domingo, janeiro 22, 2006

Nada

"Se meu pai não tivesse conhecido minha mãe; se os pais de ambos não se tivessem conhecido; se há cem anos, há mil anos, há milhares e milhares de anos um certo homem não tivesse conhecido certa mulher; se... Nesta cadeia de biliões e biliões de acasos, eis que um homem surge à face da Terra, elo perdido entre a infinidade de elos, de encruzilhadas - e esse homem sou eu...
(...)
Como pensar que «eu poderia não existir»?
(...)
Como pensar em nada? A minha vida é eterna porque é só a presença dela a si própria, é a sua evidente necessidade; é ser eu, EU, esta brutal iluminação de mim e do mundo (...), este SER-SER que me fascina e às vezes me angustia de terror... E todavia eu sei que «isto» nasceu para o silêncio sem fim...
Como tu, meu velho. Aí estás à beira da cova, na urna aberta, para te reconhecermos pela última vez. Onde está a tua pessoa, onde está o que eras tu? Passam pela estrada os carros chiando. Vêm das vinhas, das vindimas, trazem o aroma da terra e da vida. Mas tu agora és apenas a tua imagem. Que é de ti? (...) Viverás ainda na memória dos que te conheceram. Depois esses hão-de morrer. Depois serás exactamente um nada, como se não tivesses nascido. (...) Sim, agora ainda vives para mim porque te sei."

Aparição, Vergílio Ferreira

O angustiante nó na garganta, o friozinho na barriga. O abraço perdido no horizonte, pura quimera que se desfaz numa imagem enevoada e em sensações silenciadas, que sabem simplesmente ao sofá em que me estendo. Aparição de figuras incorpóreas, insubstanciais, páginas e páginas arrancadas do livro dos momentos e conversas que tentei prender em mim, e que voam loucas pela janela, puxadas pelo vento tirano que varre os melhores sorrisos, insistindo que não posso querer guardar tantos livros e tantas páginas de ti no meu quarto. E o medo da não-existência povoa-me de novo, entre os momentos em que giras em mim, em que me invade a revolta. Tantos instantes completos na sua simplicidade, agora visões difusas, confusas. Semicerro os olhos, franzo as sobrancelhas. Procuro-te nos interstícios de mim... mas o vento vai-te afastando do que eu sou. Até ao dia em que o vento me puxará pela janela aberta do meu quarto e da minha memória também.

9 comentários:

Ninfa disse...

Inspirado, profundo..fizeste-me voltar a pegar nesse livro que estudámos no 12º ano...pegar nas palavras tão difusas e na altura tão confusas, estranhas absurdas, sobre essa bizarra questão que é existir e depois deixar de exstir. Lembrar e deixar de lembrar. Amar e deixar de amar. Viver e morrer=) LIndo, fantástico, amei!

el Ramalho disse...

Faço minhas as palavras da ninfa...
(excepto na parte de pegar no livro)

Hizys disse...

Foi com Vergílio Ferreira que despertei realmente para as questões do sentido da vida e da morte, o auto-conhecimento e a não-existência. Uma obra marcante do modernismo português.

Alice Matos disse...

excelente escolha! excelente continuação... só acho que há certas procuras que devem ter limites porque nos conduzem à frustração. O mistério do ser-ser conduz à frustração. somos o quê, na verdade? Façamos como o gato de Pessoa e ignoremos o pensamento, ainda que tudo isto seja a fingir.*

Unattached disse...

Li e já reli esse livro...e agora depois deste post tenho vontade de o ler de novo. Talvez o faça...Também foi Vergilio Ferreira que eu despertei para essa parte do Ser pensante ... nao estas só. \o eheh . ;)

bjs

Odnilro disse...

Ísis, estás com alguma crise existencial? Há uma insistência neste tema!

Pode parecer frustrante a vida inteira de uma pessoa resumir-se a recordações, deixadas a quem com ela conviveu ou a quem de alguma forma a pessoa tocou, que se dissipam há medida que morrem os que as guardam.
Que vida esta tão simples e tão complexa que nos limita a uma existência tão longa que a vemos como curta! A criança chora porque nunca mais é grande e o velho reclama porque o tempo passou num instante. Mas, também, é esta passagem geracional que renova e trás frescura à humanidade.

Não haverá, similarmente, aqui um sentido egoísta da existência enquanto nos vemos somente como individuo e não humanidade? Será um fim obrigatório que cada indivíduo deixe uma marca eterna para que sua existência não fique esquecida?
Se cada humano que nasceu neste planeta não morresse e a vida fosse eterna, desgraçados éramos todos porque não haveria espaço para tão grandioso número populacional.

Deparei-me com a morte tinha cerca de 12 anos. A experiência ainda hoje a guardo no meu coração. Chorei porque me levava uma pessoa muito querida mas, para o entendimento que tinha e ainda tenho da vida, chorei não pela morte mas pela saudade. Pelos momentos que vivi e nãos os poderia repetir, por não ter aprofundado o relacionamento talvez porque o dava como eterno. Como se costuma dizer, só damos valor às coisas quando não as temos.

Vergílio Ferreira é solidão (e, ocultado, esperança).

Pato Suicida disse...

nem que seja uma faca de cozinha... vá... sangue!

Odnilro disse...

Pato, não terás ligação a esta rede de armamento que foi agora desmantelada?

Pato Suicida disse...

não... eu actuo sozinho em qualquer parte do país!