sábado, março 01, 2008

Meu querido

O lago era um coelho veloz que corria para o mar. Só ele sabia para onde ia porque eu, eu estava perdida. No ramo de uma árvore com alguma falta de equilíbrio. Afinal, meu querido, eu sempre gostei de dançar na corda bamba. Apetecia-me voltar aos velhos tempos. Tal como o cineasta que quer voltar aos filmes a preto a branco. Ao tempo em que corrias atrás de mim por entre os labirintos das minhas loucuras e caminhavas seguro no ziguezague das minhas perguntas. Não penses mal de mim, meu querido, afinal eu sou a mesma. Apenas fomos um, mas agora parece que apenas somos dois. Não me leves a mal nem quero que a desilusão te arraste como ventania. São apenas palavras como tantas outras, as demoníacas palavras que me ferem por dentro muitas vezes. Reguei as plantas, meu amor, estendi a minha alma na janela para arejar mas não sei se já está completamente pronta para voltar a usar. Talvez fique assim sem alma para não sentir falta de nada, nem me criticares ou pensares mal de mim. Porque sem alma eu não vou sentir mais, vou pensar com a cabeça e não com o coração, não vou ser mais louca. Prometo, meu querido, que o cansaço já passou e voltou o mundo das fantasias na minha cabeça. Até a escrita voltou, uma e outra vez. Volta tu também, mas traz contigo um cestinho com as coisas que te esqueceste. Com a parte de ti que me falta. Deve estar tudo no frigorífico. Espero que o nosso prazo de validade não tenha passado. Eu já limpei o pó de mim. Estou pronta para te receber no meu abraço, para te aquecer até o apito da chaleira dizer que já ferveu. Depois podemos ser chá. E dançar o chá-chá-chá. Posso te dizer que a camisola te fica bem ou que os teus beijos sabem a mar. E tu saberás porque sabem a mar. E se te me irritar irás sorrir e fazer como antes, tirar-me a irritação como remédios que se dão para a constipação. E irei ter tanta paciência como a senhora do tear que enrola fio por fio. Irei ouvir a tua história palavra por palavra até à última sílaba. Irei beber dos teus lábios e, por fim, apanhar a minha alma antes que comece a chover e não seque mais. Nunca, nunca mais.

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