Viagens


Posted by Picasa

Gosto de viagens. De amarrotar as camisolas na mala, de gravar CDs e mais CDs para ouvir no carro. Uma música para a mãe (Madalena Iglesias, Beatles, Elvis e Sinatra), outra para o pai (Pink Floyd e... Quim Barreiros, pois), e o resto para mim e para a minha irmã. Para cantarmos em plenos pulmões e inventar loucas coreografias sentadas.
Gosto de fazer caretas aos miúdos do carro do lado, e escrever coisas ao contrário para perceberem, de ver os cães aos saltos no banco de trás, e de inventar palavras com as letras das matrículas. Gosto do pão quentinho das estações de serviço em que paramos (antes paravamos sempre em Ponte-de-Sôr, para ir a um café em que faziam as melhores bifanas. Mas as autoestradas encurtaram as curvas em que eu enjoava sempre depois da bifana - especialmente quando tomava o comprimido para não vomitar, porque misturado em água e açúcar, para eu o conseguir engolir, era ainda mais enjoativo que as próprias curvas).
Gosto de ir mandando mensagens avisando que vou chegar, e outras a despedir-me porque estou a partir.
Gosto de ouvir músicas que foram um bocadinho dos momentos de outras viagens, e deleitar-me a relembrar cada instante, imaginando o que me espera.
Gosto de adormecer em Castelo Branco, para acordar sempre ao pé do Castelo do Sabugal e abanar a minha irmã para ela ver que estamos a chegar, enquanto a minha mãe recita: "Castelo de cinco quinas, só há um em Portugal..." Só me incomodam as histórias da minha irmã sobre os intervalos da escola, as narrativas inacabáveis sobre as amigas que faz à minha mãe. Imito-a e lançamo-nos em loucas trocas de estaladas, com os "tenham juízo e estejam quietas que o pai está a conduzir", da minha mãe (mas ele não liga, está entretido a reparar no novo modelo do clio ou do c3). Normalmente eu e ela rimo-nos no final. Quando éramos mais novas era mais agressivo, e deixavamos de nos falar por uma horita ou duas. Agora é só para matar as saudades.
Gosto de fazer cócegas à minha mãe quando está a dormir, e chatear o meu pai para pôr mais alto, para mudar o CD, para mudar da RCP que não vale nada, e ouvi-lo a dizer: "vê, vê, 140 já! É impressionante, um toquezinho e nem se sente como isto lhe pega! Fabuloso, já viste?". E quando ele se perde em discursos sobre a mecânica deste carro e daquele, lançamo-nos em discussões de tudo e mais alguma coisa. O Sócrates que aumentou os impostos, o Benfica que ganhou ao Liverpool (nem eu nem ele gostamos de futebol, mas acabamos sempre por comentar qualquer coisa), a gripe das aves que parece um gang que criminosos que anda a monte, o não-sei-quantos que ainda não lhe pagou, os meus professores baldas, os transportes que aumentaram dez cêntimos, as galhetas que a mãe trouxe para comer no caminho que não são como as do Gildo de Vilar Formoso e a ver se não nos esquecemos de ir lá e trazer queijos para este e aquele e cortar as silvas no terreno e ir à lenha e...
Três horas e meia depois (que isto agora é cada vez mais rápido), gosto mesmo de avistar a placa de Aldeia Velha e o desenho da povoação pela estrada depois da primeira casa, sacudir com violência a minha irmã, que dormia com a cabeça no vidro e boca aberta, que acorda com um torcicolo, os riscos do vidro na face e o cabelo num autêntico ninho, e começar "1, 2, 3, já cá estamos outra vez", nos ouvidos da minha mãe, que resmunga de novo que a música está alta, que o meu pai vai muito depressa, e que a ponte tem pouca água.

Comentários

Paty disse…
como me sinto em total familiaridade com estas palavras!
Vânia disse…
Eu também gosto da placa de Aldeia Velha, e do cstelo...mas não durmo tanto...lol..até porque eu parto de castelo Branco :P....curioso..pensava que era só eu que implicava com o meu pai "Não se ouve nada!"..."muda para música seguinte..."
Vânia disse…
Eu também gosto da placa de Aldeia Velha, e do cstelo...mas não durmo tanto...lol..até porque eu parto de castelo Branco :P....curioso..pensava que era só eu que implicava com o meu pai "Não se ouve nada!"..."muda para música seguinte..."
Angel disse…
Identifico-me muito com as palavras da Ísis neste post. Mas eu fico eufórica é quando vejo a placa a dizer Soito, ou quando avisto ao longe a igreja... ou quando passo pelo Bar do pai do Pato Suicida. =)
Magia disse…
Familiar e nostálgico este texto...de taõ bem escrito que está, sinto-me como se tivesse viajado contigo, ao teu lado, assistindo a tudo...
Muito bonito e enternecedor
Beijo meu!
Odnilro disse…
Também concordo Magia. Este texto diz-me muito.
Embora não tenha tantos séculos quanto a Ísis (na fantasia da cronologia das imagens dos usuários) o relembrar destas viagens davam um autêntico livro sobre a vida dos últimos tempos em Portugal:
- Onde antes preparava a viagem com 3 meses de antecedência (acreditem que é verdade), agora basta uma noite e a mala está feita.
- As estradas estavam repletas de curvas contra curvas, eram apertadas e com poucas possibilidades para ultrapassagens transformando só a viagem numa autêntica aventura de uma duração longa e indefinida. Nos dias de hoje mais um pouco e a auto-estrada vai direitinho aos Forcalhos.
- Os furos ou o aquecimento do carro (sobretudo na subida do Buçaco) marcavam lugares e viagens. Nos anos a seguir relembrávamos todos os cenários da mudança do pneu sempre que nos aproximávamos desses lugares marcados. Hoje, desde que sou condutor, só tive um furo e foi em casa. :p
- O carro atulhado de malas e uma parafernália de sacos e afins mais as birras com meus irmãos a que se juntavam os meus pais. Actualmente até chego a ir sozinho.

E há muito mais….

Chegando a Alfaiates o meu pai dava-nos sempre duas opções:
Querem ir por Aldeia Velha ou por Aldeia da Ponte?
Quase sempre íamos por Aldeia da Ponte porque a estrada era melhor e mais plana. Mas eu preferia a de Aldeia Velha só porque chegando à Cabeçalta temos uma vista lindíssima sobre os Forcalhos antecipando a alegria e a inquietação muito antes da chegada.
Pato Suicida disse…
he, o bar do pato suicida!

Olha eu diria guardares este posta para publicares num futuro blog sobre a raia!
el Ramalho disse…
As viagens deixam-me vazío.
"ainda não foste e eu já tenho saudades de ti..."
adoro e odeio
Quero sempre ir mas adorava ficar.


fiquei nostálgico agora, merda!, vou-me deitar
Hizys disse…
eu gosto de ver a primeira casa, e começar a falar com as pessoas que passam. e depois de abrir a mala, dou uma volta sozinha pela aldeia, e depois começam os reencontros.

só nao gosto de voltar a cheirar a lume e a café. lá confunde-se. cá nao é familiar...

talvez mande o texto para o arraianos.net! =)
Hizys disse…
gosto de imaginar que o meu pai tem de voltar de repente a aldeia velha, quando já passámos a ponte do sabugal...
fucking_hostile disse…
Viagens... Ora aí está algo que me divide. Sempre ansioso por partir, e quando parto, sempre ansioso por voltar...
FC disse…
Viajei... é a melhor forma de conhecer, embora não dê resposta à questão de saber o que isso seja, reconheço.