segunda-feira, julho 10, 2006

Voz desafinada


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Pensas que me podes anular à banalidade da minha data de nascimento. Será que um dia compreenderás que sorvo cada bocadinho de poesia? E que gosto de saltar ao pé coxinho entre uma pauta melancólica...sozinha? Sou a vertigem do precipício, no alto esperando a queda. Gosto de ouvir o silvo do vento nos meus ouvidos e abrir os braços enquanto mergulho no mais fundo de mim, seja no deslumbramento de um novo verso ou na angústia de uma lágrima flamejante. Tu reduzes tudo à comodidade, ao errar dos teus clones, social e moralmente correcto, macaco-de-imitação dos teus pais. Dizes que és um Homem e comportas-te como uma pessoa Grande, com os teus cafés da tarde e da noite. E não há um dia em que não me olhes contrafeito, porque prefiro a minha almofada azul e os meus bonecos-palavra aos caminhos que corres de testa alta com os teus planos de gravatas. Apetece-me embrulhar-me em mim e escrever; não entendes? Mesmo que seja sobre nada. O teu CD preferido que não ouvi, um livro que não leste, um bar a que não fui e um filme que não te intriga. O nada que me desprende de ti, o tudo que insistes em mim. Teimoso, irritas-me! Pintas-me com a ruga na testa, o sobrolho carregado, as respostas tortas, entre os "sim, tá bem, não, não me apetece" em sussurros que me arrancas à força. E desenhas-te a teu lado, sorridente, bon-vivant, boémio! Empurras, emproado, os meus argumentos como a ignorância de uma criança de seis anos. E sobes ao teu palco de eloquência, com os teus ensaios sobre maturidade e "coisas que pessoas da nossa idade fazem". Não tens ouvido para a minha música. Eu gosto de desafinar, e tu atropelas-me o raciocínio, baixas-me o volume, cortas-me o pio, puxas e enrolas as cordas do meu eu-viola como se eu fosse apenas um parafuso a precisar de um aperto, um carro que ronca e precisa de gasolina. Eu não sou mais um dos teus brinquedos. Não tenho telecomando nem botões. Não me podes guiar como o teu carro ou o avião de brincar, desligar o som das teclas, mudar o toque. Nem reescrever-me como uma mensagem. Eu sou só uma voz desafinada. E mesmo que não cante na televisão nem chegue ao top nacional, gosto de soar assim.

6 comentários:

e.l.i.c.i... disse...

Não, não te fazem desafinar, fazem com que escrevas uma balada em prosa. Quem chama por ti sem saber o teu nome, sem saber quem és não vale a pena, vale a pena sim, escreveres assim para elas, ou por causa delas. E que não leiam sem te ouvirem cantar!
1000*

Joana* disse...

Também gosto de desafinar e estar fora do tom e tudo aquilo que supostamente não se pode fazer..;)

AR disse...

Perfeito é o meu reflexo que vejo no teu espelho! O tudo, o nada, o amor, o ódio...
*

Hizys disse...

=D eu não canto nada, mas gosto de escrever.

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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