domingo, março 18, 2007

Poema de um homem só

"Sós
Irremediavelmente sós,
Como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
E ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam
Todos se desconhecem.
Os astros não explicam:
Arrefecem.

Nesta envolvente solidão compacta,
Quer se grite ou não se grite,
Nenhum dar-se de dentro se refracta,
Nenhum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
Sou só eu, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
Sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
Sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços,
Dão-se os olhos, dão-se os dedos,
Bocetas de mil segredos,
Dão-se em pasmados compassos;
Dão-se noites, dão-se os dias,
Dão-se aflitivas esmolas,
Abrem-se e dão-se as corolas
Breves das carnes macias;
Dão-se os nervos, dá-se a vida,
Dá-se o o sangue gota a gota,
Como uma braçada rota
Dá-se tudo e nada fica.

Mas neste íntimo secreto
Que no silêncio concentro,
Este oferecer-se de dentro
Num esgotamento completo
Este ser-se sem disfarce,
Virgem de mal e de bem,
Este dar-se, este entregar-se,
Descobrir-se e desflorar-se
É nosso, e de mais ninguém."

António Gedeão