sábado, dezembro 24, 2005

Cheiros


O Homem encontra-se com a arte como um refugiado com um abrigo. Em ambos os casos a procura sôfrega de qualquer coisa que nos falta. A vida é ela uma procura esgazeada e perene do que nos faz falta. E o que é que nos faz falta? Eu gostava de mais um metro de tempo, por favor. Antes que o meu sorriso não passe de mais um sorriso a soar a falso na moldura. Antes que para além da moldura já não se ouçam as gargalhadas. Porque realmente o som das nossas gargalhadas demonstra que estamos aqui. Acho que nos torna tão “nós”. Reconheço-te ao longe pelo som das tuas gargalhadas. Se as gargalhadas tivessem odor, que odor teriam as minhas? Talvez um cheiro a geleia de morango e torradas acabadas de fazer. Talvez ainda um odor da manhã, a frescura de flores ou a um perfume qualquer de uma marca que ninguém conhece.
Ris-te muito, como se te fizessem cócegas, rimos os dois enquanto exploramos os corpos a cheirar a desejo carnal, rimos do amor, gozamos com o amor como se ele não existisse. Fazemos troça do que nos apetece. Apontamos pistolas de brincar aos nossos medos e aos amanhãs que nos metem medo. O medo cheira a podre, fruta demasiado madura. Quando deixamos o medo invadir a fruta fica madura, porque não tivemos coragem de a comer. Come a tua fruta. Dá o teu grito. Pega na tua mala mas regressa quando deres a volta ao quintal das laranjeiras que plantámos. Viajamos no quintal a dar voltas sem mexer os pés. Pegas-me ao colo e levantas-me a saia, pousas as mãos pelo corpo. As tuas mãos bailarinas e a tua boca prosa na minha boca poesia.
Eu não quero falar de amor, quero fazer troça dele. Cuspir-lhe na cara com nojo. Meu amor, vamos plantar laranjeiras e as tuas mãos aos tropeções no meu corpo. Sim, assim está bem. Vamos dançar, anda. Larga as malas. Entra no labirinto do meu corpo, vamos dançar. Até o sol rodopiar e não saber a que horas nascer ou a que horas se pôr. Anda vamos confundir o sol meu amor. O sol cheira a incêndio, fogo, labareda. Se fosse um perfume o sol seria um perfume adocicado, intenso, forte, puro. Se o sol fosse uma bebida era absinto a queimar na garganta.
A paixão cheira aos nosso perfumes misturados. Cheira a cera das velas que acendeste para iluminar o tempo do amor, cheira a incenso, cheira às minhas flores favoritas. Perguntas-me que aromas se desprendem da vida A vida tem o aroma dos cozinhados da minha mãe. Oregãos, tomilho, canela. Açafrão, baunilha, menta. Vou mudando os igredientes e aprendendo alguns truques.
Olho de relance para a porta e tu ainda estás lá. Com a camisola que te fica tão bem. Os teus olhos riem do prazer de me olhar e me despir num olhar. E sim, essa camisola fica-te mesmo bem.

7 comentários:

Sweet Patrice disse...

Mas que delícia de post..há mais por aí assim? É que adorei mesmo :) Parabéns, Martinha *

Anónimo disse...

cheira a kunami :P

Ninfa disse...

Não há respeito..isto é um blog ´sério n cheira aki a kunami!lool nós somos pobrezinhas mas asseadas. Agora vc keira identifcar-se anónimoo jaaaaa

Joana disse...

so pa dizer k as tuas plavras cheiram bem, marta..exalam o odor da sensibilidade de quem as escreve...kaul coc channel kual ke? letrasoltas, o perfume para as mulher pk as meninas ainda vao ter k esperar!


pronto comentei! hehehe e ag um kunamizinho sabia bem, assim pa recuperar as forças..é k cometar um post e bue desgastante lol!
beijitos

PaTu EsTreLadu disse...

Cheirinhu a roupa lavada é o odor deste post magnífiko..entre o peixoto e o lobo antunes..
sim ela cheira mesmu a canelinha cm um chapinhar de hortelã e uma pinta de mel..

J.B disse...

Bem... olha, aqui fica entao o meu primeiro comentário. Mais uma vez um texto excelente. Os teus textos deixam-me sempre inspirado (por isso venho aqui tantas vezes). Cheiram todos muito bem (como o cheiro do café, ou do pao acabado de fazer... ou, do molho de tomate das pizzas... eu adoro aquele cheiro, nao me perguntes porque) E queres saber o que sinto qdo acabo de ler o que escreves?... Sinto-me burro. Quem me dera ter engenho para fazer algo igual. (e ok, este comentário é algo deprimente, mas prometo melhorar com o tempo)

Hizys disse...

o teu post fez-me pensar em algo que tenho pensado muito: memórias. de que nos servem se nao temos o cheiro das pessoas, o seu toque e abraço? mas certos cheiros ainda sabem despertar o que sentimos por dentro, reminiscências de um passado que ainda nos sorri...e sabes qual é o cheiro de que gosto mais? do lume.

welcome back a mim =)