segunda-feira, junho 16, 2014

Como gosto de te ver correr

Tenho uma fotografia tua que é toda a minha infância. Nessa foto estás a correr à minha frente, por entre um beco que chamaste de teu esconderijo, pela calçada que conheço tão bem. Sabes, quando tiveres idade para isso, vou contar-te que esse também foi um dos meus esconderijos na aldeia. Vou contar-te que, quando tinha a tua idade, e ainda mais velha, adorava esgueirar-me pelas "quelhes" que para mim eram caminhos mágicos, especialmente aquela em que entrava perto da casa da minha avó, na avenida de Santa Cruz, e ia dar diretamente à igreja - especialmente boa para evitar os ralhetes da avó, que não gostava que chegasse atrasada à missa. Mais tarde, quando fores um bocadinho mais velha, vou contar-te que me juntava ali com os meus amigos, nas noites de baile, para beber uma ou outra cerveja às escondidas dos nossos pais. Vou contar-te também, se me prometeres segredo, os namoricos que começaram nesse teu esconderijo. Tu ainda não sabes, mas cada pedacinho de calçada tem a sua história, desde os tempos que nem tu ou eu imaginamos, até à minha época e do teu pai. Na calçada das tuas brincadeiras, passaram outros pés e outras vidas, com as suas histórias e recordações, que as pedras, confidentes, guardam para todo o sempre.
Sabes, quando te vejo correr consigo esquecer por um pouco a nostalgia de que sou feita, as saudades dos meus avós e tios-avós, aquela mania dos mais velhos de pensar que nunca será tão bom como era antigamente. Não, porque tu vieste e também te apaixonaste por aquela aldeia, porque sabes correr cada beco e decorar cada caminho, como eu e os meus primos fazíamos. Também foi lá que aprendeste a andar e a cair de bicicleta, a tomar banho de mangueira e a brincar ao boi. Vais descobrir e amar aquela aldeia como nós e não a vais deixar morrer, mesmo que só possas ir nas férias de Natal e de Verão. Serás feliz na aldeia, como nós fomos e somos.
E é por isso que, excepcionalmente nestes dias, troco os saltos altos pelos ténis e corro de mão dada contigo, pelas ruas e "quelhes" de Aldeia Velha.

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