má que Deus podia tirar da minha vida, e escolheu-te a ti, tio, que tanto gostavas de mim... se me faltam os meus tios ou os meus pais, falta-me o meu berço, o meu refúgio, o meu chão. Não sei o que sou sem quem me conhece e me faz feliz.
Mas como diria a música "o que foi não volta a ser, mesmo que muito se queira" ... Deixa só que te possamos recordar, dia após dia, aniversário após aniversário. Deixa que te veja nas tuas filhas, tão parecidas contigo. Deixa-me ter para sempre a recordação do teu sorriso verdadeiro e sereno, que me ajuda também a acalmar.
Tenho tantas saudades!!!!

sábado, agosto 29, 2015

Cartas ao meu tio - II

Estou deitada na minha cama em Aldeia Velha, aquele leito aconchegador e onde me sinto melhor, o berço da minha vida. Passou o último dia de festas e de baile, amanhã regressa o silêncio e a vagarosa rotina da aldeia. Passaram as primeiras festas sem ti, tio; sentámo-nos à mesa com uma das cadeiras vazias, para sempre tua.
Na passada sexta-feira cheguei à aldeia de madrugada, ainda decorria o baile. Pela primeira vez não tive vontade de correr para perto da maltinha, pedir uma bebida e desatar a dançar com eles. Respirei o ar da aldeia, senti as paredes de pedra com as mãos e pensei em ti. São estas paredes, a calçada e as ruas estreitinhas que guardam as melhores recordações de família: o dia em que os meus tios me ensinaram a andar de bicicleta, as correrias pela aldeia com os primos, os passeios em família nos dias de festa, a procissão no dia 24 de agosto e a capeia no dia 25. Este ano, passámos pelos dias de festa vestidos de preto, sorrindo sem alegria, procurando vagamente a felicidade que sentíamos quando todos chegavam de França, de Lisboa ou do Porto, e nos reuníamos em casa da minha mãe. Aos poucos, dia após dia, íamos encontrando na nossa união a força que nos fará seguir em frente. Custou muito quando chegaram as tuas filhas e tu não vinhas atrás delas, vigilante e sorridente, a abraçar cada um de nós, deixando-nos o teu carinho como um carimbo de amor. Mas é tão bom saber que as tuas filhas contam connosco, que gostam de nós e que vão continuar a visitar a aldeia, a sentar-se ao nosso lado nos dias de festa, sorrindo com as bochechas vermelhinhas que herdaram de ti.
Dói muito saber que não iremos mais conversar sobre música ou escrita, mas gravo para sempre a tua voz e os teus ensinamentos. Tenho de aprender a tocar acordeão, como prometi.
Até sempre, tio.

domingo, agosto 16, 2015

Cartas ao meu tio - I

Passaram catorze anos desde que a avó nos deixou. Catorze. Quase tantos como a idade do neto mais novo, dezasseis. Ele talvez não se lembre bem dela, mas o seu carinho mora no coração dele. Naqueles Verões quentes do final dos anos 90, a avó ainda pode provar as suas bochechas gordas de bebé e pentear os loiros caracóis dele. "Anda por aí um anjinho", dizia o avô, contemplando aquele pequeno e trôpego bebé com ar de querubim.
Passaram catorze anos desde que descobrimos a mais profunda dor, pela qual nunca ninguém devia passar: a de perder a avó do mimo, das conversas ao lume, do caldo escoado às duas da manhã, das doces filhozes no Natal e as milharas nas festas de Aldeia Velha. Desde então que sonhei em criar uma bolha invisível, onde pudesse guardar toda a minha família, uma mesa de onde nunca ninguém se pudesse levantar e onde nada de mal podia acontecer. Passaram anos e descobri que a minha bolha tinha defeito - por vezes tivemos novamente à beira de sentir a mesma tristeza que no dia da partida da avó, mas logo nos juntávamos à mesa de jantar, e os medos feios que nos ameaçavam deixavam os meus mais importantes em paz outra vez.
Sabes tio, às vezes tinha pesadelos sobre essa tristeza, o medo de perder um dos meus tios, os teus manos ou cunhados, mas reconfortava-me pensar que são novos e que ainda teríamos muitos Verões juntos. Até que, a oito de agosto deste ano, quando já todos tínhamos começado a contar os dias até às festas da aldeia, o meu telemóvel toca com a notícia que nunca podia esperar. Tu, tio Gil, tinhas partido. A avó e o avô vieram buscar-te para perto deles. A notícia veio abrir em mim novamente a ferida deixada pela partida dos avós.
Passou agora uma semana e ainda me sinto como um zombie, a pairar nesta realidade alternativa que é a tua ausência, como se alguém me tivesse obrigado a atravessar um portal para um mundo feio e escuro onde não quero viver. Sinto que ainda não acordei deste pesadelo, quero que me digam que é tudo mentira e que no dia 24 de agosto estaremos todos à mesa nos nossos melhores fatos e vestidos. Nós não nos reunimos a quatro ou a cinco como as famílias dos nossos tempos, mas a vinte ou a trinta de cada vez, e cada cadeira vazia tem para nós o peso de uma saudade imensa. Quando um de nós não pode ir a um almoço ou jantar, ou às festas da aldeia, sentimos a sua falta e não nos sentimos completos. Quando os avós partiram, tivemos de nos habituar a sermos "só nós", mas "só nós" eram os tios e os primos todos à mesa.
Sabes tio, ontem à noite comecei a sentir uma forte dor no peito, já não conseguia chorar mas doía-me qualquer coisa por dentro. Percebi que é aquela fase do luto em que o choque vai passando e dá lugar à saudade eterna da tua presença.
Aproximam-se as festas da aldeia e, fortes como somos, vamos reunirmo-nos todos e pensar em ti. Vontade de beber e brindar ninguém tem, mas precisamos de  estar juntos e prometer em silêncio que serás sempre lembrado. Em silêncio, porque este ano não nos vais tocar acordeão. Ainda é cedo, mas a tua música voltará. Eu acredito.

sábado, agosto 08, 2015

Ao meu tio Gil



Olá, meu querido tio. Tio de sorriso fácil no rosto, marca de família, de bochechinhas vermelhas e olhar bondoso. Somos todos baixinhos, mas tu eras o mais pequeno. Desde criança que sempre foste o mais sensível, contaram-me que tiveste muitas otites e que, por isso, ainda agora ficavas muito feliz quando te oferecíamos um cachechol, que seguravas acima das orelhas para tapar os ouvidos - especialmente naquelas noites frias de Aldeia Velha...
Eras a imagem da serenidade, o mais calmo entre a loucura toda da família, e estava sempre tudo bem para ti. Foste polícia, e metíamo-nos a toda a hora contigo para que nos contasses histórias de perseguições e crimes, mas nunca te fizeste de herói. Ser chefe de esquadra não era muito importante para ti. O melhor que te podiam dar no trabalho era uma licença para tirar os dias todos da festa de Aldeia Velha, fugindo aos turnos malucos que sempre tiveste que fazer. Eras feliz à mesa connosco, sempre caladinho mas sorridente, ao lado das duas filhas lindas que tiveste e que só te deram motivos de orgulho. Foste um pequeno génio, acabaste o 12º ano com óptimas notas e brilhavas nas aulas de música, pois tocavas de ouvido. Conta-se que, ainda não tinhas cinco anos, e já o avô te punha o acordeão no colo, para que tocasses o "Vira" com os teus dedos pequeninos, a animar a malta toda da taberna dele. Um pequeno prodígio que todos adoravam e seguiam. Animavas as festas de família com a tua música e não havia encontro ou sardinhada da malta da aldeia para onde não se levasse o acordeão, para te pedir que tocasses. Como eras tímido, tínhamos que pedir com muito jeitinho. Mas mal te vias com o acordeão no colo, era festa para toda a noite. Sabes tio, vou tentar seguir esse legado. Cheguei expressar-te esse desejo, e combinámos arranjar tempo para que me ensinasses a tocar. Mas não arranjámos, tio... o trabalho e todas as coisas fúteis em que nos envolvemos roubaram-nos o tempo que não tivemos. Ensinaste-me a tocar piano, com muita paciência, depois de teres percebido que eu, como tu e o avô, conseguia tocar de ouvido. As tardes divertidas que passámos, os dois, a descobrir músicas sozinhos, com o livro de música sempre, sempre fechado. Ler notas? Nós nunca precisámos disso, tio. Quem me vai agora ensinar a tocar acordeão, tio? Além de professor de música, eras também leitor e corrector ávido dos meus textos. Agora, quem me fará correcções gramaticais, quem irá brincar com a minha mania de abusar nas vírgulas? Lembras-te de teres corrigido o discurso da capeia do Cédric? Lembras-te de toda a gente ter chorado quando ele o leu? Bem hajas, tio. Sei que este texto terá vírgulas a mais e não é tão poético como tu mereces... ainda não consigo escrever nada de jeito. Mas precisava tanto de escrever para ti, tio. Onde estiveres, espero que saibas o quanto te admirava e adorava. Sei que te transmiti isso. Mas não te esqueças.
Agora voltaste ao colo da avó, o nosso lugar preferido. Dá-lhe por nós um abraço daqueles, forte, dos que deixavam o cheirinho das filhozes e arroz doce no corpo. Bem haja por seres sido o meu tio Gil.