Master of puppets


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Ainda a brincar com as marionetas da mentira e da ilusão? Já tiveste tempo de as arrumar na prateleira. Já viste como deixaste o quarto de ti desarrumado? Querias brincar aos donos do mundo e espalhaste todos os bonecos no chão. Despenteaste-os, tiraste-lhes a roupa, mutilaste-os, desarranjaste-os da cabeça aos pés. E soltavas gargalhadas estridentes, confiante do teu poder. Dominavas um circo de aberrações. Estalavas os dedos e eles prostavam-se perante ti. Até que eu acordei e fugi, porque afinal há brinquedos que acordam quando estamos a dormir. Eu era a maior pecinha de lego, e estraguei a simples matemática das tuas casinhas, mas tu remexeste o teu imenso balde de legos e continuaste a brincar. Fingiste que não davas pela minha falta, o teu boneco preferido. Olhando para os outros, nem me fizeste muito mal. Não podias, eu sei-te melhor que eles. Tinhas medo de mim porque me desenhaste na beleza singela e harmoniosa de uma boneca de porcelana, vestida de fidalga da mais requintada corte. E a minha fragilidade convidava-te a segredar-me os teus pecados e os erros. Quando fugi calei a tua hipocrisia, e tu levaste o teu trono do quarto para a varanda. Não podias deixar de brincar, não agora. Eu estava livre e podia espalhar a tua fraude. Cresceste em falsidade porque já não me tinhas para chorar as tuas quedas e impetuosidades. Exageraste histericamente a tua pretensiosa superioridade. Estás despenteado, pesado, sisudo. A tua pele está macilenta, o teu falar é arrastado. As pessoas que riem ao pé de ti não te sentem a cair pela gigantesca bola de neve em que te tornaste. Escorregas lentamente na montanha sinuosa das tuas palavras, que se atropelam, que se magoam, que se empurram em contradições e teias de sujidade no rasto de ti, cantos poeirentos de palavras vãs e falsas, mal enroladas num novelo confuso. As tuas mãos estão suadas e o teu corpo cansado. Despenhas-te devagarinho, e não vês o fundo do precipício. Está escuro. Acendes-te na artificialidade do teu sorriso, como um candeeiro ofuscante sem luz própria. E eu sei que não tens brilho. Os outros não. Até quando serás a gargalhada inebriada e torpe das três da manhã, o hálito alucinogénico do copo vazio, o corpo cambaleante que serpenteia entre as luzes dos holofotes e as marteladas electrónicas da música? O disco acabou, e o teu encantamento também. O pano cai. Adormeces agarrado às marionetas, adormeces o teatro. Amanhã uma nova peça estreará. Porque tu és um rei teimoso de capa rota e coroa enferrujada, preso ao teu cadeirão bafiento.

Comentários

Ninfa disse…
inspiraste-te em mim de certeza:p metáforas com legos e mundos de brinquedos ahaha brincando:P sim senhora... és uma "pintora com as palavras",este texto faz um quadro na minha cabeça=)
Shelyra disse…
Quando te leio sinto-me pequenina.
Gostei do texto. :)
e.l.i.c.i... disse…
Mas um reinado não dura para sempre...
AR disse…
gosto mais de pensar em barbies e peluches do que em legos e fantoches!
=)))

onde é que está o lado positivo e luminoso das férias? o único tempo que nos resta para brincar ainda um bocadinho...
kiss*
Ísis disse…
Não me inspirei em ti, Ninfa...mas lembrei-me. =)

Sim Elici, o brilho das coroas começa a desgastar-se a alguns olhos!!

AR, legos é fiiiixe! Peluches não gosto muito... =x