segunda-feira, maio 21, 2007

Volver

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"(...) Tengo miedo del encuentro
con el pasado que vuelve
a encontrarse con mi vida
.
tengo miedo de las noches
que, pobladas de recuerdos,
encadenan mi soñar.

Pero el viajero que huye,
tarde o temprano detiene su andar
Y aunque el olvido que todo destruye,
haya matado mi vieja ilusión,
guardo escondida una esperanza humilde,
que es toda la fortuna de mi corazón
. (...)"

A gravata aperta-te o pescoço, os olhos escondidos no escuro dos óculos de sol, e a boca inerte, não sorris direito ao volante, tudo é um sufoco de imagem, um aparato. A única fotografia que tenho tua passado dois anos, é apenas mais uma mentira. Sempre pensaste que eu queria mais do que eras, que não me chegavas. Sempre te forjaste comigo.
Não tiras os óculos porque os olhos te denunciariam. Sempre falaram melhor comigo que tu. O medo, quando me dizias "eu volto prá semana, vou arranjar dinheiro". À distância te constróis e não me queres ver até inchar de orgulho. Para os outros é muito mas eles não sabem o que já quiseste ser. Quiseste um curso que a boémia te roubou e sim, eu também. Lutaste por mim, não por ti. Em fúria te acabas num trabalho que não te dá vida mas nome. O que é um nome se for apenas assinatura nos papéis desarrumados da gaveta? O teu nome será mofo antes da reforma.
Não te quero encontrar. Deves cheirar a papel e notas gastas no bolso. Deves ter as mãos amarelecidas de dinheiro e dentes sujos de café. Deixaste o Acqua de Gio das surpresas. Mãos no meu rosto, quem é? És tu, sei bem. Eras tu a descer da segunda carruagem. Deixaste-o por outro perfume tosco e forte, de Homem como me disseste tu. Sempre te perguntei pelo teu perfume. Quando me telefonavas imaginava-te de jardineiras e inspirava Acqua de Gio de dentro de mim. Imaginava-o meu, ainda na camisola.
Nunca usaste gravatas, gostavas de jogar à bola todos os dias, e agora só tens tempo para ver televisão. Na fotografia a tua gravata nem cor tem, azul escura confunde-se na estofo do carro. És apenas mais um rosto à espera que do sinal verde para passar.
Tenho tanta pena de ti. Estás outra vez a lutar por mim, não por ti.

2 comentários:

o alquimista disse...

Hoje vou celebrar os dos da terra sem a tua companhia, misturar-me com os sons do mundo sem coisa alguma, ao partires abriste em meu coração um caminho, sonhos perdidos na espuma…


Boa semana


Doce beijo

Sofia disse...

Gostei do post... Um grito de raiva ou simplesmente um desabafo gritado?

Beijinhos e boa semana
Sofia