domingo, maio 25, 2014

Cartas de amor

As pessoas já não sabem escrever cartas de amor. Bem sei que muitos poetas terão, certamente, dado a sua opinião sobre tão banal assunto. Mas é mesmo assim, sem ser preciso acrescentar mais nada. As pessoas já não sabem escrever cartas de amor. Daquelas que nos rasgam por dentro com as palavras que nunca tivemos coragem de dizer cara a cara. Palavras que podemos reler quando quisermos, num terraço ao pôr do sol ou simplesmente deitados na cama antes de adormecermos. Cartas de amor que nos ajudam nos momentos difíceis ou nos fazem sorrir ainda mais nos momentos de alegria. Por isso, hoje decidi escrever uma carta de amor. Não se destina a ninguém em especial. É um elogio ao amor profundo, à paixão que nos impele a usar da caneta e do papel, para aquecermos o coração daquele a quem a nossa afeição está destinada. Uma carta sem clichés, com o coração a nú. Em que podemos falar dos olhos da pessoa amada, ou do seu sorriso. Uma carta sobre saudade, ausência e até desilusão. Porque o amor é tão imperfeito como a própria vida. Porque caminhamos, caímos, erramos e voltamos a tentar mais uma vez. A vida é mais doce assim. E as cartas de amor permanecem mesmo depois dos amores que desabam, mesmo depois dos filhos e dos netos. Escrevo uma carta de amor que possa ser guardada nos baús e onde um dia poderemos ver, nitidamente, as marcas das lágrimas de quem a leu. Ficarão para sempre impressos sentimentos que, a dada altura das nossa vida, fizeram parte de nós. Não importa se o amor sobreviveu, naquele ali e agora... o nosso coração fervilhava. Há uma carta de amor em todos nós, há sentimentos que tivemos medo de revelar, sensações. Arrepios, pele de galinha, calor, falta de ar. As tuas mãos no meu cabelo. Os teus olhos a levantarem tempestades no meu coração. Os sorrisos fáceis cada vez que estamos juntos e a forma peculiar como me fazes rir mesmo quando me apetece chorar. Numa carta de amor, o que eu sinto transforma-se no que tantos de nós já sentiram. É também uma prece para que o amor não morra, para que a paixão nos continue a fazer olhar em frente, a encher tudo de luz e a dar-nos vontade de dançar. Amor de amigos, amor de amantes, amor... a abrir as portas as janelas. Na minha carta de amor despeço-me com um sorriso sincero e sento-me numa esquina a observar. Irão as pessoas aprender a escrever novamente cartas de amor?
 

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