sábado, março 04, 2006

Quando a cortina cai

D.Sebastião, Rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia
Cadáver adiado que procria?

Mensagem, Fernando Pessoa


Nada fica nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irresponsável treva que nos pese
Da húmida terra imposta
Cadáveres adiados que procriam

Leis feitas, estátuas visitas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carne
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, porque não elas?
Somos contos contando contos, nada.

Ricardo Reis

Balanço entre a serenidade epicurista e a sofreguidão de sorver cada minuto como o clímax de mim, entre a afasia estóica e o pathos que rebenta a cada acto da minha peça. Pensei que não precisava de máscara, e caí mesmo a meio do palco. Mercador de Veneza transformou-se no Auto da Barca do Inferno. Corro aos tropeços para os bastidores, entre as gargalhadas do elenco e do público. Beijos e lágrimas aplaudidas, talvez todos esperassem que eu acabasse por cair como o rouxinol, no canto mais perfeito, na pirueta mais graciosa, na expressão mais estudada, no olhar mais sincero. Assim morrem os artistas. Num passo em falso, num desmaio em cena, uma fraqueza. E a minha queda ressoou pela ampla sala de teatro. Já no camarim, contemplo-me no espelho brilhante do estocador, despenteada, a maquilhagem esborratada pelas lágrimas, os collants cheios de malhas, o tule sujo de pó. Fecho a porta à chave, respiro fundo. Bato muito rápido com os pés como quando estou enervada, e dou um grito abafado. Limpo as lágrimas, e canto para não ouvir o frenesim do palco. Não me importo. Sei que é só esta noite. Na próxima peça, serei apenas um conto contando nada, um fantasma de outras galas, de outros bailes, de outros aplausos.


 Posted by Picasa

E louca fui, porque quis grandeza... Mas nunca serei um cadáver adiado.

11 comentários:

Ninfa disse...

Gosto de fernando pessoa. Gosto de pessoas e coisas loucas. 8vou voltar para comentar mais)necessito reler novamente.

Pássara disse...

Fernando Pessoa é um dos escritores português que mais curiosidade me provoca, devido à sua peculiar maneira de ser e escrever!
Eu também adorei Monstros e Companhia, a Bu é tão querida!

Odnilro disse...

Pato! Onde estás?! Traz lá o raio de uma bomba urgentemente!

n_mouadib disse...

Vale sempre apena, quando a Alma não é pequena...

Ninfa disse...

Este post traz imagens estonteantes ísis... afasia não é uma mal d k padeças absolutamente!

Hizys disse...

não, de facto. já a procurei, mas não é quem eu sou... ;)

A minha melhor hora: Um quarto para as Onze! disse...

lol como tou pelos cabelos com fernando pessoas :D gosto muito mas já custa ouvir falar do homem :D****

A minha melhor hora: Um quarto para as Onze! disse...

fernando pessoa* =D

AR disse...

nunca seremos adiadas...nunca ninguém adiará os nossos sonhos enquanto tivermos um palco e uma audiência!
;)
e assim te tornas...pessoa.
*

Anónimo disse...

enfim, antes um cadáver adiado do que um cadáver esquisito.


dá mais tempo para respirar.

boss disse...

Tou acordado?