Voz desafinada


 Posted by Picasa

Pensas que me podes anular à banalidade da minha data de nascimento. Será que um dia compreenderás que sorvo cada bocadinho de poesia? E que gosto de saltar ao pé coxinho entre uma pauta melancólica...sozinha? Sou a vertigem do precipício, no alto esperando a queda. Gosto de ouvir o silvo do vento nos meus ouvidos e abrir os braços enquanto mergulho no mais fundo de mim, seja no deslumbramento de um novo verso ou na angústia de uma lágrima flamejante. Tu reduzes tudo à comodidade, ao errar dos teus clones, social e moralmente correcto, macaco-de-imitação dos teus pais. Dizes que és um Homem e comportas-te como uma pessoa Grande, com os teus cafés da tarde e da noite. E não há um dia em que não me olhes contrafeito, porque prefiro a minha almofada azul e os meus bonecos-palavra aos caminhos que corres de testa alta com os teus planos de gravatas. Apetece-me embrulhar-me em mim e escrever; não entendes? Mesmo que seja sobre nada. O teu CD preferido que não ouvi, um livro que não leste, um bar a que não fui e um filme que não te intriga. O nada que me desprende de ti, o tudo que insistes em mim. Teimoso, irritas-me! Pintas-me com a ruga na testa, o sobrolho carregado, as respostas tortas, entre os "sim, tá bem, não, não me apetece" em sussurros que me arrancas à força. E desenhas-te a teu lado, sorridente, bon-vivant, boémio! Empurras, emproado, os meus argumentos como a ignorância de uma criança de seis anos. E sobes ao teu palco de eloquência, com os teus ensaios sobre maturidade e "coisas que pessoas da nossa idade fazem". Não tens ouvido para a minha música. Eu gosto de desafinar, e tu atropelas-me o raciocínio, baixas-me o volume, cortas-me o pio, puxas e enrolas as cordas do meu eu-viola como se eu fosse apenas um parafuso a precisar de um aperto, um carro que ronca e precisa de gasolina. Eu não sou mais um dos teus brinquedos. Não tenho telecomando nem botões. Não me podes guiar como o teu carro ou o avião de brincar, desligar o som das teclas, mudar o toque. Nem reescrever-me como uma mensagem. Eu sou só uma voz desafinada. E mesmo que não cante na televisão nem chegue ao top nacional, gosto de soar assim.

Comentários

e.l.i.c.i... disse…
Não, não te fazem desafinar, fazem com que escrevas uma balada em prosa. Quem chama por ti sem saber o teu nome, sem saber quem és não vale a pena, vale a pena sim, escreveres assim para elas, ou por causa delas. E que não leiam sem te ouvirem cantar!
1000*
Joana* disse…
Também gosto de desafinar e estar fora do tom e tudo aquilo que supostamente não se pode fazer..;)
AR disse…
Perfeito é o meu reflexo que vejo no teu espelho! O tudo, o nada, o amor, o ódio...
*
Hizys disse…
=D eu não canto nada, mas gosto de escrever.
Anónimo disse…
Looks nice! Awesome content. Good job guys.
»
Anónimo disse…
Interesting website with a lot of resources and detailed explanations.
»