A casinha branca

A minha aldeia era aquela casinha branca. Era com ela que sonhava, a caminho, o meu pequeno refúgio e paraíso de todas as aventuras. Era a primeira casa que se via, quando chegávamos, branca que só ela, ao fundo da estrada. Com flores de mil cores na varanda e cortinados de renda na porta, era a casa mais bonita da aldeia, para mim. Qualquer que fosse a hora a que chegássemos, pela manhã ou de madrugada, a chaminé estava sempre a fumegar, do lume que aquecia o corpo e a alma, com chouriça assada e sopa quentinha. Mas o melhor de chegar àquela casa, era quando a porta se abria e lá de dentro saía um abraço que sabia a arroz doce e filhós, com um sorriso sempre pronto, que sem querer se molhava com lágrimas de alegria e saudade, enquanto nos envolvia nos braços mais quentes e puros que o mundo alguma vez inventou, o colo de onde nunca queríamos sair. 

Quando os céus levaram esse abraço, chegar à aldeia e ver aquela casa branquinha é sempre como abrir uma nova ferida no coração. Durante muitos anos, quando ali chegávamos, eu fechava os olhos e a minha mãe também, enquanto o meu pai acelerava para passar rápido e virar para a nossa nova casa. Há saudades que nunca se curam. E há dias em que pesam mais.

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