quinta-feira, outubro 05, 2006

Por aí à procura de ser

Parou o carro. Ainda anestesiada pela música, saiu e atordoada olhou em volta. Não sabia o que a tinha conduzido para tão longe. Parecia ter despertado de um sono maquinal de mudanças e rotundas, ou que alguém a tinha soprado devagarinho e girado as rodas do automóvel. Ela que conduzia com o zelo do primeiro abraçar do volante, as unhas pontiagudas fincadas nos estofos, o respirar nervoso como o arranque, os olhos muito abertos e a voz irritante do instrutor sibilando aos ouvidos. Não que não gostasse de conduzir, mas uma máquina em seu poder era tão ou mais assustadora que o seu fulgurante espírito, que não sabia controlar. Sentia que naquele adormecimento devia ter deixado alguma coisa para trás, devia ter perdido a mala. Mas não, enrolada em si jazia a bolsa castanha de borboletas silenciada por ela nas peripécias das suas odisseias. E o esconderijo de si não tinha esquecido nem abandonado nada. O telemóvel-sempre-mudo, o livro que esquecia nas adormecidas viagens de comboio, o filme de olhos intrigados do bibliotecário, perscrutando as pessoas pelos filmes que escolhiam, os bilhetes de semanas e semanas de metros e autocarros, sujos dos sacos de maçãs dos intervalos e do plástico dos caprichos de chocolate, e as chaves de casa brincando e tilintando entre o rebuliço como convém em dias de chuva e as matreiras não se deixam encontrar. O caderno de pontas reviradas de ideias manchadas de café, a escova das ondas de cabelo mais teimosas que ela, os óculos de sol e pó com que não sabia ser. Por sorte tinha tudo. Não estivesse entre portas e janelas, alguém repararia naquele olhar de pupila apagada. E Sintra? Que faria em pleno centro da vila misturada entre sotaques, flashes e castelos? Talvez quisesse entrar em estórias de filmes e intrigas romanceadas, perder-se no caminho das suas palavras, e esquecer-se que tinha tanto de igual para fazer, que nada sabia a azul.

“…I need to change the sounds that shape my life.” Robbie Williams, Please don’t die

9 comentários:

AR disse...

acabaste de me explicar porque é que ainda não tenho a carta!
=PP

***;)

delusions disse...

Eu adoro conduzir, "por aí á procura" de ser. Gostei muito do texto, e também gosto muito dessa música do Robbie Williams

Beijos*

Master Inutile disse...

Eu, na minha muito válida opinião, acho que escrever um post sobre condução é cruel! Cruel visto eu estar em vias de fazer o exame de condução!!
arghhhhhhhhhhhhhhhh

*mas como sempre adorei o fluir do texto*

Adoro quando fazes aquelas belas atribuições de personalidade aos objectos: as ondas teimosas do cabelo,as chaves que brincam e que não se deixam encontrar, o telemovel mudo... enfim... um regalo à leitura!

Francamente não consigo fartar-me de lêr este blog ( e especialmente os teus textos, os da ninfa tb, claro, mas como não a conheço como conheço a ti, estou sempre mais atenta aos teus, naturalmente ;D )

*keep it real*

P.S: E o livro que nunca mais aparece nas lojas!!! ... ^_^

P.P.S: Depois posso comprar mais do que 1 exemplar? Deixas? eheh

Joana*, a afilhada disse...

oh..gosteiiii tanto disto!
adoro a forma como escreves madrinha...e identifico-me sempre tt com as tuas palavras...tb eu já fui parar a sintra sem saber como ou porquê...

o alquimista disse...

Um dia desses convido-te para escreveres uma peça comigo...tens uma forma deliciosa de narrar as coisas...

Doce beijo

Joana disse...

isso é tudo para me aguçars ainda mais o bichinho para ler o livro né? fico à espera...

Odnilro disse...

Até onde nos pode levar a condução!... Bem sei que tenho andado desaparecido, que há muito que não acompanho a deliciosa escrita destas letras soltas, nem sobre elas tenho opinado nem comentado.
Pois, tudo isso se deve porque na minha condução tive um embate de consequências fatais, causador de marcas profundas para toda a existência dos dois acidentados. A recuperação vai acontecendo, estando numa etapa de uma estabilização bem cimentada.
Já não conduzo mais sozinho.
Talvez consiga, agora, por aqui passar com alguma frequência para beber dos devaneios destas letras que por aqui vão crescendo.
Felicidades!

Pakena Ticá disse...

Lindo :) Adorei como descreveste cada passo... como sempre :)

**

Angel disse...

And if you die before I leave, what on Earth becomes of me? :***