Adeus, Jorge Palma

Ontem, pouco depois de saber da partida de Jorge Palma, reconheci os acordes da música de uma janela entreaberta me trazia. Alguém ouvia "Dá-me lume" a alto e bom som. Tive vontade de espreitar pela janela e pedir o abraço de outro "Palmaníaco", como eu. Não o fiz, mas senti-me abraçada por aquele desconhecido que, como eu, sofria a morte de um dos maiores músicos e poetas portugueses. Deixei que a vontade de chorar levasse o melhor de mim e perguntei-me porque estava a chorar por alguém que nunca tinha conhecido, por alguém com quem nunca me tinha cruzado. Mas a resposta é simples. Nas suas letras vi-me como num espelho e a sua poesia inspirou-me a escrever febrilmente, encantada pelas suas metáforas e imagens brilhantes. E chorei de saudade. Saudade do meu eu adolescente, deslumbrada com as músicas dele, quando as descobri sozinha, quando as ouvi com os amigos e cantávamos juntos "A Terra dos Sonhos". Chorei por um tempo que não volta. Porque o Jorge simbolizava a inocência desse tempo, das primeiras descobertas, da entrada na vida adulta. Chorei de saudade, mas também feliz, por ter vivido tanto – como ele sempre me inspirou a fazer. Por ter sugado o tutano da vida, tal como ele. Nunca deixarei de ter duas almas em guerra – mas há uma certa paz em saber terei sempre as músicas dele para ajudar a apaziguá-las. 

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