sábado, agosto 29, 2015

Cartas ao meu tio - II

Estou deitada na minha cama em Aldeia Velha, aquele leito aconchegador e onde me sinto melhor, o berço da minha vida. Passou o último dia de festas e de baile, amanhã regressa o silêncio e a vagarosa rotina da aldeia. Passaram as primeiras festas sem ti, tio; sentámo-nos à mesa com uma das cadeiras vazias, para sempre tua.
Na passada sexta-feira cheguei à aldeia de madrugada, ainda decorria o baile. Pela primeira vez não tive vontade de correr para perto da maltinha, pedir uma bebida e desatar a dançar com eles. Respirei o ar da aldeia, senti as paredes de pedra com as mãos e pensei em ti. São estas paredes, a calçada e as ruas estreitinhas que guardam as melhores recordações de família: o dia em que os meus tios me ensinaram a andar de bicicleta, as correrias pela aldeia com os primos, os passeios em família nos dias de festa, a procissão no dia 24 de agosto e a capeia no dia 25. Este ano, passámos pelos dias de festa vestidos de preto, sorrindo sem alegria, procurando vagamente a felicidade que sentíamos quando todos chegavam de França, de Lisboa ou do Porto, e nos reuníamos em casa da minha mãe. Aos poucos, dia após dia, íamos encontrando na nossa união a força que nos fará seguir em frente. Custou muito quando chegaram as tuas filhas e tu não vinhas atrás delas, vigilante e sorridente, a abraçar cada um de nós, deixando-nos o teu carinho como um carimbo de amor. Mas é tão bom saber que as tuas filhas contam connosco, que gostam de nós e que vão continuar a visitar a aldeia, a sentar-se ao nosso lado nos dias de festa, sorrindo com as bochechas vermelhinhas que herdaram de ti.
Dói muito saber que não iremos mais conversar sobre música ou escrita, mas gravo para sempre a tua voz e os teus ensinamentos. Tenho de aprender a tocar acordeão, como prometi.
Até sempre, tio.

2 comentários:

Ana Maria Calva disse...

Hoje, está a ser um dia muito difícil... 3 semanas desde a terrível noticia... Passei a manhã toda a chorar, sinto-me triste e infeliz... Só hoje é que me permiti deixar ir porque já não aguento mais... É muita dor... Muita coisa junta... Não consigo ser mais a Nini forte para os filhos e família... Pelo menos hoje, não tenho mais forças...
Os teus textos são lindíssimos por serem tão sinceros e vindos directos do coração.

Tracey disse...

Prima, tens de te deixar ir. Tens de chorar tudo o que precisas. A revolta e a dor um dia vão dar lugar à nostalgia... e como alguém me disse este verão "vais aprender a sorrir quando pensares nele, em vez de chorar"...
Abraço forte prima