domingo, junho 25, 2006

Medos a fugirem da cave


Viajei pela memória por segundos, não havia música a tocar mas era como se existisse. Ressoavam no meu cérebro sons inconfundíveis, memórias sucedendo-se a um ritmo alucinante, até ficar a ponto de vomitar. Senti-me perdida de repente, eu que sou epicentro de todas essas emoções. Senti-me um terramoto e comecei a tremer em choro convulso. Tantas foram as vezes que me puxaram o tapete debaixo dos pés, muitas foram as vezes em que o meu mundo de paredes sólidas ruiu, inúmeras as vezes em que a minha terra firme tremeu. Hoje não passam de fragmentos prismáticos, de estilhaços ou flashs dos quais já não consigo recordar o todo. E senti-me como uma laranja a quem espremeram todo o sumo. Doeu. E foi uma dor que nenhuma palavra pode descrever. Porque nenhuma palavra é dor e nenhuma dor é palavra. Daquelas que deixam os olhos inchados e vermelhos de choro. Ou que nem dão sinais visíveis mas nos quebram por dentro. Esses momentos em que nenhum cliché estapafúrdio como “amanhã é um novo dia” me impediu de sentir uma consternação ímpar e um nó no peito que não conseguia desatar. E em certos dias em que o ser se remete à reflexão as pérolas-lágrimas reaparecem e percorrem o caminho do rosto até ao chão. Caiem a limpar a alma, são lágrimas de medo. Quando nos pisam muitas vezes criamos o mecanismo de afastar o pé porque temos medo. Não atravessamos tão depressa a estrada.Só agora, neste ínfimo segundo em que enuncio, confesso baixinho: “tenho tanto medo”. De que não exista nada nada daquilo que faz girar o meu mundo. De que aquilo que lutei, que acreditei seja mais uma ilusão. E fico com vontade de me esconder debaixo da mesa da cozinha para ninguém me encontrar. Fico a jogar às escondidas com os meus medos secretos (que às vezes fogem da cave.) Escondo-me e fujo do medo. Debaixo da mesa trauteando baixinho uma música harmoniosa. Mexo muito no cabelo como faço quando estou nervosa. Quando o medo chegar vou-lhe dizer muitos disparates por estar mesmo nervosa. Vou-lhe pedir em voz doce para ir embora, vou chamar por ti por entre as palavras, para afugentar o medo. Para levares o medo contigo e me levares também. Não, não sei para onde. Não conheço mais do que este caminho entre a minha casa e o Mundo das cores e sabores. Não sei mais do que este andar por aí, sem saber exactamente como ir para esse “aí” ou “ali”. Já sei o que quero pedir par a o meu aniversário. Dá-me o mundo. Sim o mundo todo na reviravolta dos dias. Agora, simplesmente nesta fracção de tempo fico sem rumo e polvilhada de receios, em vez de açúcar (aquele com que gostas de polvilhar pastéis de belém). Fico com os olhos grandes cobertos de sombras e luas em quarto crescente. Anseio ser apenas lua cheia a iluminar o véu negro que esconde os amantes. A noite onde me escondo de tudo e me escondo em ti. Sacudo os medos com a mão, mas eles não vão embora. Que fazer?Faço-me de forte, mas de facto não tenho músculos.Não tenho força. Baixo a cabeça e abano-a em jeito de resignação. Será que me ouves por entre os pensamentos inconfessáveis?Deito-me na cama e continuo a chorar em silêncio, digo baixinho “boa noite meu amor” fixando o tecto, viro-me de barriga para baixo, aconchego-me e deixo-me levar na minha almofada. Para qualquer lado inexistente que os sonhos me queiram transportar.

4 comentários:

Hizys disse...

e eu vi-me nas tuas palavras, eu de emoções à flor da pele e tanto medo que faz tremer os dedos fortes e impetuosos. e só me apetece sentar-me no estrado da mesa da cozinha a ver os simpsons, o south park, o futurama, o er, e tantas séries que engulo só porque sim, porque às vezes a minha existência não é tão bonita como as peripécias delas. e quero empurrar os medos para a cave...mas não consigo...

Ninfa disse...

Custa muit empurrar os medos para a cave.. é como as teias de aranha..estão sempre a voltar mesmo que a vassoura esteja sempre a tentar limpá-las... ou como as moscas que acham sempre uma brecha na porta da cozinha para entrar

delusions disse...

adorei o texto...pensei em tirar uma parte mas não consigo escolher...revi-me de uma forma quase absoluta...

gostei mt do blog.volto d certeza.

*fica bem

e.l.i.c.i... disse...

Todos afectados pela melancolia.
Os momentos em que somos assombrados por todo o sofrimento recalcado e em que temos medo de nos darmos, seja a quem for, mesmo sabendo que essas pessoas podem fazer com que os medos que causam toda essa angústia voltem para a cave e não voltem a sair de lá.
Ando a fazer letrasoltóterapia e recomendo.