O xaixai

Quando era pequenina não precisava de muita coisa: a minha mãe, o meu pai e o meu "xaixai", o cobertor rosa com rebordo de seda branca. Com quatro anos, ainda não conseguia adormecer sem o xaixai, agora velho e puído de tantas noites a fazer-lhe festinhas. Queria levá-lo para todo o lado, o meu melhor amigo de lã: a minha mãe tinha de o pôr na mala e carregar o cobertor mesmo que só fossemos passar uma noite fora. Quando íamos de férias para a aldeia, o xaixai também tinha de ir - e vir. O primeiro drama da minha vida aconteceu precisamente quando meus pais se esqueceram (se foi de propósito ou não, até agora nunca confessaram) do xaixai na aldeia e só se aperceberam disso quando chegámos a casa, a mais de 300 km de distância e, nessa altura, mais de cinco horas de viagem. Foi nessa altura que os meus pais tiveram o seu primeiro encontro com o monstro que vive dentro de mim, o meu mau feitio, assim como meu talento para o teatro. Uma choradeira dos diabos, ameaças de que não iria dormir sem o xaixai, súplicas imensas e discursos Shakespeareanos sobre a importância metafísica de um cobertor velho, da boca de uma minúscula criança de quatro anos. Venci-os pelo cansaço. Após uma viagem duríssima, eles só queriam dormir, e eu não deixava. Nunca foram de me fazer as vontades por uma birra, mas abriram uma excepção (julgo que o meu pai foi o primeiro a ceder, a minha mãe goza e diz que ele não resiste quando faço beicinho): percorreram a lista de contactos de amigos que podiam estar na aldeia e que viessem para Lisboa naquele dia, ligaram para os escassos números de telefone que existiam, e descobriram que o João e a Luz ainda estavam em Aldeia Velha. Foram eles que, já com dois filhos e fartos de birras, ouviram as preces de outro jovem casal, à beira de um ataque de nervos com a sua (ainda) filha única. Depois da longa viagem para Lisboa, em vez de irem descansar para casa, fizeram um desvio e vieram deixar-me o xaixai à cama - com o maior carinho depositaram o meu bem mais precioso ao meu lado, e eu adormeci finalmente, para alívio dos meus cansados papás. Ainda hoje se fala dessa história, pois não eram todos que, à meia-noite e depois de uma viagem de 300 km pelas santas terrinhas, vinham deixar um xaixai a uma miúda birrenta, que não era sobrinha nem era nada. Era uma criança chorona filha dos amigos deles. Dos amigos de infância, de quem foram vizinhos numa aldeia pequena, em que todos são amigos ou primos, que estudaram juntos desde a primária até aos tempos da Guarda ou do seminário, que todos os domingos faziam bailes semi-clandestinos nas garagens dos pais que estavam em França, que foram aos casamentos uns dos outros e aos baptizados dos filhos.
É deste carinho que é feito o laço que une os amigos de Aldeia Velha. Temos todos as nossas rotinas e preocupações, mas quando toca o telefone ninguém diz que não. É desta amizade que me enche o coração. Que me dá esperança nas pessoas. Que me ajuda a continuar. Como diria o Jorge Palma "enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar"... todos juntos, pela mesma estrada, saltando as pedras do caminho,  todos nós que somos "da terra dos sonhos, onde toda a gente trata a gente toda por igual"...
<3 (Até sempre...)

Comentários

Alexx M. disse…
É muito bonito o laço que une esses amigos. E que eu tenho o privilégio de ver continuar nos seus filhos. Falas dos teus pais e dos seus amigos, que eu não conheço. Mas conheço-te a ti e aos teus amigos e vejo essa união, essa amizade. Que continue assim para sempre, minha pequenina!
Um beijo enorme*****
Fátima disse…
E nós temos a sorte de ter agora uma nova família, convosco, os amigos que fizemos neste caos que é a cidade em que vivemos <3