quarta-feira, dezembro 19, 2007

"Porque sempre vivi isolado, Sofia, durante a escola, o liceu, a faculdade, o hospital, o casamento, isolado com os meus livros por demais lidos e os meus poemas pretensiosos e vulgares, a ânsia de escrever e o torturante pânico de não ser capaz, de não lograr traduzir em palavras o que me apetecia berrar aos ouvidos dos outros e que era Eu estou aqui, reparem em mim que estou aqui, Oiçam-me até ao meu silêncio e compreendam-me, mas não se pode compreender, Sofia, o que não se diz, as pessoas olham, não entendem, vão embora, conversam umas com as outras longe de nós, esquecidas de nós, e sentimo-nos como as praias em Outubro, desabitadas de pés, que o mar assalta e deixa no baloiçar inerte de um braço desmaiado".

António Lobo Antunes

3 comentários:

Enes disse...

oh..... quem ainda não se sentiu assim?

xuxana disse...

Texto lindo!!

Quase tão bom como os teus textos ;)

**

AR disse...

very
very
beautiful*